Os medicamentos à base de GLP-1, famosos no tratamento da obesidade e do diabetes em humanos, podem estar prestes a ganhar espaço também na medicina veterinária.
Após revolucionarem o controle de peso em pessoas, essas drogas começam a ser testadas em gatos e cães, abrindo caminho para uma nova era no tratamento da obesidade e do diabetes em animais de companhia.
Nos Estados Unidos, a empresa de biotecnologia Okava Pharmaceuticals iniciou recentemente um estudo-piloto com um fármaco de GLP-1 voltado especificamente para gatos obesos.
A grande inovação está na forma de administração: em vez de injeções semanais, os animais recebem um pequeno implante subcutâneo, um pouco maior que um microchip, capaz de liberar o medicamento de forma gradual por até seis meses.
“Você implanta a cápsula sob a pele e, seis meses depois, o gato perdeu peso. É quase mágico”, afirma o veterinário Dr. Chen Gilor, da Universidade da Flórida, responsável pelo estudo.
Os primeiros resultados são esperados para o próximo verão no hemisfério norte. Caso se mostrem positivos, o tratamento pode se tornar uma alternativa inédita para milhões de pets.
Um problema crescente
Estimativas apontam que cerca de 60% dos cães e gatos apresentam sobrepeso ou obesidade nos Estados Unidos. Além disso, centenas de milhares convivem com o diabetes — uma condição que exige, na maioria dos casos, aplicações diárias de insulina.
“O diabetes é totalmente tratável do ponto de vista técnico, mas ainda fazemos um trabalho muito ruim nesse manejo”, avalia Dr. Gilor. Ele lembra que o tratamento é caro, trabalhoso e, em muitos casos, acaba levando à eutanásia precoce do animal.
Já no caso da obesidade, apenas mudanças na dieta e incentivo à atividade física têm mostrado resultados limitados.
“Não conseguimos avançar como gostaríamos”, afirma Dr. Ernie Ward, fundador da Associação para Prevenção da Obesidade Pet.

Como agem os medicamentos de GLP-1
As drogas de GLP-1 imitam um hormônio natural do corpo que estimula a produção de insulina, retarda a digestão e aumenta a sensação de saciedade.
Estudos iniciais indicam que esses efeitos também podem ocorrer em cães e gatos, promovendo redução do apetite, melhor controle glicêmico e perda de peso.
“Vejo benefícios claros, mas ainda faltam estudos clínicos em larga escala”, explica Thomas Lutz, fisiologista veterinário da Universidade de Zurique.
Entre os efeitos colaterais observados estão náuseas e episódios de vômito, semelhantes aos relatados em humanos.
Mesmo sem formulações veterinárias aprovadas, alguns profissionais já utilizam medicamentos humanos de forma off-label em gatos diabéticos.
O problema é o custo: os valores podem chegar a centenas de dólares por mês, tornando o tratamento inviável para muitos tutores.
Implantes de longa duração na mira da indústria
A Okava aposta justamente na viabilidade prática e financeira. Seu produto usa a substância exenatida e será testado em um estudo chamado MEOW-1, com pelo menos 50 gatos com obesidade.
Se os resultados forem positivos, a empresa pretende solicitar aprovação à FDA entre 18 e 24 meses.
“Nosso entendimento é que a obesidade é o maior desafio preventivo da medicina veterinária hoje”, afirma Michael Klotsman, CEO da empresa. O objetivo é manter o custo em torno de US$ 100 mensais.
Aceitação dos tutores
Apesar do otimismo, especialistas alertam que a adesão dos tutores pode ser limitada. Um exemplo do passado é o Slentrol, um medicamento para emagrecimento canino aprovado em 2007, que acabou descontinuado por falta de demanda.
“Muitos tutores não viam a obesidade como uma doença, e ainda havia frustração por o animal perder o apetite”, explica a nutricionista veterinária Dr. Maryanne Murphy.
Para ela, os novos medicamentos têm potencial, mas devem atuar como complemento, e não substituto, das práticas tradicionais.
“Não será uma solução rápida e isolada. Dieta, rotina e acompanhamento veterinário continuarão sendo essenciais”, conclui.

Fonte: The New York Times, adaptado por Cães & Gatos
FAQ sobre tratamento de obesidade em pets
Como o medicamento seria administrado?
Os animais recebem um pequeno implante subcutâneo, que libera o medicamento de forma gradual durante seis meses.
Como o GLP-1 funciona?
A substância imita um hormônio natural do corpo que estimula a produção de insulina, retarda a digestão e aumenta a sensação de saciedade.
Quantos animais sofrem com obesidade atualmente?
Estimativas apontam que 60% dos cães e gatos dos Estados Unidos apresentam algum grau de obesidade.
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