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Turismo com animais selvagens: o que é positivo e negativo para as espécies?

Porta-voz da Proteção Animal Mundial cita as experiências mais buscadas no Brasil e no mundo e dá dicas para turismo amigo dos animais
Por Equipe Cães&Gatos
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Por Equipe Cães&Gatos

Cláudia Guimarães, da redação

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claudia@ciasullieditores.com.br

Com rotinas pesadas e estressantes de trabalho, estudo, afazeres domésticos, entre outras coisas do nosso cotidiano, todo ser humano que se preze fica ansioso quando o assunto é férias. Viajar e “turistar” pode ajudar a nos reconectarmos com nós mesmos e a buscar inspiração em outros ares.

No entanto, algumas pessoas “erram a mão” na escolha do destino, ou melhor, do tipo de turismo. A busca por experiências com animais selvagens pode representar um grande risco às espécies e afeta, diretamente, o bem-estar animal. Falamos com o gerente de Campanha de Vida Silvestre da Proteção Animal Mundial, David Maziteli, que informa que, para iniciar este assunto, é preciso entender que existem exemplos de atividades positivas e negativas envolvendo a vida silvestre em um contexto de interação humana, de lazer em geral ou, mais especificamente, no turismo, ou seja, fora da cidade em que se vive normalmente.

“Dito isso, há muitos tipos de turismo com animais silvestres pelo Brasil e pelo mundo, como as atrações exploratórias em estilo circense, a exemplo dos espetáculos com golfinhos e baleias em aquários ou delfinários. Ou as experiências nocivas, que incluem passeios de montaria e banhos de elefantes, caminhadas com leões, selfies com filhotes de tigre, preguiças, macacos e araras, além de atividades de nado com golfinhos ou alimentação de botos-amazônicos, por exemplo”, elenca.

Como reiterado pelo profissional, vale lembrar que nem todo turismo com animais é predatório: o turismo de observação pode ser correto e respeitoso. “Para citar alguns exemplos, aqui estamos falando de atividades de observação de pássaros ou primatas ou, ainda, as experiências de observação de baleias ou golfinhos, que podem acontecer de forma embarcada, respeitando protocolos e, até mesmo, por terra, o que é melhor ainda. Dessa maneira, o viajante contempla o animal em seu habitat natural – sem nenhuma ou pouca interferência, minimizando os impactos para o bem-estar dos indivíduos”, comenta.

Há muitos tipos de turismo com animais silvestres pelo Brasil e pelo mundo, como as atrações exploratórias em estilo circense, a exemplo dos espetáculos com golfinhos
(Foto: divulgação)

Atividades negativas

Mas, chamamos atenção para o turismo que pode prejudicar os animais: “De partida, temos que entender que animais domésticos e silvestres são muito diferentes. Os primeiros foram acostumados, gradualmente, ao convívio humano ao longo de milhares de anos, verdadeiramente experimentando alterações que chegam ao nível genético nas espécies atuais. Já os animais selvagens estão inseridos em um contexto de liberdade e da cadeia trófica, quer dizer, numa relação de predadores e presas. Mesmo que forçados ao convívio humano, ‘amansados’ ao longo de uma vida, eles não podem ser considerados domesticados. Eles mantêm os instintos selvagens”, salienta.

Nesse sentido, a presença de humanos, que são predadores de topo, segundo Maziteli, é sempre indesejada pelos animais silvestres. “Então, toda situação de interação muito próxima ou de manutenção em cativeiro, por melhores que sejam as condições ambientais e de espaço, tem impacto no bem-estar dos animais, o que é injusto”, observa.

Mas o que acontece é que, visando o lucro e o entretenimento humano, todos os anos, milhares de animais são capturados na natureza ou nascem em cativeiro. “Estimamos que sejam mais de 550 mil em todo o mundo nestas condições. Em qualquer dos casos, eles são, usualmente, separados de suas mães em uma idade precoce e, em seguida, submetidos a regimes severos de treinamento que comprovadamente são responsáveis por causar danos físicos e psicológicos aos indivíduos”, narra.

Os animais, de acordo com o profissional, são forçados a permanecer em ambientes de espetáculo – concebidos por humanos, abarrotados de pessoas, cheios de sons, luzes e adereços – que não são naturais para eles. “Estes locais são altamente estressantes, embora o público, muitas vezes, seja informado de que essas atrações proporcionam algum tipo de benefício em termos de educação ambiental ou para fins de conservação”, alerta.

Mas, segundo Maziteli, isso não poderia estar mais longe da verdade. “E é por tal razão que muitos dos turistas que pagam para ver esse entretenimento abusivo se sentem desconfortáveis durante os espetáculos ao perceberem que há algo errado com os animais nesses cenários antinaturais”, sugere.

Em muitos locais, os animais são oferecidos para fotos ou para interação com pessoas (Foto: divulgação)

No caso de animais livres, mas atraídos pela oferta de alimentos, por exemplo, também há muitas consequências negativas, conforme explicado pelo profissional: “Oferecer alimentos para animais selvagens altera seus comportamentos naturais, levando à dependência de comida humana e aumentando a vulnerabilidade quando essa fonte desaparece. A atração por comida também pode facilitar a caça ao criar tolerância aos humanos. No caso de aquáticos, habituar animais aos barcos pode elevar o perigo de acidentes. Além disso, alimentos ofertados nessas situações podem não fazer parte da dieta regular, com prejuízos de saúde, ou até transmitir doenças de humanos para os animais, o que pode vir a impactar grupos ou até espécies”, destaca.

Culpa da indústria do turismo?

Na visão do gerente de Campanha de Vida Silvestre da Proteção Animal Mundial, quando falamos em um contexto de indústria, de exploração em massa de animais e com um propósito puramente econômico, a indústria do turismo tem uma parcela de culpa, ou seja, é capaz de induzir a busca por este tipo de experiências. “Isso envolve utilizar a curiosidade e a fascinação instintiva que temos pelos bichos para proporcionar situações que entregam satisfação de forma fácil, rápida e a relativamente baixo custo. Algo quase irresistível”, opina.

Por outro lado, ele avalia que uma experiência de interação com animais na natureza, o que pode acontecer em um contexto turístico ético e respeitoso, dá trabalho. “Demanda tempo, investimento, às vezes, aptidão física, às vezes, deslocamentos longos. Não vai ser tão próxima a ponto de permitir carícias, manuseio, etc. Além disso, o animal precisa querer aparecer, permitir a observação, as condições climáticas precisam ajudar, etc. Confinar animais em jaulas, gaiolas e tanques ou condicioná-lo em liberdade ‘resolve’ isso”, denuncia.

Cenário brasileiro

No Brasil, o entretenimento com mamíferos aquáticos em cativeiro está proibido há algumas décadas e o tema do uso de animais em circos carece de uma norma federal, mas as proibições têm avançado em alguns Estados, como mencionado por Maziteli. “Em nossa legislação, os zoológicos são a única categoria de vida silvestre em cativeiro em que há regulamentação para a exposição à visitação pública. Ainda assim, aparecem, eventualmente, relatos de interações de animais com humanos em algumas instituições, o que não deveria ocorrer nunca”, menciona.

No Brasil, entre estes produtos turísticos, há, por exemplo, experiências de alimentação e nado com botos-amazônicos (Foto: divulgação)

Mas, pensando de uma maneira mais ampla no turismo com animais no Brasil, há algumas atividades e experiências com algum grau de formalidade, mas, também, muita informalidade que acaba sendo aproveitada pela indústria. “Entre estes produtos turísticos, formalmente incluídos nos catálogos de algumas operadoras e agências de atuação no Brasil, há, por exemplo, experiências de alimentação e nado com botos-amazônicos. Mas em tours que acontecem na região norte, também é comum que apareçam como ‘oportunidades’, em visitas a flutuantes em áreas ribeirinhas, chances mais informais de contato com animais como manuseio ou selfies com bichos-preguiça, jacarés e jacaretinga, cobras, macacos, tamanduás. Nós investigamos e documentamos essas práticas em um relatório chamado ‘Um foco na crueldade’”, cita.

Em outras regiões e em biomas, como no Cerrado ou no Pantanal, também não é incomum que situações semelhantes ocorram com tamanduás-bandeira ou araras, acorrentadas ou com asas cortadas, sendo oferecidas para fotos ou para interação com pessoas. “Se formos avaliar, não são incomuns, por todo o Brasil, os casos em que animais silvestres são mantidos em situações de cativeiro, em zoológicos e viveiros clandestinos, em semi-cativeiro ou condicionados por meio de iscas ou alimentos, dentro ou próximos de hotéis, pousadas ou restaurantes. Tudo isso pode parecer simpático, mas é muito cruel e perigoso. Estamos falando de espécies que, muitas vezes, estão em vulnerabilidade ou grau crítico de conservação. Há sempre o risco de algum ataque, quando se fala em aproximação de animais silvestres. E não podemos esquecer dos riscos de transmissão de doenças, seja de animais para humanos ou vice-versa”, ressalta.

Para concluir, o profissional afirma que, no turismo brasileiro, há uma situação bastante pulverizada geograficamente e em termos de espécies afetadas. “Mas há, de forma geral, um predomínio de situações problemáticas nos lugares em que temos ambientes ainda preservados e vulnerabilidade social. Isso leva a uma exploração de pessoas e animais para um tipo de turismo predatório. O que devemos fazer é mover práticas para um turismo sustentável, de base comunitária, que permita uma inserção digna e justa das  pessoas ao mesmo tempo em que contribua para a preservação ambiental e para a proteção animal”, conclui.

O profissional ainda deixa algumas dicas práticas para viajantes que buscam experiências amiga dos animais: 

  • Escolha destinos e empresas de turismo bem avaliadas, comprometidas com proteção ambiental e bem-estar animal;
  • Verifique se a empresa segue guias e protocolos de observação animal; consulte ONGs e autoridades locais;
  • Opte por empresas que oferecem educação ambiental para preparar os turistas e garantir visitas respeitosas;
  • Mantenha distância ao observar os animais, evitando estresse ou ameaças;
  • Reduza o tempo de proximidade com os animais;
  • Não toque ou alimente os animais. Oferecer alimentos para animais selvagens altera seus comportamentos naturais, levando à dependência de comida humana e aumentando a vulnerabilidade quando essa fonte desaparece. A atração por comida também pode criar a caça e a proximidade com humanos, além de habituar os animais aos barcos, elevando o perigo de acidentes. Ao nadar ou mergulhar, não se aproxime diretamente dos animais aquáticos;
  • Se em algum momento constatar sinais de agitação ou tensão dos animais, afaste-se o mais devagar e cuidadosamente possível;
  • Evite selfies e fotos com flash; respeite o ambiente natural;
  • Leve seu lixo de volta e descarte-o após o passeio;
  • Comunique problemas à empresa, ao hotel, às autoridades e faça revisões online honestas para informar outros viajantes sobre situações perturbando o bem-estar animal;
  • Colabore com a educação dos outros turistas conversando a respeito da necessidade de garantir a proteção do ambiente e dos animais.

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