Há quem pense que os médicos-veterinários são responsáveis apenas por promover a saúde nas mais diferentes espécies de animais. Contudo, a Medicina Veterinária tem um papel muito mais amplo e o Dia Mundial da Medicina Veterinária – comemorado anualmente no último sábado de abril – destaca isso.
A história da veterinária teve início junto com o processo de domesticação dos animais. Documentos históricos de 1890, encontrados no Egito, já descreviam atos relacionados à arte de curar animais datados de cerca de 4.000 anos a.C..
Porém, a Medicina Veterinária moderna, praticada com critérios científicos, apenas começou a se desenvolver após a fundação da primeira escola de Medicina Veterinária do mundo em 1761, na cidade de Lyon, na França.
A primeira turma teve apenas oito alunos, mas no final do século 18 já existiam instituições dedicadas a esse ensino disseminadas por toda a Europa.
No Brasil, os cursos de formação em veterinária demoraram um pouco para chegar. Foi apenas no começo do século 20 que ocorreu a criação das duas primeiras instituições de Medicina Veterinária do país. Uma delas foi a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, que iniciou suas atividades em 1913, e a outra a Escola de Veterinária do Exército, em 1914.
Mesmo com essas e outras escolas em funcionamento, o exercício da Medicina Veterinária como profissão somente foi reconhecido em 9 de setembro de 1933, através do Decreto nº 23.133, assinado pelo presidente Getúlio Vargas.
Esse decreto conseguiu legalizar e regulamentar o exercício da profissão de médico-veterinário e estabeleceu diretrizes do ensino na área.
De animais a humanos
Pouco a pouco o papel dos médicos-veterinários começou a ser reconhecido, mas até hoje nem todos entendem a dimensão dessa profissão e o seu papel na saúde única.
Segundo Eliane Macedo Bernieri, analista médica-veterinária do Setor de Fiscalização (SEFISC/CFMV) e mestre em Ciência Animal nos Trópicos, e Patricia Estolano Francelino, analista médica-veterinária do Setor de Fiscalização (SEFISC/CFMV) com residência multiprofissional em zoonose e saúde pública, o papel principal dos médicos-veterinários no conceito “Uma Só Saúde” reside na gestão técnica e científica da articulação entre a sanidade animal, a saúde humana e o equilíbrio ambiental, previsto como primeiro dever ético profissional.
“Além da clínica individual, esse profissional atua como sentinela epidemiológica na prevenção de zoonoses e doenças emergentes. Também tem a função de garantir a segurança dos alimentos por meio da inspeção rigorosa de produtos de origem animal e do controle de resíduos químicos e biológicos. Sua intervenção é estratégica para a manutenção da saúde pública, uma vez que o monitoramento de patógenos em reservatórios animais e a mitigação de impactos ambientais são medidas preventivas fundamentais para a interrupção de situações que podem colocar a saúde humana em risco”, citam.
Dessa forma, de acordo com os normativos e diretrizes do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) e o disciplinado pela Lei nº 5.517/1968, a atuação do médico-veterinário na promoção do cuidado integral entre seres humanos e animais é organizada em frentes interdependentes.
Com isso, os veterinários trabalham na vigilância epidemiológica e no controle de zoonoses, integram equipes multiprofissionais, como as de atenção primária, desenvolvem ações de educação em saúde e implementam medidas preventivas voltadas à coletividade.
“Já no campo da segurança dos alimentos, exercem competência privativa como o único profissional legalmente habilitado para a inspeção e fiscalização sanitária, higiênica e tecnológica de produtos de origem animal, assegurando a qualidade, inocuidade e conformidade dos alimentos destinados ao consumo humano”, esclarecem.
Os profissionais da área também atuam na defesa sanitária animal e na gestão de riscos e podem executar tarefas da prática da clínica em todas as suas modalidades.
“Adicionalmente, compete ao médico-veterinário o estudo e a aplicação de medidas de saúde pública relacionadas às doenças de animais transmissíveis ao homem, consolidando seu papel essencial na interface entre saúde animal e humana”, complementam Eliane e Patricia.
Cuidado integral
Seja dentro dos consultórios veterinários, no campo ou em outras instituições públicas e privadas, os médicos-veterinários possuem um papel central na promoção de saúde para pessoas e animais.
Como esses profissionais vão além do atendimento individual do animal, são capazes de investigar fatores de risco relacionados a zoonoses e zooantroponoses.
Assim, atuam como agentes de vigilância ao identificar possíveis patógenos com capacidade de transmissão entre espécies.
“Sob esta perspectiva, o médico-veterinário clínico promove a saúde humana ao realizar o diagnóstico precoce de enfermidades infectocontagiosas e ao orientar os responsáveis quanto às medidas adequadas de biosseguridade, manejo sanitário e controle de vetores. Essa abordagem integrada possibilita a implementação de ações preventivas e corretivas, que reduzem os riscos de exposição, manipulação e disseminação de agentes infecciosos no ambiente compartilhado”, explicam as analistas médicas-veterinárias do Setor de Fiscalização (SEFISC/CFMV)
Inclusive, é por isso que em situações de pandemias e epidemias os profissionais da área são, frequentemente, convocados para atuar no combate às doenças.
Eliane e Patricia comentam que esse movimento ocorre porque uma parcela significativa das enfermidades emergentes e reemergentes que afetam os seres humanos, têm origem animal, ou seja, são doenças zoonóticas.
“A presença desses profissionais em cenários de epidemias e pandemias justifica-se, sobretudo, por sua expertise na interrupção de cadeias de transmissão e no controle de doenças na interface animal-humano-ambiente. Com conhecimentos em Medicina populacional, biosseguridade e saúde coletiva, o médico-veterinário é capaz de identificar precocemente agentes infecciosos em populações animais, muitas vezes, antes da ocorrência do spillover (salto de espécie) para humanos, atuando como uma linha de defesa antecipada”, dizem.
Combate frequente as zoonoses
As zoonoses possuem uma elevada relevância na Medicina Veterinária devido ao seu risco para animais e seres humanos.
Atualmente, no Brasil, as que estão com alerta principal são:
- Esporotricose: apresenta caráter epidêmico em centros urbanos;
- Raiva: possui elevada letalidade e têm papel relevante na manutenção de ciclos silvestres;
- Leishmaniose visceral: tem ampla importância na saúde pública;
- Helmintoses e ectoparasitoses: são facilmente transmitidas entre animais e pessoas;
- Tuberculose e brucelose: geralmente, são transmitidas por alimentos de origem animal, principalmente leite e a carne.
O papel do médico-veterinário no enfrentamento dessas zoonoses é estruturado em três eixos principais.
Segundo as profissionais do CFMV, o primeiro é o diagnóstico e a notificação da enfermidade, uma vez que compete ao veterinário a identificação clínica e laboratorial das mesmas, bem como a notificação compulsória aos órgãos oficiais, quando couber.
O segundo eixo refere-se à gestão terapêutica e à biosseguridade, envolvendo a elaboração de protocolos de tratamento fundamentados em evidências científicas. Esses protocolos devem estar aliados à adoção de medidas de enfrentamento, como isolamento de animais, controle de vetores e orientação aos responsáveis.
“Em complemento, destaca-se a atuação em prevenção e educação em saúde, por meio da implementação de medidas profiláticas, como vacinação e desparasitação, além da orientação da população quanto às práticas adequadas de manejo, higiene e controle ambiental”, explicam.
