Todas as estações do ano geram desafios para o organismo dos animais, e não é diferente com o outono. Caracterizado pela mudança na tonalidade das plantas, temperaturas amenas e clima seco, esse período do ano pode ser particularmente complexo para a pele, olhos e sistema respiratório de cães e gatos.
“No outono ocorrem alterações ambientais que podem influenciar diretamente a fisiologia e a susceptibilidade a doenças dos animais. Entre os principais fatores associados estão a redução progressiva da temperatura ambiental, a maior amplitude térmica diária e, em algumas regiões, a diminuição da umidade relativa do ar”, afirma Nathalia Villaça Xavier, médica-veterinária pós-graduada em Pneumologia Veterinária, mestre em Biociência Animal e docente do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Max Planck (UniMAX Indaiatuba).
De acordo com a profissional, essas condições podem comprometer mecanismos de defesa das vias respiratórias, como a depuração mucociliar, favorecendo a instalação de agentes infecciosos respiratórios.
Além disso, nesta estação ocorre aumento da presença de partículas inaláveis no ambiente, como poeira, ácaros, fungos e pólen provenientes da decomposição de matéria vegetal, que podem atuar como irritantes ou alérgenos.
“Outro aspecto relevante é a maior permanência dos animais em ambientes fechados ou com menor ventilação, o que pode favorecer a transmissão de patógenos respiratórios entre animais suscetíveis”, cita.
Por mais que as doenças comuns da estação possam acometer cães e gatos em qualquer faixa etária, filhotes e pets geriátricos são os grupos mais suscetíveis às alterações sazonais observadas no outono.
Nathalia comenta que os filhotes apresentam sistema imunológico imaturo, que predispõe infecções respiratórias virais e bacterianas. Já os animais idosos, por sua vez, possuem alterações relacionadas à imunossenescência e frequentemente são portadores de comorbidades, estando passíveis de sofrer descompensação em condições de estresse ambiental.
“Em relação às raças, cães braquicefálicos têm maior predisposição a complicações respiratórias devido às alterações anatômicas características da síndrome obstrutiva das vias aéreas braquicefálicas, como estenose de narinas, palato mole alongado e colapso laríngeo. Essas alterações podem exacerbar quadros respiratórios em períodos de variação climática”, pontua a médica-veterinária.
Pólen como vilão
Há quem pense no pólen apenas durante a primavera, mas no outono ele possui um papel clínico importante.
Xavier afirma que esse conjunto de grãos microscópicos produzido pelas flores pode atuar como um alérgeno ambiental relevante, principalmente em cães com dermatite atópica.
“A dermatite atópica é uma doença inflamatória cutânea crônica associada a predisposição genética e caracterizada por uma resposta de hipersensibilidade mediada, principalmente, por linfócitos T helper tipo 2 (Th2) frente a alérgenos ambientais”, afirma.
Conforme cita a profissional, embora ácaros da poeira doméstica e fungos ambientais sejam frequentemente considerados os principais alérgenos envolvidos, o pólen também pode desempenhar papel importante na sensibilização e exacerbação de sinais clínicos em determinados períodos do ano, como o outono.
Enfermidades novas e preexistentes
O outono não apenas pode predispor o desenvolvimento de doenças nos animais, como também é capaz de agudizar quadros crônicos.
No que diz respeito às afecções respiratórias, as mais relevantes no período são as infecciosas.
Em cães, um exemplo é o complexo respiratório infeccioso canino, que envolve agentes virais e bacterianos, como vírus da parainfluenza, adenovírus canino tipo 2, bordetella bronchiseptica e mycoplasma spp.
“Em felinos, infecções respiratórias associadas ao herpesvírus felino tipo 1 (FHV-1) e ao calicivírus felino podem apresentar maior frequência ou reativação, principalmente em animais portadores latentes submetidos a situações de estresse”, cita Xavier.
Além disso, doenças respiratórias inflamatórias crônicas, como bronquite crônica em cães e asma felina, também estão passíveis de sofrer exacerbação devido ao aumento de partículas inaláveis e a menor umidade ambiental.
“Já em animais idosos, doenças articulares degenerativas, como a osteoartrite, podem apresentar intensificação da dor e da rigidez articular associada à redução da temperatura ambiental”, diz.
A pele dos cães e gatos também enfrenta desafios no outono e nesse período é comum observar agravamento ou maior ocorrência de algumas dermatopatias, como dermatites alérgicas, dermatites infecciosas secundárias e ectoparasitoses.
“Uma das mais frequentes é a dermatite atópica canina, doença inflamatória crônica associada à hipersensibilidade a alérgenos ambientais. As alterações climáticas e as variações na carga de alérgenos podem favorecer exacerbações nessa época do ano”, relata Aline Ambrogi, médica-veterinária pós-graduada em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais, mestre em Ciência Animal e docente do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário de Jaguariúna (UniFAJ).
Ainda de acordo com a veterinária, outra condição recorrente é a dermatite alérgica à picada de ectoparasitas, principalmente pulgas, e infecções cutâneas secundárias, como a piodermite bacteriana, geralmente associada à proliferação de bactérias oportunistas.
“Além disso, dermatites fúngicas, como a dermatofitose, podem ocorrer, especialmente em animais jovens ou imunossuprimidos. Os sinais mais comuns são lesões circulares alopécicas, descamação e áreas de pelos quebradiços”, pontua.
