Ser referência dentro da Medicina Veterinária exige mais do que conhecimento técnico. Os profissionais precisam ter dedicação, atualização constante e compromisso com a saúde dos animais. Quando se trata da Endocrinologia, esse empenho é ainda mais crucial, já que a especialidade exige precisão no diagnóstico e tratamento de diversos quadros delicados. Um exemplo de bom profissionalismo na área é a médica-veterinária, mestre em Fisiologia, pelo Instituto de Ciências Biomédicas, da Universidade de São Paulo (USP), e doutora em Clínica Médica, pela FMVZ-USP, Márcia Marques Jericó. Ela é uma de nossas personagens neste Dia Internacional da Mulher porque foi a pioneira na Endocrinologia Clínica de cães e gatos no Brasil.

Márcia comenta que a Endocrinologia, básica e aplicada, sempre a fascinou. “É impressionante o poder das glândulas endócrinas e dos seus produtos de secreção, os hormônios, sobre os vários sistemas orgânicos, influenciando a endócrina, o crescimento e desenvolvimento, a manutenção do meio interno, além de sustentarem a produção, armazenamento e utilização de energia. Esta miríade de ações torna as manifestações clínicas das endocrinopatias extremamente variadas, o que é desafiador e instigante para o profissional da saúde”, opina.
Como já mencionado, Márcia é considerada como a pioneira na Endocrinologia de cães e gatos no Brasil, visto que, no início de sua carreira como médica-veterinária contratada do Hospital Veterinário da FMVZ-USP, não havia profissionais ou ambientes acadêmicos que oferecessem soluções ou aprendizado para as questões que ela abordava. “Um marco desta busca foi o atendimento e a posterior adoção de um cão Pastor Alemão com Hipossomatotropismo Juvenil, ou Nanismo Hipofisário, doença que era rara e sem solução naqueles tempos, visto que exigiria a reposição de GH canino e não havia esta possibilidade terapêutica em nosso meio veterinário, nem de outras modalidades de tratamento. Tive que buscar as respostas na Medicina Humana, onde fui muito bem recebida pelo serviço de Endocrinologia da FM-USP, liderado pela Dra. Berenice Bilharinho de Mendonça, que me orientou sobre a possibilidade de obtermos GH canino, a partir de hipófises de cães, tecnologia dominada pelo IPEN, sob a tutela da Dra. Irene Schwartz”, relembra.
Em resumo, Márcia levou a sério esta tarefa e conseguiu tratar aquela paciente (que tinha se tornado sua, com o nome Tutuca). A partir daquele GH obtido, fiz desta pesquisa meu Mestrado na FMVZ-USP, graças ao acolhimento do inesquecível Prof. Carlos Eduardo Larsosn, e me tornei uma “endocrinologista” na nossa comunidade veterinária, sendo constantemente procurada para opinar, diagnosticar e tratar as diversas endocrinopatias encontradas em nossa rotina, desde então”, menciona.
Em relação aos maiores desafios ao longo da minha carreira, Márcia afirma que aquilo que a maioria das pessoas considera como desafios, como preconceitos em relação à condição de ser mulher e mãe, por exemplo, não enfrentou. “Se enfrentei, nem percebi”, adiciona.
Mas ela cita o que considera desafiador ao longo de sua carreira: “Despertar atenção dos colegas veterinários para as doenças endócrinas em cães e gatos, em especial a Obesidade e as Dislipidemias; padronizar e comparar imunoensaios a serem utilizados nas determinações hormonais destas espécies; cofundar, juntamente com a médica-veterinária Flavia Tavares (RJ), a Associação Brasileira de Endocrinologia Veterinária (ABEV), em 2010, junto à outros 13 colegas veterinários entusiastas e admiráveis, foram os grandes desafios, sem dúvida nenhuma. E extremamente gratificantes foram as suas superações”, assegura.
Outro desafio significativo em sua carreira, segundo ela, foi a formação e capacitação de profissionais, por meio da criação da MV Minds Educação Continuada e Pesquisa, e do curso de pós-graduação em Endocrinologia Veterinária, pela Equalis Medicina Veterinária, ambas iniciativas em parceria com a médica-veterinária Viviani De Marco. “Como coordenadoras desses programas de Educação Continuada e de pós-graduação, enfrentamos a responsabilidade de preparar veterinários para lidar com as complexidades das doenças endócrinas, garantindo que estejam aptos a oferecer um atendimento de qualidade aos animais”, conta.

