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Artigos revista Clínica e Nutrição

Insulinoma em cães e gatos

Doença provoca episódios recorrentes de hipoglicemia e exige investigação clínica cuidadosa para diagnóstico e definição da conduta terapêutica

Insulinoma em cães e gatos
Por Rebecca Vettore
28 de abril de 2026

Entre as doenças endócrinas que podem causar alterações neurológicas em pequenos animais, o insulinoma se destaca por seu impacto metabólico e pela complexidade do manejo clínico. 

A enfermidade, que está associada à produção desregulada (elevada) de insulina, leva a episódios recorrentes de hipoglicemia, que podem comprometer diretamente o sistema nervoso central e periférico.

Embora seja considerada incomum na rotina clínica, o reconhecimento precoce dos sinais e a condução diagnóstica adequada são determinantes para melhorar o prognóstico dos pacientes.

“O insulinoma é uma neoplasia originada nas células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Quando há secreção autônoma e desregulada do hormônio anabólico, independentemente dos níveis circulantes de glicose, o paciente desenvolve episódios frequentes de hipoglicemia”, explica Eric Vieira Januário, médico-veterinário especialista em Endocrinologia veterinária dos Hospitais Pet Care, doutor em clínica cirúrgica de pequenos animais pela Universidade de São Paulo e coordenador dos cursos de pós-graduação de Endocrinologia veterinária da Faculdade Ufape.  

Como o sistema nervoso central e periférico dependem diretamente da glicose como fonte energética, as manifestações clínicas da doença costumam ter caráter neurológico.

“Observam-se sinais como fraqueza, tremores, desorientação, ataxia, alterações comportamentais, colapsos e convulsões. Em muitos pacientes, os episódios são intermitentes e podem ser desencadeados por jejum prolongado, atividade física ou situações de excitação”, afirma. 

Apesar de ocorrer em ambas as espécies, a enfermidade apresenta características distintas entre cães e gatos.

Nos cachorros, é relativamente mais frequente e costuma apresentar comportamento biológico maligno, com potencial de metástase principalmente no fígado e nos linfonodos regionais abdominais.

“As manifestações clínicas em cães, geralmente, são mais evidentes e diretamente relacionadas à hipoglicemia recorrente, sendo comuns convulsões e episódios de fraqueza”, destaca Januário.

Ainda de acordo com o profissional, o insulinoma ocorre com maior frequência em animais de meia-idade a idosos. Algumas raças aparecem com maior incidência em estudos, como Boxer, Pastor Alemão, Labrador Retriever e Golden Retriever, além de animais sem raça definida. “Ainda assim, isso não confirma necessariamente predisposição genética”, comenta.

Já em gatos, a enfermidade é considerada rara e os sinais clínicos podem ser semelhantes aos observados na espécie canina, porém há número limitado de casos descritos na literatura veterinária.

“Em felinos, o comportamento biológico do tumor ainda não está completamente estabelecido, mas os dados disponíveis sugerem menor taxa de metástase quando comparado aos cães. E não há predisposição racial claramente estabelecida”, explica o médico-veterinário.

Diagnósticos diante da hipoglicemia

A presença da baixa glicose no sangue recorrente exige investigação criteriosa antes da confirmação de insulinoma.

Por isso, a exclusão de condições como doença hepática grave, shunt portossistêmico, sepse, hipoadrenocorticismo, tumores não pancreáticos associados à hipoglicemia paraneoplásica, intoxicações — como por xilitol — é essencial para evitar análises equivocadas.

“O primeiro passo no protocolo diagnóstico é documentar a hipoglicemia por meio da dosagem sérica de glicose, preferencialmente no momento em que o paciente apresenta sinais clínicos”, conta o coordenador dos cursos de pós-graduação da Ufape.

Uma vez confirmada a glicemia baixa, realiza-se a dosagem de insulina na mesma amostra ou em coleta simultânea.

“Nessa condição observa-se a concentração normal ou aumentada do hormônio anabólico diante da baixa glicose no sangue, caracterizando secreção inapropriada”, explica Januário.

Após a confirmação laboratorial, exames de imagem são indicados para localizar o tumor primário e investigar a presença de metástases.

O ultrassom abdominal costuma ser o primeiro exame realizado, embora sua sensibilidade seja variável. Já a tomografia computadorizada pode aumentar a taxa de detecção. Em alguns pacientes, o diagnóstico definitivo ocorre apenas após intervenção cirúrgica, com confirmação histopatológica do tumor removido.

Existe possibilidade de cura?

Segundo o médico-veterinário, a chance de cura depende, principalmente, do momento em que a doença é diagnosticada.

“Quando o tumor é identificado precocemente e pode ser completamente removido antes da ocorrência de metástases, existe uma chance de cura e maior tempo de sobrevida. Inclusive, em casos no qual o paciente apresenta condições clínicas adequadas e não há contraindicações anestésicas, a cirurgia continua sendo a principal opção terapêutica”, diz.

O especialista conta, ainda, que o procedimento consiste na remoção do tumor pancreático por meio de pancreatectomia parcial e avaliação de possíveis metástases em linfonodos e fígado, principalmente.

Além disso, durante o período transoperatório e no pós-operatório imediato, o monitoramento da glicemia é fundamental.

Manejo clínico quando a cirurgia não é possível

Quando a intervenção cirúrgica não é viável, o tratamento clínico passa a ser a principal estratégia para controle da hipoglicemia.

“O manejo nutricional desempenha papel importante, com oferta de refeições fracionadas ao longo do dia, evitando períodos prolongados de jejum, além de dietas com teor adequado de proteínas e carboidratos de digestão mais lenta”, explica o profissional. 

Entre as opções medicamentosas utilizadas estão os glicocorticoides, que promovem aumento da glicemia ao estimular a gliconeogênese e reduzir a utilização periférica de glicose.

Prognóstico e fatores que influenciam a sobrevida

Em cães submetidos à cirurgia sem evidência de metástase, a sobrevida pode alcançar alguns anos. Já quando há disseminação metastática, o prognóstico torna-se mais reservado.

Os pacientes mantidos exclusivamente sob tratamento clínico tendem a apresentar menor tempo de sobrevida quando comparados aos que passam por intervenção cirúrgica.

Nos gatos, o prognóstico é variável e condicionado ao comportamento individual do tumor, sendo os dados disponíveis mais limitados devido à raridade da enfermidade.

“Entre os fatores que impactam diretamente a sobrevida e a qualidade de vida estão a presença de metástases, o controle adequado da hipoglicemia, a resposta ao tratamento instituído, o estado clínico geral do paciente e o intervalo entre o início dos sintomas e o diagnóstico”, conclui Januário. 

Confira o artigo completo “Insulinoma em cães e gatos”, na íntegra e sem custo, acessando a página 40 da edição de abril (nº 320) da Revista Cães e Gatos.