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6º Sentido? O que cães e gatos realmente sentem quando uma mulher fica grávida

Pets podem perceber alterações no odor, comportamento e rotina durante a gestação, mas isso não significa que compreendam a gravidez como os humanos

6º Sentido? O que cães e gatos realmente sentem quando uma mulher fica grávida
Por Stéfani Campos Chagas
16 de setembro de 2026

Cães e gatos conseguem perceber quando uma mulher está grávida? A mudança de comportamento de alguns animais durante a gestação pode levantar essa dúvida entre os responsáveis.

Enquanto alguns pets ficam mais próximos, outros podem apresentar ansiedade, inquietação ou até se afastar.

Segundo a médica-veterinária e mestra em Ciências pela FMVZ-USP, Sofia Dressel Ramos, que atua com atendimento especializado em Comportamento Animal, os pets podem identificar diversas mudanças que ocorrem durante a gestação, mas isso é diferente de compreender o conceito de gravidez.

“Existe uma diferença importante entre perceber alterações relacionadas à gravidez e realmente entender o que ela significa”, explica.

O que os pets conseguem perceber durante a gravidez

Durante a gestação, acontecem alterações hormonais e metabólicas no organismo da mulher, que podem modificar os odores corporais. Também podem ocorrer mudanças na postura, na maneira de caminhar, no sono, no nível de atividade e na rotina da família.

O olfato provavelmente tem um papel importante nesse processo, principalmente entre os cães. Eles possuem uma capacidade olfativa bastante desenvolvida e podem ser treinados para identificar odores associados a diferentes condições.

Os gatos também têm olfato apurado e utilizam informações olfativas para interpretar o ambiente e outros indivíduos.

Além do cheiro, os animais podem perceber mudanças na temperatura corporal, movimentação, postura e comportamento.

“Provavelmente, é justamente a combinação de várias informações que faz diferença: odores, temperatura, comportamento, postura, movimentação, rotina e todo o contexto ambiental”, pontua Sofia.

Um estudo de Wilson e colaboradores, publicado em 2025, avaliou 130 responsáveis por cães e mostrou que 65,4% relataram mudanças no comportamento dos animais durante a gestação. Cerca de 27% perceberam essas alterações antes mesmo de saberem que estavam esperando um bebê.

A pesquisa, entretanto, avaliou os relatos dos responsáveis e não demonstrou que os cães tenham identificado a gravidez ou entendido o que ela representa.

Alterações corporais
Alterações corporais e de rotina fazem cães e gatos perceberem mudanças durante a gestação (Foto: Reprodução)

O que significa a mudança de comportamento?

Não existe uma reação padrão dos animais diante da gravidez. Alguns podem seguir mais a responsável pela casa, buscar contato físico ou apresentar comportamentos de vigilância. Outros podem ficar ansiosos, inquietos ou mais afastados.

A resposta depende do perfil individual, do histórico, da personalidade e da relação do pet com a família. Um animal muito ligado à responsável pode buscar mais proximidade, enquanto outro que tenha dificuldade para lidar com mudanças pode demonstrar ansiedade ou evitar determinadas situações.

Por isso, a médica-veterinária alerta contra interpretações humanizadas, como afirmar que o pet está “com ciúme” ou “protegendo o bebê”.

“É importante observar essas mudanças sem colocar um rótulo humanizado”, orienta.

A própria alteração da rotina pode explicar parte das respostas. Redução dos passeios, mudanças nos horários, mais períodos de descanso da responsável e a chegada de novos objetos à casa são estímulos que podem influenciar o comportamento.

Até o momento, não há evidências de que cães e gatos tenham uma compreensão conceitual da gravidez humana.

“Eu não diria que eles entendem a gravidez da mesma maneira que nós entendemos”, afirma Sofia.

Para a profissional, é mais adequado dizer que o animal percebe que algo importante está mudando ao seu redor. “É uma percepção muito mais sensorial e comportamental do que conceitual.”

Como preparar o animal para a chegada do bebê

A adaptação deve começar ainda durante a gestação, principalmente porque a chegada do bebê costuma provocar mudanças importantes na rotina.

“Minha principal orientação é: não esperar o bebê nascer para começar a preparar o animal”, recomenda Sofia.

Se os horários de passeio, alimentação, brincadeiras ou atenção precisarão mudar, essas alterações podem ser introduzidas gradualmente. Objetos e estímulos que farão parte da nova rotina, como carrinho, berço, portões, brinquedos e sons do bebê, também podem ser apresentados aos poucos, sempre com reforço positivo.

Para os cães, pode ser útil incentivar comportamentos como responder ao nome, vir quando chamado, permanecer em determinado local, relaxar e evitar pegar objetos que caiam no chão.

Outro cuidado é preservar as necessidades do próprio pet. Com a chegada do bebê, passeios, brincadeiras e momentos de atenção exclusiva podem diminuir. Por isso, a família deve planejar alternativas, como enriquecimento ambiental, brinquedos adequados e uma rede de apoio com familiares, amigos, passeadores ou outros profissionais.

adaptação do pet
Apresentar objetos e novos sons do bebê gradualmente auxilia na adaptação do pet (Foto: Reprodução)

Convivência entre bebê e pet exige cuidados

Mesmo com uma preparação adequada, qualquer contato entre o bebê e o animal deve ser supervisionado pelos responsáveis. Isso vale inclusive para pets que apresentaram comportamento tranquilo durante toda a adaptação.

“Bebê e animal não devem ser deixados sozinhos, porque estamos lidando com dois indivíduos que podem apresentar respostas imprevisíveis diante de uma situação nova”, ressalta Sofia.

A recomendação também está relacionada à segurança. Um estudo de Weng e Ankrom, publicado em 2016, avaliou gestantes e mães recentes e encontrou frequência relevante de lesões relacionadas ao contato com animais, incluindo ocorrências causadas pelos próprios pets da família.

O objetivo da preparação, portanto, não é simplesmente fazer o pet “aceitar” o bebê, mas ajudar toda a família a se adaptar à nova dinâmica.

“Não estamos pensando somente no bem-estar do animal, mas também na segurança da família”, sustenta a médica-veterinária.

Sempre que possível, a orientação de um profissional capacitado pode ajudar a avaliar o perfil individual do animal e estabelecer estratégias de adaptação adequadas.

Assim, cães e gatos podem perceber diversas mudanças associadas à gravidez, mas isso não significa que saibam, no sentido humano, que um bebê está a caminho. O mais provável é que respondam a um conjunto de alterações sensoriais, comportamentais e ambientais que acontecem ao seu redor.