Opções
Pets e Curiosidades

Dia dos Pais: por que o termo “pai de pet” ainda incomoda algumas pessoas?

A relação entre homens, cães e gatos envolve cuidado, responsabilidade e afeto, mas ainda desperta críticas

Dia dos Pais: por que o termo “pai de pet” ainda incomoda algumas pessoas?
Por Stéfani Campos Chagas
9 de agosto de 2026

Neste Dia dos Pais, uma expressão ganha cada vez mais espaço nas redes sociais e no cotidiano de quem convive com cães e gatos: “pai de pet”.

Ao mesmo tempo em que é usada de forma carinhosa por muitos responsáveis, ela ainda desperta críticas de quem acredita que o termo diminui ou banaliza a paternidade.

Para o psicanalista Augusto Uchoa, essa interpretação parte de um equívoco. Na sua avaliação, a expressão não busca comparar animais a filhos, mas reconhecer um vínculo marcado pelo cuidado, pela responsabilidade e pelo afeto.

“O problema é que muitas pessoas entendem essa expressão de forma literal, como se alguém estivesse dizendo que um animal é igual a um filho. Não é isso. Eu nunca falo em equiparação. Estou falando sobre vínculo, cuidado e responsabilidade”, afirma.

O profissional acredita que o incômodo surge porque algumas pessoas enxergam essa relação como uma ameaça ao significado tradicional da maternidade e da paternidade.

“Reconhecer o valor desse vínculo não significa diminuir outro. Não existe competição entre essas relações”, destaca.

Cuidar de um pet também transforma quem cuida

Independentemente da nomenclatura, a convivência com um animal de estimação pode provocar mudanças importantes no comportamento e na forma de enxergar as relações.

Segundo Uchoa, cuidar de um cão ou gato exige disponibilidade, dedicação, tempo e renúncias, características presentes em diferentes relações afetivas.

“Os vínculos nos transformam. Cuidar de alguém envolve investimento afetivo, entrega, tempo e disponibilidade. O animal desperta esse movimento porque depende de nós e, ao mesmo tempo, oferece algo que o ser humano parece ter esquecido: presença, afeto e previsibilidade desse afeto”.

Na prática, essa responsabilidade faz com que muitas pessoas reorganizem prioridades e passem a olhar menos para si mesmas.

“Você desloca suas prioridades em função daquele serzinho que nem sabe falar. Isso desenvolve empatia, senso de responsabilidade e a capacidade de renunciar ao próprio desejo. Esse aprendizado não serve apenas para o cachorro; serve para a vida e para todas as relações”, complementa.

Como exemplo da força desse vínculo, o psicanalista lembra que até pessoas em situação de rua, muitas vezes privadas de quase tudo, mantêm uma relação profunda com seus cães.

“Há pessoas que perderam praticamente tudo, mas continuam ao lado de um cachorro que permanece fiel. É um vínculo muito bonito”, comenta.

pai de pet
O termo “pai de pet” não busca comparar animais a filhos, mas reconhecer uma relação de afeto e responsabilidade (Foto: Reprodução)

Relações diferentes, mas com aspectos em comum

O crescimento do número de pessoas que optam por não ter filhos, mas escolhem compartilhar a vida com animais de estimação, também faz parte dessa discussão.

Embora considere as experiências diferentes, Augusto Uchoa observa que ambas envolvem elementos semelhantes, como dedicação, afeto e compromisso.

“Ter um filho é diferente de cuidar de um animal. As responsabilidades não são as mesmas. Mas existem características comuns, como dedicação, afeto e compromisso”.

Para ele, reconhecer esses pontos em comum não significa colocar filhos e animais no mesmo lugar.

“Eu não estou equiparando experiências. Estou falando de vínculo. Valorizar uma relação não reduz a importância da outra”, pontua.

O vínculo saudável respeita a natureza do animal

Ao mesmo tempo em que defende a importância da relação entre responsáveis e pets, Uchoa faz um alerta sobre a humanização excessiva.

Na visão do psicanalista, um vínculo saudável é aquele que respeita as necessidades naturais dos animais, sem transformá-los em substitutos das relações humanas.

“O problema começa quando o animal passa a ocupar o lugar de substituto de todas as relações humanas ou recebe expectativas que ele nunca poderá corresponder. Amar um animal não significa esquecer que ele continua sendo um animal”.

Isso não quer dizer que deve-se oferecer menos carinho, mas, sim, compreender que cães e gatos possuem necessidades próprias.

“Tratá-lo como um animal não é agredir nem deixar de cuidar. É oferecer proteção, respeito, afeto e tudo aquilo de que ele realmente precisa”.

pai gato
O envolvimento dos homens no cuidado com cães e gatos reflete transformações nas formas de demonstrar afeto e empatia (Foto: Reprodução)

O que os pais de pet revelam sobre a masculinidade

Na opinião de Augusto Uchoa, o aumento do número de homens que assumem com naturalidade o papel de pai de pet também reflete mudanças na forma como a masculinidade vem sendo construída.

O próprio psicanalista vive essa experiência. Ao se mudar do Brasil para Portugal, fez questão de levar seu cachorro consigo e reorganizar a rotina para manter esse vínculo.

Para ele, cuidar de um animal representa um rompimento com antigos estereótipos que associavam demonstrações de afeto à fragilidade masculina.

“Durante muito tempo existiu a ideia de que homem não chora, não demonstra sentimentos e não cuida. Permitir-se criar vínculos, assumir responsabilidades e demonstrar afeto é uma forma muito mais saudável e madura de ser homem”.

Mais do que um rótulo, ele acredita que a expressão “pai de pet” representa uma transformação na maneira como os homens vivenciam o cuidado.

“Talvez a maturidade esteja justamente no outro lado: deixar de enxergar o cuidado como sinal de fraqueza e entender que ele faz parte de relações humanas mais saudáveis”, conclui.