A vitamina D está entre os nutrientes de maior interesse na pesquisa científica. Além disso, cada vez mais veterinários recorrem à suplementação na tentativa de promover benefícios à saúde dos cães e gatos.
No entanto, surge o questionamento: será que a suplementação de vitamina D é, realmente, necessária e segura em todos os casos?
A principal função da vitamina D é atuar no metabolismo de cálcio e fósforo. Seus precursores são o colecalciferol (D3), de origem animal, e o ergocalciferol (D2), de origem vegetal.
Diferente dos humanos, cães e gatos não possuem a capacidade de sintetizar D3 na pele, portanto, dependem da ingestão dietética para suprir suas necessidades. Após a ingestão via dieta, D2 ou D3 são transportados ao fígado, onde são convertidos em calcidiol. Posteriormente, o calcidiol é transportado aos rins, onde ocorre a conversão em calcitriol, forma ativa da vitamina D.
Embora o calcitriol seja a forma biologicamente ativa da vitamina D, em humanos o calcidiol sérico é considerado o parâmetro mais adequado para avaliar o status da vitamina D no organismo, devido ao seu maior tempo de meia vida, estimado em cerca de 2 a 3 semanas, além de representar o principal metabólito circulante da vitamina D.
De forma semelhante, na Medicina Veterinária a avaliação do status de vitamina D em cães e gatos também é realizada por meio da mensuração das concentrações séricas de calcidiol.
No entanto, até o momento, não há intervalos de referência validados para essas espécies, e a interpretação dos resultados também depende do uso de metodologias analíticas adequadamente validadas, o que pode dificultar a identificação de deficiência de vitamina D nesses animais.
A deficiência de calcidiol é descrita em cães e gatos que apresentam diversas doenças, principalmente as de caráter inflamatório. Por isso, em situações clínicas em que há risco de hipovitaminose D, como nos quadros de enteropatias crônicas e doença renal crônica recomenda-se a mensuração sérica de calcidiol.
Nesses quadros, a baixa ingestão alimentar, déficits absortivos e/ou o possível impacto da inflamação sobre o metabolismo da vitamina D podem exigir suplementação. Contudo, a suplementação só deve ser realizada após a confirmação da deficiência e com monitoramento rigoroso de possíveis efeitos colaterais.
Entre os principais efeitos colaterais associados ao excesso desta vitamina destacam-se a hipercalcemia, hipercalciúria, hiperfosfatemia e mineralização de tecidos moles.
As manifestações clínicas do excesso de vitamina D são semelhantes às observadas em situações de excesso de cálcio, uma vez que a vitamina D aumenta a absorção intestinal de cálcio e fósforo.
Assim, o acompanhamento deve incluir a avaliação da calcemia iônica, das concentrações séricas de fósforo, especialmente em pacientes com doença renal crônica, e a monitorização das concentrações séricas de calcidiol durante a suplementação.
A escolha do produto para suplementação também é importante. Em cães e gatos, recomenda-se o uso de formulações veterinárias, uma vez que as apresentações destinadas ao uso humano, geralmente, possuem concentrações elevadas de vitamina D, o que dificulta o ajuste preciso da dose para animais e leva ao risco de intoxicação.
Além disso, diferenças no metabolismo das formas de vitamina D devem ser consideradas entre as espécies. Em gatos, a vitamina D2 é utilizada com menor eficiência quando comparado a vitamina D3. Quando doses equivalentes dessas formas são administradas por via oral, as concentrações plasmáticas máximas de vitamina D3 podem ser aproximadamente duas vezes maiores do que aquelas obtidas com D2.
Em cães, por outro lado, D2 e D3 parecem ser utilizadas de forma semelhante, possivelmente refletindo diferenças metabólicas relacionadas ao fato de os gatos serem carnívoros estritos.
Dessa forma, embora a vitamina D desempenhe papel essencial no metabolismo ósseo e a hipovitaminose D esteja associada a diferentes enfermidades em cães e gatos, sua suplementação não deve ser realizada de maneira indiscriminada.
A decisão de suplementar deve ser baseada na confirmação laboratorial de deficiência e com monitoramento adequado durante o tratamento.
Portanto, considerando os potenciais efeitos tóxicos associados à hipervitaminose D, a suplementação deve sempre ser realizada de forma criteriosa, com avaliação individualizada de cada paciente e acompanhamento veterinário.
Escrita por Thais Ximenes, Monique Paludetti e Erika Pereira.

