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Clínica e Nutrição

Nutrição clínica no cuidado de doenças crônicas

Entenda como essa estratégia, que é já considerada um pilar no tratamento veterinário, pode retardar a progressão de enfermidades, melhorar a resposta clínica e preservar a qualidade de vida

Nutrição clínica no cuidado de doenças crônicas
Por Rebecca Vettore
19 de fevereiro de 2026

Há algum tempo, a nutrição deixou de ser apenas um componente complementar no atendimento veterinário e passou a ocupar um papel central no manejo de doenças crônicas em cães e gatos. 

Considerada o quinto sinal vital na avaliação clínica, a alimentação adequada atua de forma terapêutica, influenciando diretamente a evolução das enfermidades, a intensidade dos sinais clínicos e a longevidade dos pacientes.

Segundo Renata Lima, professora do curso de Medicina Veterinária da Estácio, mestre em Clínica e Reprodução Animal e doutora em Medicina Veterinária, o planejamento nutricional correto pode retardar a progressão de doenças, minimizar manifestações clínicas e, em alguns casos, levar à remissão do quadro.

“A dieta não deve ser vista apenas como suporte. Em muitas enfermidades crônicas, ela faz parte do tratamento e precisa ser conduzida com o mesmo rigor que a terapia medicamentosa”, afirma. 

No caso das endocrinopatias, como a Diabetes Mellitus, por exemplo, Renata explica que a composição da dieta exerce influência direta sobre o controle glicêmico. 

Em cães, o uso de fibras solúveis e insolúveis auxilia na redução da hiperglicemia pós-prandial e contribui para a manutenção do peso corporal. Já em gatos, a abordagem é distinta.

“Dietas ricas em proteínas e com baixo teor de carboidratos reduzem a carga glicêmica, preservam a massa magra e aumentam as chances de remissão do diabetes, especialmente quando associadas à insulinoterapia adequada”, diz a professora.

Já nas doenças renais crônicas, a modificação alimentar é considerada indispensável. A restrição de fósforo, aliada ao uso de proteínas de alta qualidade em quantidade ajustada, ajuda a reduzir a uremia e a preservar a função renal remanescente. 

A suplementação com EPA e DHA também faz parte da estratégia alimentar, pois reduz a inflamação e a pressão glomerular. 

“A dieta adequada permite retardar a progressão da lesão renal e melhorar significativamente a qualidade de vida”, ressalta Renata.

Nutrição clínica no cuidado de doenças crônicas
Influenciando diretamente o controle clínico, a nutrição assume um papel central no manejo de doenças crônicas (Foto: Reprodução)

Cardiopatias e preservação da massa corporal

Em pacientes com doenças cardíacas, o objetivo principal da nutrição é prevenir a caquexia cardíaca, caracterizada pela perda progressiva de massa magra. Por isso, a ingestão calórica e proteica precisa ser suficiente para manter o estado nutricional, enquanto a restrição de sódio é ajustada de acordo com o estágio da enfermidade.

“Nos estágios iniciais, não há necessidade de restrição rigorosa. Em quadros mais avançados, especialmente na Insuficiência Cardíaca Congestiva, o controle do sódio se torna fundamental para evitar retenção de líquidos”, pontua a docente.

Ela ainda destaca que o acompanhamento do Escore de Condição Corporal e do Escore de Massa Muscular deve ser rotina em todas as consultas.

Doenças hepáticas e individualização extrema

Quando falamos de manuseio nutricional nas hepatopatias, Renata conta que ele já é considerado um dos mais complexos da clínica veterinária, justamente pela variedade de causas e apresentações. 

“O foco principal é fornecer energia suficiente para regeneração tecidual, evitar desnutrição e controlar complicações metabólicas. Ao contrário de crenças comuns, a restrição proteica não deve ser aplicada de forma automática”, alerta Renata. 

Segundo a veterinária, a proteína só deve ser reduzida quando há sinais de encefalopatia hepática ou presença de cristais de biurato de amônio. Inclusive, em gatos com lipidose hepática, essa restrição é contraindicada e pode comprometer a sobrevivência.

“A suplementação vitamínica também tem papel relevante, especialmente das vitaminas do complexo B, além da vitamina K, em casos de colestase ou icterícia. Em situações de anorexia, o suporte alimentar por sonda é frequentemente recomendado para garantir ingestão calórica adequada”, cita.

Nutrição clínica no cuidado de doenças crônicas
O manejo alimentar para auxiliar o cuidado das enfermidades exige individualização rigorosa (Foto: Reprodução)

Alimentação comercial ou caseira: quando escolher cada uma? 

Renata comenta que, apesar de as dietas terapêuticas comerciais serem a primeira escolha pela consistência alimentar e praticidade, especialmente em doenças renais e no diabetes, há situações em que a formulação caseira balanceada se torna necessária.

Um exemplo é quando o paciente apresenta duas doenças com exigências opostas ou necessidades que os produtos comerciais não conseguem atender simultaneamente, a dieta caseira permite um ajuste fino dos nutrientes.

“Essas formulações devem ser sempre elaboradas e acompanhadas por um veterinário especializado em nutrição, evitando deficiências e riscos ao tratamento”, conclui a docente. 

FAQ sobre nutrição no manejo de doenças crônicas

A alimentação, realmente, pode retardar a progressão de doenças crônicas?

Sim. O manuseio alimentar adequado pode minimizar sinais clínicos, reduzir inflamações, preservar funções orgânicas e, em alguns casos, promover remissão, como ocorre em gatos diabéticos bem manejados.

Por que a restrição de proteína nem sempre é indicada em doenças hepáticas?

Porque proteínas de alta qualidade são essenciais para regeneração do fígado e manutenção da massa muscular. A restrição só é indicada quando há encefalopatia hepática ou alterações específicas, como cristais urinários.

Quando a dieta caseira é mais indicada do que a comercial?

Ela é recomendada quando o paciente possui múltiplas doenças com necessidades conflitantes ou quando há aversão alimentar importante, desde que seja formulada por um nutricionista veterinário e seguida rigorosamente.