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Os pets entendem o que falamos? Como cães e gatos interpretam a comunicação humana

Tom de voz, palavras, gestos e contexto ajudam os animais a interpretar a comunicação dos responsáveis

Os pets entendem o que falamos? Como cães e gatos interpretam a comunicação humana
Por Stéfani Campos Chagas
19 de outubro de 2026

Quem convive com cães e gatos provavelmente já teve a impressão de que o pet entende tudo o que é dito.

Falar “vamos passear” e ver o cão correr para a porta ou mencionar “sachê” e chamar a atenção do gato são situações comuns. Mas será que os animais realmente compreendem as palavras?

Segundo Líbia Cristina Franco, médica-veterinária com formação em Psiquiatria Veterinária e pós-graduação em Comportamento Animal, cães e gatos conseguem interpretar sinais da comunicação humana, mas não processam frases da mesma forma que as pessoas.

“Os pets não processam frases inteiras, mas captam o som que já tem algum significado para eles através do nosso tom de voz, do contexto e da linguagem corporal”, explica.

Tom de voz que comunica

Mais do que a palavra isolada, a maneira como ela é pronunciada pode influenciar a resposta do animal. Uma mesma expressão pode ter efeitos diferentes quando dita com uma voz aguda, leve e animada ou em um tom grave, alto e firme.

Isso ocorre porque cães e gatos também observam a linguagem corporal. Postura, gestos, velocidade dos movimentos e a maneira como o responsável se aproxima fazem parte da informação que o animal utiliza para interpretar aquela interação.

Esse processo ajuda a explicar uma situação bastante comum: o pet que parece demonstrar “culpa” depois de uma bronca.

“Muita gente me fala que o animal sabe quando fez uma arte, mas ele não sabe, o que ele sabe é que você está com tom de voz mais bravo, a sua linguagem está gesticulando mais e por isso ele sente medo, e não culpa”, afirma Líbia.

Assim, um animal que se encolhe, abaixa o corpo ou evita o contato após uma repreensão pode estar reagindo ao medo diante da postura do responsável, e não demonstrando que sabe que fez algo errado.

Cães e gatos interpretam
Cães e gatos interpretam tom de voz, postura e contexto para compreender a comunicação humana (Foto: Reprodução)

Palavras ganham significado por associação

Os animais aprendem constantemente a partir das experiências do cotidiano. Quando determinado som aparece repetidamente antes de um acontecimento, o pet passa a associar aquela palavra à situação.

É o que ocorre com “passear”. Depois de ouvir a palavra diversas vezes antes de sair, o cão pode antecipar o que acontecerá e correr para a porta. Com os gatos, algo semelhante pode acontecer quando escutam “sachê” ou até mesmo o barulho da embalagem.

“O som daquela palavra aparece e algo acontece em seguida. Com a repetição, aquele som passa a antecipar o acontecimento”, explica a médica-veterinária.

O mesmo princípio está presente no treinamento. Quando o cão ouve “senta” e realiza o comportamento, ele não necessariamente está traduzindo a palavra como um humano faria. Ele aprendeu uma associação entre aquele som, o contexto e uma determinada resposta.

Por isso, palavras curtas, claras e utilizadas de maneira consistente tendem a facilitar o aprendizado. Repetir essas associações em diferentes situações também pode ampliar o repertório do animal.

O contexto ajuda o pet a interpretar a situação

Para os animais, a comunicação não está restrita ao que é falado. O ambiente, o horário, os objetos utilizados, os movimentos e a postura do responsável também podem fornecer pistas.

“O animal não vai escutar só a palavra que ele está ouvindo. Ele vai ver a cena inteira, que horas são, qual roupa você está vestindo, se pegou a guia ou uma comida, como seu corpo está”, pontua Líbia.

Essa característica ajuda a explicar por que um pet pode responder a determinado comando dentro de casa e apresentar outra reação na rua, onde existem novos estímulos e informações para processar.

A rotina também tem influência. Animais que convivem diariamente com os mesmos gestos, palavras e situações conseguem estabelecer associações mais previsíveis.

Para verificar se o pet realmente reconheceu uma palavra, a profissional orienta utilizar o termo com tom mais neutro, sem fazer movimentos que possam fornecer outras pistas, e observar a resposta.

Comunicação
Comunicação entre pets e responsáveis vai muito além das palavras ditas (Foto: Reprodução)

Cães e gatos também têm formas próprias de se comunicar

Embora cães e gatos sejam capazes de reconhecer diferentes sinais humanos, existem diferenças na forma como cada espécie responde.

De acordo com Líbia, os cães apresentam uma leitura mais ampla da comunicação humana, associada ao longo processo de domesticação e à convivência próxima com as pessoas.

Os gatos também conseguem reconhecer o próprio nome e a voz do responsável, além de responder de maneira diferente conforme o tom utilizado.

Para a profissional, a principal diferença está na resposta: os cães tendem a apresentar maior imediatismo, enquanto os gatos podem demonstrar sua reação de outra maneira.

Por isso, observar a linguagem corporal do animal também é essencial. Lamber o focinho, bocejar fora de hora ou se afastar podem indicar desconforto.

Mudanças repentinas de comportamento também merecem atenção, já que podem estar relacionadas a dor, doença ou transtornos emocionais.

Nesse contexto, evitar o antropomorfismo ajuda a construir uma relação mais adequada com os pets. Cães e gatos possuem necessidades naturais próprias, como farejar, roer e cavar no caso dos cães, e caçar, subir e arranhar no caso dos gatos.

Interpretar corretamente esses comportamentos pode evitar punições baseadas em uma suposta “culpa” e contribuir para preservar o vínculo entre o animal e o responsável.

“Os animais comunicam o tempo todo”, finaliza a médica-veterinária.