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Quando não há cura, cuidados paliativos podem ser a resposta

Com o aumento da longevidade de cães e gatos, os cuidados paliativos ganham espaço na Medicina Veterinária como estratégia para garantir conforto e dignidade em doenças sem possibilidade de cura

Quando não há cura, cuidados paliativos podem ser a resposta
Por Danielle Assis
24 de fevereiro de 2026

A maior longevidade dos animais de estimação fez com que a forma como os cães e gatos são cuidados mudasse. Se há alguns anos atrás a expectativa de vida era menor do que 10 anos, hoje essa perspectiva quase que dobrou. 

Por mais que esse tempo maior com os pets seja muito positivo, ele esbarra nos prejuízos à saúde, indo de encontro com doenças que nem sempre têm cura. Nessas situações o foco principal é promover bem-estar aos animais e nesse cenário os cuidados paliativos possuem um papel central. 

As raízes dos cuidados paliativos na Medicina Veterinária são derivadas do Movimento Hospice da Medicina Humana, iniciado por Dame Cicely Saunders na década de 1960. 

Para se adequar a realidade da profissão, eles foram empregados considerando as particularidades da relação veterinário-paciente-responsável e questões éticas próprias, como a eutanásia.

Segundo Marcelo Müller, médico-veterinário mestre em Pesquisa Clínica pela Fiocruz, consultor técnico em projetos de saúde e biotecnologia veterinária e autor do livro “Meu Pet… Meu Mundo…”, a emergência dos cuidados paliativos na Medicina Veterinária foi impulsionada por três fatores interdependentes:

  • Avanços científicos e tecnológicos: o desenvolvimento de melhores recursos diagnósticos, opções terapêuticas e manejo nutricional resultou no aumento significativo da longevidade dos animais de companhia. Esse cenário gerou uma nova realidade epidemiológica com maior prevalência de doenças crônicas, degenerativas e neoplásicas em pacientes geriátricos, cujo prognóstico nem sempre permite cura, mas pode permitir qualidade de vida por períodos prolongados; 
  • Transformação do vínculo humano-animal: a intensificação do vínculo afetivo e a ressignificação do papel dos animais de companhia na sociedade contemporânea alteraram profundamente as expectativas dos responsáveis. Essa mudança cultural criou uma demanda por alternativas assistenciais que transcendessem a dicotomia tradicional entre “tratamento curativo” e “eutanásia imediata”, valorizando o cuidado centrado no bem-estar até o fim da vida;
  • Evolução ético-profissional: a reflexão crítica dentro da classe veterinária questionou o paradigma centrado exclusivamente na cura, reconhecendo que o alívio do sofrimento, a preservação da dignidade e a manutenção da qualidade de vida constituem objetivos terapêuticos legítimos e, em determinadas circunstâncias, prioritários. Já a criação de organizações, como a International Association for Animal Hospice and Palliative Care (IAAHPC) em 2009, formalizou e sistematizou esses princípios. 

“Na minha prática clínica, a demanda por cuidados paliativos tem crescido de forma exponencial nos últimos anos, refletindo tanto a tendência global quanto a maior conscientização dos responsáveis sobre essa possibilidade terapêutica. Atualmente, estimo que cerca de 20 a 30% dos pacientes geriátricos que atendo estejam, em algum nível, sob protocolo paliativo”, relata o profissional. 

Indicação requer análise minuciosa 

Diversos são os aspectos que podem ser analisados para que haja a recomendação do emprego dos cuidados paliativos. 

Para o médico-veterinário, essa decisão deve ter como base princípios clínicos, éticos e centrados no paciente e em sua família. 

“O conceito central é a presença de uma doença que ameace ou limite significativamente a vida, seja pela ausência de tratamento curativo disponível ou pela progressão da enfermidade apesar das terapias instituídas”, explica.

Dessa forma, diferentemente do que muitos pensam, esse tipo de tratamento nem sempre está associado apenas à fase terminal dos animais. Na realidade, é possível oferecê-lo em conjunto ao tratamento modificador de uma doença, visando uma abordagem integrativa, que prioriza a qualidade de vida desde o diagnóstico de uma condição grave. 

“A indicação formal dos cuidados paliativos ocorre quando há sintomas refratários que comprometem significativamente o bem-estar, tais como, dor crônica, dispneia, náusea persistente, anorexia e perda de mobilidade, quando o prognóstico indica expectativa de vida limitada (semanas a meses) ou quando a carga de tratamento (frequência de consultas, procedimentos invasivos, efeitos adversos) superam os benefícios em termos de qualidade de vida”, afirma Müller.

O responsável pelo animal também possui um papel central na decisão desse caminho. Ele pode, após entender todas as opções disponíveis, optar por não seguir com protocolos curativos agressivos, seja por razões financeiras, emocionais, éticas ou filosóficas. 

O profissional ainda pontua que essa linha de cuidados é indicada quando o próprio paciente não apresenta condições clínicas adequadas para tolerar procedimentos invasivos ou terapias com perfil de efeitos adversos significativos, seja por idade, fragilidade ou comorbidades severas.

Doenças de maior incidência 

Diversas são as enfermidades que podem fazer com que os animais sejam guiados pelo caminho dos cuidados paliativos. 

Nos cães, as neoplasias possuem incidência elevada, estando entre as principais Osteossarcoma — especialmente em raças grandes e gigantes, Hemangiossarcoma, Linfomas de alto grau e Mastocitomas em estadiamento avançado. 

“A asteoartrite severa, que limita drasticamente a mobilidade e gera dor crônica refratária, é outra indicação frequente, particularmente em animais de médio a grande porte e idosos. A Doença Renal Crônica (DRC) nos estágios IRIS 3 e 4, as cardiopatias em fase avançada e as doenças neurológicas degenerativas, como a Mielopatia Degenerativa, também figuram entre as principais demandas”, cita Marcelo.

Em gatos, o cenário não é muito diferente. Conforme o veterinário, a Doença Renal Crônica ocupa posição de absoluto destaque, sendo a principal causa isolada de necessidade de cuidados paliativos na espécie. 

“A prevalência e a complexidade do manejo da DRC felina são tão significativas que seu controle sintomático constitui uma área de expertise específica dentro dos cuidados paliativos veterinários”, relata.

Na espécie, as neoplasias também são relevantes, particularmente o Carcinoma de Células Escamosas (com ênfase nas formas orais), o Linfoma e o Fibrossarcoma associado ao local de injeção. 

Na lista também pode ser incluída a Cardiomiopatia Hipertrófica em fase de Insuficiência Cardíaca Congestiva (ICC), as doenças infecciosas crônicas por retrovírus felinos (FIV e FeLV) — quando evoluem com comorbidades graves como anemia severa, neoplasias secundárias ou infecções oportunistas — e o Hipertireoidismo complicado por doença renal ou cardíaca concomitante. 

“Vale mencionar ainda que a doença periodontal e outras afecções orais crônicas graves, embora frequentemente subestimadas, também podem requerer abordagem paliativa quando causam dor significativa e comprometem a alimentação e qualidade de vida, especialmente em pacientes que não podem ser submetidos a procedimentos anestésicos”, complementa o mestre em Pesquisa Clínica.

Qualidade de vida é o foco principal 

A finalidade magna dos cuidados paliativos é promover qualidade de vida ao animal. Para isso existem quatro pilares interdependentes.

De acordo com Müller, o primeiro pilar consiste no controle dos sintomas, sejam eles, dor, náuseas, vômitos, dispneia, constipação, diarreia, prurido, ansiedade e qualquer outra fonte de desconforto físico ou emocional que comprometa o bem-estar do animal. “A meta é o conforto contínuo, não apenas temporário”.

O segundo pilar visa garantir suporte integral ao paciente. Neles são incluídos aspectos como manutenção da higiene corporal (banhos assistidos, limpeza de feridas, cuidados com escaras de decúbito), preservação ou assistência à mobilidade, nutrição adequada às necessidades e preferências do animal e hidratação apropriada. 

“O objetivo transcende a mera sobrevivência: buscamos permitir que o animal continue a expressar comportamentos naturais de sua espécie que lhe tragam prazer, conforto e dignidade”, pontua.

O terceiro pilar, por sua vez, reconhece que os cuidados paliativos não se restringem ao paciente, mas englobam toda a unidade familiar. Com isso, segundo Marcelo, o responsável é parte integrante da equipe de cuidados e, frequentemente, o principal cuidador no ambiente domiciliar. 

Portanto, o suporte à família engloba educação sobre a doença e seu manejo, fornecimento de ferramentas práticas para os cuidados diários, apoio emocional durante o processo de luto antecipatório, alinhamento de expectativas realistas sobre prognóstico e qualidade de vida e capacitação para que a família seja a principal promotora do conforto do animal em casa.

Para finalizar, o quarto pilar define a tomada de decisão compartilhada e contínua. 

“Os cuidados paliativos não são estáticos, mas um processo dinâmico de reavaliação constante. A equipe veterinária e os responsáveis pelo animal trabalham colaborativamente, revisando regularmente se o plano terapêutico ainda está atingindo o objetivo central de manter ou melhorar a qualidade de vida e ajustando as intervenções conforme a doença progride ou as necessidades se modificam”, explica.

Confira o artigo completo “Quando não há cura, cuidados paliativos podem ser a resposta“, na íntegra e sem custo, acessando a página 32 da edição de fevereiro (nº 318) da Revista Cães e Gatos.