A tomada de decisão diante de um diagnóstico de câncer nos animais de companhia vai muito além da escolha de protocolos terapêuticos. Essa foi uma das reflexões apresentadas pelo médico-veterinário paliativista e doutorando pela FMVZ-USP, Vinicius Perez, no primeiro dia do Congresso Brasileiro de Especialidades em Medicina Veterinária (CBNEV), evento realizado em 21 e 22 de março, na Universidade de São Paulo (USP).
Segundo o profissional, ao atender um paciente oncológico o médico-veterinário não define apenas um tratamento, mas também o percurso emocional, clínico e social que será vivido pelos responsáveis e os animais. O diagnóstico, muitas vezes recebido após a investigação de sintomas aparentemente simples, representa um marco que altera profundamente a expectativa de futuro da família.
A partir desse momento, inicia-se uma rotina marcada por exames, retornos frequentes e decisões sucessivas. Mesmo com intervenções adequadas, a progressão da doença pode levar à perda de funcionalidade do animal, intensificando dúvidas sobre a proporcionalidade das condutas adotadas.
Questões como “até que ponto intervir?” ou “quando o tratamento se torna fútil?” passam a fazer parte da realidade dos tutores — ainda que não apareçam em exames laboratoriais ou de imagem.
Técnica é essencial, mas não suficiente
Durante a palestra Vinicius destacou que a excelência técnica deve ser considerada na prática veterinária. No entanto, decisões clínicas não podem se sustentar apenas em protocolos, sendo necessário incorporar valores, expectativas e limites de cada família no processo de cuidado.
Nesse contexto, entra em ação o cuidado paliativo, que visa minimizar o sofrimento do animal e proporcionar mais qualidade de vida à ele.
Além disso, o profissional também abordou o impacto dos processos cognitivos nas decisões médicas, tendo como base teorias como a de Baseado nas teorias de Daniel Kahneman. Com base nisso, o especialista explicou que os profissionais alternam entre dois sistemas de pensamento: um mais rápido e intuitivo, guiado por emoções, e outro mais analítico e racional.
Em cenários de alta complexidade, como a oncologia, a predominância do pensamento intuitivo pode levar a vieses cognitivos, como:
- Viés de confirmação: buscar apenas informações que reforcem crenças prévias;
- Viés de ancoragem: basear decisões em informações iniciais;
- Viés de disponibilidade: supervalorizar experiências passadas marcantes.
Esses fatores podem influenciar condutas e reforçam a necessidade de reflexão crítica nas escolhas clínicas.

Bioética e o equilíbrio nas decisões
A discussão também percorreu a evolução da bioética na Medicina. Do modelo paternalista — em que o médico decide unilateralmente — até a valorização da autonomia do paciente, observou-se um movimento pendular que, em alguns casos, levou à chamada “autonomia solitária”, quando toda a responsabilidade é transferida ao responsável.
Para Vinicius, nenhum desses extremos é ideal. A prática mais adequada é a tomada de decisão compartilhada, que integra:
- Evidências científicas;
- Experiência do profissional;
- Valores e preferências da família.
Esse modelo evita tanto a imposição quanto o abandono decisório, promovendo uma construção conjunta do plano terapêutico.
Outro aspecto ressaltado é que decisões não devem ser rígidas. O plano terapêutico precisa ser constantemente reavaliado, acompanhando a evolução clínica e as mudanças nas expectativas da família.
Para finalizar, Perez deixou um recado: “Decisões não devem ser impostas nem convencidas, mas construídas”.
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