A trajetória da bailarina e professora de dança Giseli Camillo é marcada por superação, mas também por uma reflexão importante: autonomia e inclusão ainda são conquistas — quando deveriam ser direitos.
Natural de São Paulo, Giseli nasceu com catarata congênita e perdeu totalmente a visão aos 16 anos.
Desde então, enfrentou desafios que começaram ainda na infância, com dificuldades no ambiente escolar e falta de compreensão sobre sua condição.
Infância marcada por exclusão e falta de informação
Durante a fase escolar, Giseli lidou com preconceito e desinformação. Mesmo com baixa visão, conseguia se orientar por contraste, mas não enxergava o conteúdo no quadro — o que gerava interpretações equivocadas por parte de professores.
“Eu tinha baixa visão e ninguém naquela época entendia o que era, porque eu conseguia brincar me orientando pelo contraste, mas não conseguia enxergar no quadro. As professoras me chamavam de preguiçosa”, relembra.
A situação levou sua mãe a retirá-la da escola e assumir sua alfabetização em casa.
Retorno aos estudos e carreira na dança
Aos 24 anos, Giseli retomou os estudos por meio do supletivo. Posteriormente, formou-se em Educação Física e se especializou em dança e yoga.
Hoje, atua como professora na Associação Fernanda Biachini, onde coordena um projeto de balé para pessoas com deficiência visual, ampliando o acesso à arte.
Mesmo com tantas conquistas, a independência no dia a dia ainda era um desafio — até a chegada de um novo parceiro.
Cão-guia transforma rotina e amplia independência
Há cerca de nove meses, Giseli recebeu Faísca, um cão-guia treinado pelo Instituto Adimax. Desde então, sua rotina mudou significativamente.
“O Faísca representa para mim amor, independência e autonomia, porque depois que eu recebi ele, além do fato de estar me guiando e eu não depender mais de ninguém, ele é puro amor”, relata.
Com o cão-guia, Giseli passou a se locomover com mais segurança e liberdade, reduzindo a dependência de terceiros para atividades básicas.
Cão-guia também atua como ponte social
Além da mobilidade, o impacto do cão-guia vai além: ele também facilita a interação social.
Segundo Fabiano Pereira, coordenador técnico do instituto, o animal amplia a visibilidade das pessoas com deficiência.
“O cão-guia, não é apenas uma ferramenta de autonomia, é um passaporte social. A pessoa com deficiência que conduz o cão-guia, passa a sair mais, a ser vista. Ninguém interage com uma bengala, mas todos querem interagir com um cão”, explica.
Demanda ainda é muito maior que a oferta
Apesar dos avanços, o acesso a cães-guia ainda é limitado no Brasil. O Instituto Adimax já entregou mais de 100 cães, mas o número ainda é pequeno diante da demanda.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, mais de 7 milhões de pessoas no país possuem deficiência visual severa.
Para Giseli, é necessário avançar em políticas públicas e acessibilidade.
“Eu gostaria muito que tivesse uma preocupação do governo em criar políticas para incentivar o treinamento de cães-guia e também a adequação dos espaços para pessoas com deficiência visual. Contamos com o apoio locais como o Instituto Adimax, mas ainda é muito pouco, não podemos ser invisíveis, precisamos e merecemos muito mais”, defende.
Formação de cães-guia envolve estrutura e apoio social
Com sede em Salto de Pirapora, o Instituto Adimax conta com estrutura completa para formação dos cães, incluindo maternidade, clínica veterinária e áreas de treinamento.
Antes da fase final, os animais passam cerca de um ano com famílias voluntárias, responsáveis por sua socialização.
Em seguida, retornam ao centro para treinamento técnico, que dura de quatro a seis meses.
Após a formação, os cães são entregues gratuitamente a pessoas que atendem aos critérios do programa, iniciando uma jornada que vai além da mobilidade: promove autonomia, inclusão e qualidade de vida.
Fonte: JTCom, adaptado por Cães & Gatos
FAQ sobre bailarina cega e cão-guia
O que é um cão-guia?
É um animal treinado para auxiliar pessoas com deficiência visual na locomoção e no dia a dia.
Quanto tempo leva o treinamento?
O processo envolve socialização e treinamento técnico, podendo durar mais de um ano.
Como solicitar um cão-guia?
A inscrição pode ser feita diretamente no site do Instituto Adimax, conforme os critérios do programa.
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