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Dia do aleitamento materno: a importância da amamentação para o desenvolvimento de filhotes

Rico em anticorpos e substâncias bioativas, o colostro é indispensável no nascimento e influencia a saúde, o comportamento e a qualidade de vida futura de cães e gatos

Dia do aleitamento materno: a importância da amamentação para o desenvolvimento de filhotes
Por Stéfani Campos Chagas
1 de agosto de 2026

Os primeiros dias de vida representam um período decisivo para cães e gatos. Ao nascerem, os filhotes deixam o ambiente protegido do útero e passam a conviver com inúmeros microrganismos, mas ainda possuem um sistema imunológico imaturo e praticamente não contam com anticorpos próprios.

Nesse cenário, o aleitamento materno torna-se indispensável para aumentar as chances de sobrevivência e garantir um desenvolvimento saudável. O Dia do Aleitamento Materno foi criado justamente para destacar a sua importância.

“A amamentação é um dos fatores mais importantes para a sobrevivência e o desenvolvimento saudável dos filhotes”, afirma a médica-veterinária PhD, Fernanda Machado Regazzi, mestra e doutora em Reprodução com foco em Neonatologia e Obstetrícia pela FMVZ/USP.

Conforme explica, o primeiro leite produzido pela mãe, conhecido como colostro, reúne nutrientes, anticorpos e substâncias bioativas que oferecem proteção imunológica, favorecem o desenvolvimento intestinal e auxiliam o organismo do recém-nascido a enfrentar a transição da vida fetal para a neonatal.

Colostro: proteção desde o nascimento

Produzido nas primeiras 48 horas após o parto, o colostro possui uma composição muito diferente do leite materno produzido posteriormente.

Enquanto o leite tem como principal função nutrir, o colostro combina nutrição, proteção imunológica, fatores de crescimento e componentes essenciais para a saúde intestinal.

Além de fornecer energia, proteínas, gorduras, vitaminas e minerais, ele contém elevadas concentrações de imunoglobulinas (principalmente IgG, além de IgA e IgM) responsáveis por proteger os filhotes contra infecções enquanto o sistema imunológico ainda está em desenvolvimento.

“O colostro combina nutrição e proteção imunológica, fatores de crescimento e substâncias importantes para a saúde intestinal, oferecendo ao recém-nascido tudo o que ele precisa para enfrentar esse período extremamente desafiador”, explica Fernanda.

Outro diferencial está na presença de fatores de crescimento, como IGF-1, IGF-2, EGF e TGF-β, proteínas antimicrobianas, como lactoferrina, lisozima e lactoperoxidase, além de citocinas que participam do amadurecimento do sistema imunológico.

Esses componentes estimulam o desenvolvimento das vilosidades intestinais, aumentam a absorção de nutrientes, favorecem a formação de uma microbiota intestinal saudável e contribuem para a maturação dos órgãos.

“Hoje, sabemos que um intestino saudável é fundamental não apenas para a digestão, mas também para o desenvolvimento do sistema imunológico”, destaca a médica-veterinária.

A profissional chama atenção para um detalhe pouco conhecido: a absorção dos anticorpos acontece apenas durante um curto período após o nascimento.

“Quanto mais imediata ao nascimento for a ingestão do colostro, maiores serão as chances de o filhote receber uma quantidade adequada de anticorpos e desenvolver uma proteção eficiente contra doenças infecciosas”.

Após cerca de 12 horas de vida ocorre o chamado “fechamento intestinal”, quando praticamente desaparece a capacidade de absorção dessas moléculas pela corrente sanguínea. Por isso, garantir que o recém-nascido mame o colostro logo após o nascimento é um dos principais cuidados para preservar sua saúde.

ingestão do colostro
Além da nutrição o período de amamentação fortalece o vínculo com a mãe e estimula a socialização dos filhotes (Foto: Reprodução)

Riscos da falta de aleitamento

Sem acesso ao colostro ou ao leite materno em quantidade suficiente, os filhotes tornam-se muito mais vulneráveis a uma série de problemas.

De acordo com Fernanda, a principal consequência é a falha na transferência da imunidade passiva, condição que aumenta o risco de infecções bacterianas, virais e parasitárias. Além disso, podem surgir rapidamente hipoglicemia, desidratação, perda de peso e desnutrição, situações consideradas emergências na Neonatologia Veterinária.

“A ausência do colostro e do leite materno também compromete o desenvolvimento do intestino e da microbiota intestinal, podendo aumentar a ocorrência de diarreias, reduzir a absorção de nutrientes e prejudicar o crescimento”, ressalta.

Nos casos em que a mãe não consegue amamentar, a primeira alternativa deve ser oferecer o colostro de outras fêmeas. Para isso existem opções como bancos de colostro, substitutos comerciais específicos e, em algumas situações, plasma hiperimune veterinário.

Mesmo assim, a veterinária ressalta que nenhum desses produtos consegue reproduzir completamente todos os benefícios do colostro materno, principalmente em relação aos fatores de crescimento, proteínas antimicrobianas e citocinas.

Já após os primeiros dias de vida, a alimentação deve ser feita exclusivamente com fórmulas comerciais desenvolvidas para cães ou gatos.

O uso de leite de vaca ou receitas caseiras não é recomendado, pois esses alimentos não atendem às necessidades nutricionais dos recém-nascidos.

Outro cuidado indispensável é respeitar corretamente a diluição indicada pelo fabricante, o volume adequado para o peso do filhote e a frequência das mamadas, que normalmente ocorre a cada duas horas nas primeiras semanas de vida.

Desmame sem riscos

O leite deve ser o alimento exclusivo dos filhotes durante aproximadamente as quatro primeiras semanas de vida. Nessa fase, o sistema digestório ainda não está preparado para receber alimentos sólidos.

“Introduzir alimentos muito cedo pode causar má digestão, diarreia, desconforto abdominal e reduzir a absorção adequada dos nutrientes”, alerta Fernanda.

Segundo a profissional, o desmame deve começar por volta da quarta semana e ocorrer de forma gradual, utilizando papinhas específicas ou ração para filhotes umedecida com água morna ou substituto do leite.

Aos poucos, as mamadas são substituídas até que a alimentação sólida passe a ser exclusiva.

Erros que podem ser evitados

Entre os erros mais comuns observados na rotina clínica de filhotes estão oferecer leite de vaca, utilizar receitas caseiras encontradas na internet, preparar incorretamente as fórmulas comerciais, alimentar em intervalos inadequados ou introduzir alimentos sólidos antes do período recomendado.

Outro equívoco frequente é deixar de monitorar diariamente o ganho de peso dos filhotes.

“O ganho de peso é um dos melhores indicadores de que a alimentação está adequada. Um filhote saudável deve ganhar peso todos os dias”, orienta.

A médica-veterinária também sinaliza que filhotes hipotérmicos nunca devem ser alimentados antes de serem aquecidos, já que a baixa temperatura corporal aumenta o risco de regurgitação, aspiração do leite e alterações gastrointestinais.

horas de vida
A ingestão do colostro nas primeiras horas de vida garante a proteção imunológica e o desenvolvimento saudável dos filhotes (Foto: Reprodução)

Benefícios para toda a vida

Os benefícios da amamentação vão muito além da nutrição. Do ponto de vista físico, o leite materno fornece todos os nutrientes necessários para o crescimento adequado dos ossos, músculos, cérebro e demais órgãos.

Já no aspecto imunológico, favorece o amadurecimento do sistema de defesa, contribui para o estabelecimento de uma microbiota intestinal saudável e reduz a ocorrência de diversas doenças infecciosas.

O período de amamentação também exerce papel importante no desenvolvimento comportamental.

É nesse momento que os filhotes fortalecem o vínculo com a mãe, aprendem formas de comunicação, controle da intensidade da mordida, exploração do ambiente e as primeiras interações sociais com os irmãos, experiências fundamentais para formar animais mais equilibrados e seguros na vida adulta.

“A amamentação é muito mais do que alimentar um filhote. É um período essencial para a construção da sua saúde, do seu sistema imunológico e até do seu comportamento futuro”, enfatiza Fernanda.

Para a veterinária, respeitar esse período é um investimento na qualidade de vida do animal.

“Muitas pessoas acreditam que um filhote que já consegue andar ou brincar pode ser desmamado precocemente, mas isso pode comprometer seu desenvolvimento. Cada semana ao lado da mãe representa um ganho importante para sua saúde física e emocional”.

Ela conclui que, sempre que houver necessidade de intervenção, os cuidados devem ser realizados com orientação de um médico-veterinário, já que as primeiras semanas de vida exercem influência direta sobre a infância, a juventude e a fase adulta de cães e gatos.