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Dia do Protetor de Animais: falta de recursos desafia quem está na linha de frente

Presidente de ONG destaca necessidade de políticas públicas permanentes para a proteção animal

Dia do Protetor de Animais: falta de recursos desafia quem está na linha de frente
Por Stéfani Campos Chagas
10 de agosto de 2026

Resgatar, acolher, alimentar, tratar e buscar um novo lar para animais em situação de abandono exige dedicação contínua e recursos financeiros.

No Dia do Protetor de Animais, celebrado hoje (10 de agosto), a realidade de quem atua na proteção animal evidencia que o trabalho vai muito além do resgate: envolve despesas permanentes, atendimentos veterinários, cirurgias, alimentação e uma estrutura capaz de garantir qualidade de vida aos animais.

É o que mostra a experiência da ONG Cão Sem Dono, que atua há mais de 20 anos e atualmente cuida e alimenta cerca de 500 cães, além de gatos. A sede principal está localizada em Itapecerica da Serra (SP) e permanece aberta à visitação.

Para Vicente Define Neto, presidente da organização, o trabalho dos protetores não deveria ser lembrado apenas em uma data comemorativa.

“O protetor de animais trabalha todo dia”, afirma. Na avaliação dele, quem atua na área se dedica durante todo o ano, muitas vezes, enfrentando dificuldades financeiras para garantir atendimento aos animais resgatados.

Falta de recursos é um dos principais desafios

Na rotina das organizações de proteção animal, os gastos são constantes. Alimentação, medicamentos, consultas, exames, tratamentos e procedimentos cirúrgicos fazem parte da manutenção dos animais acolhidos.

No caso da Cão Sem Dono, manter cerca de 500 cães representa uma responsabilidade financeira significativa. Vicente explica que, além dos animais saudáveis, a ONG também precisa lidar com casos que exigem tratamentos e cirurgias, o que aumenta ainda mais os custos.

“Hoje, por exemplo, nós cuidamos de 500 cães. Sustentá-los e mantê-los com saúde é muito difícil”, relata.

Mesmo com as dificuldades, o presidente afirma que a organização busca manter uma estrutura adequada para os animais. A prioridade, segundo ele, é garantir alimentação, tratamento, cuidados e um ambiente apropriado.

O problema é que, enquanto as despesas continuam, as fontes de receita nem sempre acompanham a demanda.

“A gente cuida bem dos nossos animais, dá tudo o que eles precisam em termos de tratamento e mantém o local onde eles moram em condições adequadas. Enquanto isso, as dívidas vão se acumulando e a gente vai se virando para conseguir pagar”, explica.

A situação, de acordo com Vicente, não é exclusiva da Cão Sem Dono. Ele afirma que outras organizações também enfrentam dificuldades para manter suas atividades diante da redução das doações e do aumento da demanda por atendimento.

Resgates exigem estrutura e atendimento veterinário

Um dos pontos mais delicados da proteção animal está relacionado aos casos que chegam às ONGs em situação de emergência.

Animais atropelados, vítimas de maus-tratos ou com doenças podem precisar de atendimento especializado e procedimentos de alto custo.

A dificuldade financeira pode comprometer não apenas a capacidade de realizar novos resgates, mas também a manutenção dos animais que já estão sob os cuidados das instituições.

Por isso, o trabalho de proteção animal depende de uma rede de apoio formada por doadores, voluntários, profissionais, empresas e pessoas dispostas a ajudar na divulgação dos animais.

Atuação de ONGs
Atuação de ONGs e protetores depende de doações diárias e apoio da população (Foto: Reprodução)

Como a população pode ajudar uma ONG de animais?

Para quem não tem condições de adotar ou fazer uma doação financeira, existem outras maneiras de contribuir com o trabalho das organizações.

Uma delas é compartilhar animais disponíveis para adoção. A divulgação pode ampliar as chances de um cão ou gato encontrar uma família e também alcançar pessoas que não o conheciam.

“Às vezes, a pessoa não pode adotar, mas o seu amigo talvez goste daquele cachorro e adote. Essa é uma forma de ajudar”, explica o presidente da Cão Sem Dono.

As doações, por sua vez, também são importantes para manter a estrutura das entidades. Segundo Vicente, mesmo contribuições de menor valor podem fazer diferença diante dos custos acumulados.

Outra forma fundamental de contribuir é evitar o abandono. Para a ONG, a responsabilidade começa antes mesmo de um animal chegar a uma organização de proteção.

Políticas públicas ainda são necessárias

Além da mobilização da sociedade, Vicente defende a ampliação de políticas públicas voltadas à proteção animal. Entre as medidas apontadas por ele estão programas de castração em larga escala, ações educativas e maior fiscalização.

A educação também aparece como uma ferramenta importante. Para o presidente da ONG, os cuidados com os animais deveriam ser abordados desde a infância, dentro das escolas, como forma de incentivar uma relação mais responsável e respeitosa com os animais.

“Falta de políticas públicas, falta de castração em massa, falta de educação nas escolas. É preciso começar desde quando a criança é pequenininha, ensinando os cuidados que deve ter com os animais”, afirma.

A fiscalização também é apontada como um gargalo. Na avaliação de Vicente, apesar da existência de legislação relacionada à proteção animal, ainda há situações de maus-tratos que não recebem uma resposta adequada.

Ele cita ainda a necessidade de fiscalização de estabelecimentos e atividades que envolvem animais, especialmente em situações nas quais há exploração ou condições inadequadas de criação.

Projeto de lei propõe apoio a protetores e ONGs em São Paulo

A discussão sobre a necessidade de apoio público à proteção animal também aparece no cenário legislativo paulista.

O Projeto de Lei nº 619/2026 propõe a criação da Política Estadual de Apoio aos Cuidadores e Protetores de Animais (PEACPA) e autoriza a criação do Fundo de Proteção aos Animais (FUNIMAL). A proposta foi protocolada na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo em 18 de junho de 2026.

De acordo com o texto do projeto, a política teria como objetivo coordenar, fomentar e financiar, em cooperação com os municípios, ações destinadas à proteção de animais em situação de vulnerabilidade e ao apoio a protetores independentes, cuidadores e entidades do terceiro setor que atuem na causa animal.

O projeto também prevê a possibilidade de criação do FUNIMAL, que poderia receber recursos provenientes de multas administrativas e judiciais relacionadas a infrações contra a fauna, maus-tratos e danos ambientais, além de Termos de Ajustamento de Conduta (TACs), doações, emendas parlamentares e outras fontes.

Entre as aplicações previstas estão auxílio para castrações, procedimentos veterinários, medicamentos, insumos e alimentação, além do apoio à estruturação e manutenção de abrigos, campanhas educativas e capacitação de protetores e representantes de entidades do terceiro setor.

A proposta ainda estabelece critérios para que municípios possam receber recursos e prevê mecanismos de controle, transparência e prestação de contas. O texto determina, por exemplo, a participação da sociedade civil nos conselhos responsáveis pelo acompanhamento da política e dos recursos.

O PL nº 619/2026 ainda é uma proposição em tramitação, portanto suas medidas não estão em vigor como lei.

A iniciativa dialoga com o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil (MROSC), instituído pela Lei Federal nº 13.019/2014, que estabelece regras para parcerias entre o poder público e organizações da sociedade civil em ações de interesse público e recíproco.

Despesas alimentação
Despesas com saúde e alimentação representam o maior desafio na proteção animal (Foto: Reprodução)

Proteger animais é uma responsabilidade contínua

Para quem está diariamente envolvido com resgates e acolhimento, a proteção animal não se resume a uma data no calendário. O trabalho exige presença constante e uma estrutura financeira capaz de acompanhar as necessidades dos animais.

A experiência da Cão Sem Dono mostra como a atuação das ONGs depende de uma combinação entre doações, participação da sociedade, adoção responsável e políticas públicas.

No Dia do Protetor de Animais, além de reconhecer quem dedica tempo e recursos à causa, a data também serve para ampliar a conscientização sobre abandono, maus-tratos e guarda responsável.

Como resume Vicente, uma das formas mais simples de ajudar é dar visibilidade ao trabalho realizado pelas organizações e aos animais que aguardam adoção. Compartilhar uma publicação, contribuir com uma doação ou oferecer um lar pode representar uma diferença concreta na vida de um animal.