A úlcera de córnea é uma das afecções oftálmicas mais frequentes em gatos e representa uma condição clinicamente relevante no atendimento veterinário.
Caracteriza-se pela perda da integridade do epitélio corneano, podendo ou não envolver camadas mais profundas do estroma.
Além de extremamente dolorosa — já que a córnea possui alta densidade de terminações nervosas —, a lesão pode evoluir para comprometimento visual permanente ou cegueira irreversível quando o manejo não é adequado.
Por isso, o reconhecimento precoce e a intervenção correta são fundamentais para um desfecho favorável.
A córnea felina e sua função
A córnea do gato é uma estrutura transparente e altamente especializada, composta por quatro camadas principais: epitélio, estroma, membrana de Descemet e endotélio.
Ela atua tanto como a principal superfície refrativa do olho quanto como uma barreira física e imunológica contra traumas e microrganismos.
Sua transparência depende da organização das fibras de colágeno e da ausência de vasos sanguíneos.
Já a intensa inervação, derivada do nervo trigêmeo, explica a dor acentuada associada às lesões corneanas e também a capacidade de resposta rápida ao dano tecidual.
O filme lacrimal é essencial para a nutrição, lubrificação e proteção da córnea. Alterações nessa camada favorecem a quebra do epitélio e a formação de úlceras.
Principais causas de úlcera de córnea em gatos
As úlceras corneanas felinas possuem etiologias variadas, sendo as mais comuns:
- Infecção pelo herpesvírus felino tipo 1 (FHV-1)
- Traumas mecânicos e corpos estranhos
- Alterações palpebrais ou de cílios (entrópio, distiquíase, triquíase)
- Ceratite de exposição por piscar incompleto
- Deficiências do filme lacrimal
- Doenças imunomediadas, como ceratite eosinofílica
- Ceratopatia bolhosa
- Complicações secundárias a glaucoma, uveíte ou alterações endoteliais
Abordagem diagnóstica
O diagnóstico exige uma avaliação sistemática da superfície ocular e anexos. Entre os exames mais utilizados estão:
- Avaliação das pálpebras e cílios
- Testes do filme lacrimal
- Coloração com fluoresceína para identificação da úlcera
- Avaliação da terceira pálpebra após anestésico tópico
- Citologia e cultura, quando há suspeita de infecção
Nos gatos, é importante destacar que úlceras crônicas espontâneas, comuns em cães, não ocorrem.
Procedimentos como ceratotomia em grade são contraindicados, pois aumentam o risco de sequestro corneano.
Tratamento: quando é clínico e quando é cirúrgico
Úlceras superficiais não complicadas geralmente respondem bem ao tratamento clínico, que inclui:
- Antibióticos tópicos
- Lubrificação ocular frequente
- Cicloplégicos para controle da dor
- Analgesia sistêmica, como gabapentina ou anti-inflamatórios não esteroidais
- Uso de colar elizabetano
Quando a úlcera não cicatriza em até sete dias, deve-se investigar fatores predisponentes, como infecção por FHV-1, trauma contínuo ou conformação braquicefálica.
Em alguns casos, o uso de lentes de contato terapêuticas melhora o conforto e favorece a cicatrização.
Úlceras profundas, ceratomalácia (“derretimento” da córnea), descemetocele ou risco de perfuração exigem intervenção cirúrgica imediata, como enxertos conjuntivais ou outras técnicas reconstrutivas, além de encaminhamento para especialista.
Herpesvírus felino e lesões corneanas
O FHV-1 é uma das principais causas de úlcera de córnea em gatos, especialmente em filhotes.
A infecção inicial pode causar conjuntivite, ceratite e lesões típicas, como úlceras dendríticas, melhor evidenciadas com rosa bengala.
Após a infecção, cerca de 80% dos gatos tornam-se portadores latentes. Situações de estresse podem reativar o vírus, levando a episódios recorrentes de ulceração.
O tratamento envolve antiviral sistêmico, principalmente famciclovir, associado a antibióticos tópicos, lubrificação e controle da dor.
Mesmo quando a úlcera apresenta melhora, o acompanhamento é essencial para evitar recidivas, perda visual e complicações.
Orientar o responsável sobre sinais de dor ocular, como blefaroespasmo, secreção e fotofobia, é parte fundamental do manejo.
Fonte: Vet Times, adaptado por Cães & Gatos
FAQ sobre úlcera de córnea em gatos
Úlcera de córnea em gato sempre é emergência?
Nem sempre, mas casos profundos ou com dor intensa exigem atendimento imediato.
Gato com herpes pode ter úlcera recorrente?
Sim. O herpesvírus pode permanecer latente e reativar em situações de estresse.
Colírio humano pode ser usado no gato?
Não. Apenas medicamentos prescritos após avaliação veterinária são seguros.
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