A anestesiologia veterinária é uma área em constante evolução e que desempenha papel central no sucesso de procedimentos cirúrgicos em animais de companhia. Entre os desafios enfrentados pelos especialistas, a hipotensão no período perioperatório – conjunto de todas as etapas que envolvem um procedimento cirúrgico, desde a decisão da cirurgia até a recuperação completa do paciente – em cães e gatos se destaca como uma complicação de alta relevância clínica, capaz de desencadear repercussões graves.
Professora titular do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ-USP), Denise Fantoni explica que a hipotensão não deve ser encarada como uma alteração transitória e inofensiva. “Pode levar a repercussões orgânicas nefastas.
A principal e mais comum é a insuficiência renal aguda, mas também são relatadas alterações gastrointestinais, isquemia miocárdica e outras complicações sistêmicas”, pontua.
Segundo a especialista, a condição pode ocorrer em qualquer paciente anestesiado, uma vez que fatores como o jejum pré-operatório, o uso de anestésicos, o sangramento durante a cirurgia e até a ventilação mecânica influenciam diretamente a estabilidade hemodinâmica.
Ainda assim, animais idosos, cardiopatas, muito jovens ou debilitados, bem como aqueles que chegam ao procedimento após episódios de vômito ou em estado clínico comprometido, apresentam maior vulnerabilidade.
Monitoramento preciso
A detecção precoce é fundamental para evitar a progressão da hipotensão e minimizar danos. Denise ressalta que a aferição da pressão arterial de forma invasiva continua sendo o padrão-ouro em situações de maior risco.
“Nos procedimentos de grande porte, em pacientes idosos ou hemodinamicamente instáveis, o monitoramento invasivo é o mais indicado, pois permite identificar rapidamente a queda da pressão arterial média abaixo de 65 mmHg, valor de referência utilizado na maioria dos casos”, explica
Apesar de existir debate na literatura sobre ajustes desse parâmetro em pacientes hipertensos ou com condições específicas, a prática clínica consolidada ainda se baseia nesse limiar. A especialista reforça que a interpretação cuidadosa do monitoramento é decisiva para a tomada de decisão.
Manejo imediato
O tratamento inicial, segundo a médica-veterinária, deve priorizar a reposição volêmica.
“A primeira medida é o desafio hídrico, já que dificilmente um paciente anestesiado não apresenta algum grau de hipovolemia, seja pelo jejum, pelas perdas de sangue ou pelo efeito vasodilatador dos fármacos”, detalha.
A resposta do animal ao desafio hídrico deve ser avaliada de forma criteriosa, e, caso não haja melhora significativa, a utilização de fármacos vasoativos torna-se necessária.
“A efedrina é a droga de eleição para casos de hipotensão anestésica convencional, enquanto a noradrenalina deve ser preferida nos pacientes em choque séptico”, orienta.
Escolha de agentes anestésicos
A seleção do protocolo anestésico é outro fator determinante para reduzir a ocorrência de hipotensão. Diferentes agentes exercem efeitos variados sobre o sistema cardiovascular.
“Alguns fármacos causam menos vasodilatação e menor depressão da contratilidade. O etomidato, por exemplo, tem impacto cardiovascular reduzido e pode ser uma escolha adequada em determinados perfis de pacientes”, observa.
Ela também destaca a importância das técnicas de anestesia balanceada, que permitem utilizar doses menores de agentes anestésicos sistêmicos.
“O uso de bloqueios regionais, associado a outros recursos, minimiza os efeitos adversos dos fármacos sobre a hemodinâmica”, acrescenta.








