Há algum tempo, a nutrição deixou de ser apenas um componente complementar no atendimento veterinário e passou a ocupar um papel central no manejo de doenças crônicas em cães e gatos.
Considerada o quinto sinal vital na avaliação clínica, a alimentação adequada atua de forma terapêutica, influenciando diretamente a evolução das enfermidades, a intensidade dos sinais clínicos e a longevidade dos pacientes.
Segundo Renata Lima, professora do curso de Medicina Veterinária da Estácio, mestre em Clínica e Reprodução Animal e doutora em Medicina Veterinária, o planejamento nutricional correto pode retardar a progressão de doenças, minimizar manifestações clínicas e, em alguns casos, levar à remissão do quadro.
“A dieta não deve ser vista apenas como suporte. Em muitas enfermidades crônicas, ela faz parte do tratamento e precisa ser conduzida com o mesmo rigor que a terapia medicamentosa”, afirma.
No caso das endocrinopatias, como a Diabetes Mellitus, por exemplo, Renata explica que a composição da dieta exerce influência direta sobre o controle glicêmico.
Em cães, o uso de fibras solúveis e insolúveis auxilia na redução da hiperglicemia pós-prandial e contribui para a manutenção do peso corporal. Já em gatos, a abordagem é distinta.
“Dietas ricas em proteínas e com baixo teor de carboidratos reduzem a carga glicêmica, preservam a massa magra e aumentam as chances de remissão do diabetes, especialmente quando associadas à insulinoterapia adequada”, diz a professora.
Já nas doenças renais crônicas, a modificação alimentar é considerada indispensável. A restrição de fósforo, aliada ao uso de proteínas de alta qualidade em quantidade ajustada, ajuda a reduzir a uremia e a preservar a função renal remanescente.
A suplementação com EPA e DHA também faz parte da estratégia alimentar, pois reduz a inflamação e a pressão glomerular.
“A dieta adequada permite retardar a progressão da lesão renal e melhorar significativamente a qualidade de vida”, ressalta Renata.

Cardiopatias e preservação da massa corporal
Em pacientes com doenças cardíacas, o objetivo principal da nutrição é prevenir a caquexia cardíaca, caracterizada pela perda progressiva de massa magra. Por isso, a ingestão calórica e proteica precisa ser suficiente para manter o estado nutricional, enquanto a restrição de sódio é ajustada de acordo com o estágio da enfermidade.
“Nos estágios iniciais, não há necessidade de restrição rigorosa. Em quadros mais avançados, especialmente na Insuficiência Cardíaca Congestiva, o controle do sódio se torna fundamental para evitar retenção de líquidos”, pontua a docente.
Ela ainda destaca que o acompanhamento do Escore de Condição Corporal e do Escore de Massa Muscular deve ser rotina em todas as consultas.
Doenças hepáticas e individualização extrema
Quando falamos de manuseio nutricional nas hepatopatias, Renata conta que ele já é considerado um dos mais complexos da clínica veterinária, justamente pela variedade de causas e apresentações.
“O foco principal é fornecer energia suficiente para regeneração tecidual, evitar desnutrição e controlar complicações metabólicas. Ao contrário de crenças comuns, a restrição proteica não deve ser aplicada de forma automática”, alerta Renata.
Segundo a veterinária, a proteína só deve ser reduzida quando há sinais de encefalopatia hepática ou presença de cristais de biurato de amônio. Inclusive, em gatos com lipidose hepática, essa restrição é contraindicada e pode comprometer a sobrevivência.
“A suplementação vitamínica também tem papel relevante, especialmente das vitaminas do complexo B, além da vitamina K, em casos de colestase ou icterícia. Em situações de anorexia, o suporte alimentar por sonda é frequentemente recomendado para garantir ingestão calórica adequada”, cita.

Alimentação comercial ou caseira: quando escolher cada uma?
Renata comenta que, apesar de as dietas terapêuticas comerciais serem a primeira escolha pela consistência alimentar e praticidade, especialmente em doenças renais e no diabetes, há situações em que a formulação caseira balanceada se torna necessária.
Um exemplo é quando o paciente apresenta duas doenças com exigências opostas ou necessidades que os produtos comerciais não conseguem atender simultaneamente, a dieta caseira permite um ajuste fino dos nutrientes.
“Essas formulações devem ser sempre elaboradas e acompanhadas por um veterinário especializado em nutrição, evitando deficiências e riscos ao tratamento”, conclui a docente.
FAQ sobre nutrição no manejo de doenças crônicas
A alimentação, realmente, pode retardar a progressão de doenças crônicas?
Sim. O manuseio alimentar adequado pode minimizar sinais clínicos, reduzir inflamações, preservar funções orgânicas e, em alguns casos, promover remissão, como ocorre em gatos diabéticos bem manejados.
Por que a restrição de proteína nem sempre é indicada em doenças hepáticas?
Porque proteínas de alta qualidade são essenciais para regeneração do fígado e manutenção da massa muscular. A restrição só é indicada quando há encefalopatia hepática ou alterações específicas, como cristais urinários.
Quando a dieta caseira é mais indicada do que a comercial?
Ela é recomendada quando o paciente possui múltiplas doenças com necessidades conflitantes ou quando há aversão alimentar importante, desde que seja formulada por um nutricionista veterinário e seguida rigorosamente.

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