O impacto de um conflito armado ultrapassa fronteiras geopolíticas e humanas, atingindo de forma profunda a fauna local.
Um estudo publicado na revista Scientific Reports aponta que a guerra na Ucrânia está influenciando a seleção natural de cães de rua em regiões de combate e áreas abandonadas.
A pesquisa indica que o isolamento populacional, a falta de recursos e a exposição contínua a condições ambientais extremas estão acelerando transformações genéticas e comportamentais nesses animais.
Isolamento e novas pressões evolutivas
A destruição de infraestrutura e o deslocamento da população criaram verdadeiras “ilhas” de grupos caninos. Com menor circulação entre territórios, o fluxo gênico diminui e a endogamia tende a aumentar.
Além disso, a ausência de cuidados humanos regulares impõe uma nova dinâmica de sobrevivência. Apenas os indivíduos mais aptos a caçar, resistir a doenças e suportar frio intenso conseguem se manter.
O estudo também identificou variações em genes associados ao estresse e à resposta ao medo em animais que sobreviveram a bombardeios.
Em ambientes hostis, características como hipervigilância e rápida reação a estímulos sonoros passam a ser vantajosas.
Outro ponto de alerta é sanitário: o crescimento de populações ferais sem controle vacinal representa risco futuro para a saúde pública na região.
De animal doméstico a feral
A domesticação dos cães foi construída ao longo de milênios, baseada na docilidade e na proximidade com humanos.
No entanto, em cidades sitiadas, esse padrão pode se inverter. Indivíduos excessivamente dependentes tendem a ter menos chances de sobrevivência.
A seleção natural passa a favorecer o que os pesquisadores chamam de “oportunismo biológico”: maior capacidade de detectar ameaças, adaptação ao frio rigoroso e autonomia na busca por alimento.
O estudo também discute a chamada deriva genética. Com a morte de muitos animais e a fuga de responsáveis que deixam a região com seus pets, determinadas linhagens desaparecem, enquanto outras, mais resilientes ao cenário de guerra, se expandem.
Esse processo pode modificar de forma duradoura o perfil populacional dos cães de rua.
Chernobyl e a sobreposição de fatores
A pesquisa analisou amostras coletadas em áreas como Chernobyl e regiões próximas à linha de frente.
Os cães de Chernobyl já eram considerados geneticamente distintos, em parte devido à exposição histórica à radiação após o desastre de 1986.
O conflito atual, porém, acrescenta uma nova camada de pressão evolutiva: violência constante e transformação drástica do ambiente urbano em ruínas.
Segundo os autores, trata-se de um cenário raro em que é possível observar mudanças adaptativas ocorrendo em curto intervalo de tempo.
“Estamos observando a evolução em tempo real sob as condições mais brutais possíveis. A guerra não destrói apenas cidades, ela reescreve o código biológico das espécies que as habitam.”
Desafios para o pós-guerra
O avanço de grupos ferais — com menor sociabilidade — pode dificultar futuras campanhas de vacinação e controle de zoonoses, como a raiva.
Assim, o desafio no período pós-conflito não será apenas reconstruir edifícios e infraestrutura, mas também manejar um ecossistema urbano que se tornou mais selvagem e biologicamente adaptado ao trauma do combate.
Fonte: IstoÉ Pet, adaptado por Cães & Gatos
FAQ sobre mudanças genéticas em cães na Ucrânia
A guerra pode realmente influenciar a evolução dos cães?
Sim. Mudanças ambientais intensas alteram a pressão seletiva, favorecendo indivíduos com características mais adaptadas à sobrevivência.
Por que o isolamento populacional é relevante?
Porque reduz o fluxo gênico entre grupos, aumentando a endogamia e acelerando diferenças genéticas locais.
Há risco para a saúde pública?
Sim. O crescimento de populações sem controle vacinal pode dificultar o manejo de zoonoses no futuro.
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