A identificação animal por microchip entra em uma nova fase no Brasil. Com atuação desde a década de 1990, a Associação Brasileira de Identificação Animal (ABRACHIP) passou por uma reestruturação para acompanhar a evolução tecnológica e as novas demandas relacionadas à segurança de dados, à guarda responsável e à proteção animal.
Entre as novidades estão uma nova arquitetura de dados, mecanismos de segurança alinhados à Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e ferramentas baseadas em Inteligência Artificial (IA) para auxiliar na localização de animais perdidos.
A proposta é ampliar o papel do microchip, transformando a identificação permanente em uma porta de acesso a informações que acompanham a trajetória do animal.
Segundo Leonardo Padovani, diretor executivo da ABRACHIP, a plataforma surgiu paralelamente à chegada da tecnologia de identificação por radiofrequência (RFID) ao Brasil. O desenvolvimento contou com a participação de médicos-veterinários, criadores, prefeituras, ONGs e diferentes marcas de microchips que passaram a utilizar a base.
“Por se tratar de uma tecnologia altamente inovadora para a época e que enfrentava barreiras operacionais, como a ausência de um padrão unificado de leitura, a garantia do acesso às informações dos responsáveis e de seus animais tornou-se a base para o desenvolvimento e o avanço do sistema no país”, explica.
Atualmente, a ABRACHIP informa possuir mais de 1,3 milhão de registros de posse e cerca de 475 mil animais monitorados ativamente, além de aproximadamente sete mil parceiros, entre clínicas veterinárias, Centros de Controle de Zoonoses (CCZs), prefeituras, ONGs e criadores.
Reestruturação acompanha novas exigências
A modernização da plataforma foi motivada, de acordo com Padovani, pela necessidade de acompanhar tanto a evolução tecnológica quanto as novas exigências relacionadas à gestão e à proteção das informações.
“As principais mudanças foram impulsionadas pelo advento da LGPD e pelas novas legislações específicas da causa animal — especialmente no que tange à registro, guarda responsável e transporte de pets”, afirma.
Nesse processo, a ABRACHIP desenvolveu uma nova arquitetura de dados, com mecanismos de controle de acesso, validação de identidade, confirmação por WhatsApp e histórico auditável. Uma alteração no número do microchip, por exemplo, pode exigir a confirmação de um código temporário recebido pelo usuário, enquanto o sistema registra quem realizou a mudança, quando e por qual motivo, preservando o histórico anterior.
A proposta também é facilitar a atualização das informações. Responsáveis e entidades autorizadas podem manter em um único ambiente dados como fotografias, contatos, vacinas, documentos e informações do animal, reduzindo registros duplicados, erros de preenchimento e dados espalhados em diferentes sistemas.
Além da segurança, a nova estrutura amplia a atuação de clínicas, profissionais, entidades e órgãos públicos. Médicos-veterinários podem consultar informações disponíveis, registrar vacinas e documentos e participar formalmente de processos de localização e devolução.
Já ONGs, CCZs e outras instituições podem utilizar recursos de gestão de animais, transponders, equipes e ocorrências.
“A nova fase da ABRACHIP busca enfrentar esses desafios oferecendo uma base de dados unificada, moderna e totalmente segura, o que estimula a adesão de veterinários e responsáveis pela eficiência do sistema”, pontua Leonardo.

IA amplia recursos para animais perdidos
Entre os principais avanços está o SOS MODO PERDIDO, sistema inteligente criado para auxiliar na busca por animais desaparecidos. A ferramenta cruza informações cadastradas, como características físicas, localização da ocorrência e registros de animais encontrados, para identificar possíveis correspondências.
A tecnologia busca reduzir a dependência de buscas isoladas e facilitar a mobilização de responsáveis, clínicas veterinárias, ONGs e equipes de apoio.
Padovani reforça, porém, que o microchip não funciona como GPS. O dispositivo implantado no animal não realiza rastreamento contínuo nem transmite sua localização. Ele fornece um código único que, quando lido por um equipamento compatível, pode ser relacionado às informações existentes na base de dados.
Outras tecnologias podem complementar esse processo. A ABRACHIP prevê a integração da identificação com pingentes inteligentes equipados com QR Code ou NFC. Dessa forma, quem encontrar um animal poderá acessar uma página segura, confirmar que ele está perdido e entrar em contato com o responsável sem visualizar informações pessoais sensíveis.
Com autorização para o compartilhamento, o celular utilizado na leitura também poderá registrar a localização aproximada do encontro e enviar um alerta ao responsável. A partir daí, a plataforma pode organizar etapas como comunicação, conferência da identidade, registro das condições do animal, checklist e emissão do termo de entrega e saúde pelo médico-veterinário ou entidade responsável.
“O microchip deixa de ser apenas um número. Ele se torna a chave de acesso a uma rede nacional de identificação, saúde, proteção, rastreabilidade e colaboração entre todos os envolvidos no cuidado animal”, destaca.
Microchipagem vai além de cães e gatos
A identificação eletrônica também pode desempenhar funções relacionadas à saúde animal, ao controle populacional e à saúde pública. Ao estabelecer um vínculo entre o animal e seu responsável, o registro pode contribuir para ações relacionadas à guarda responsável, abandono, maus-tratos e acompanhamento sanitário.
Para a ABRACHIP, um dos principais desafios ainda é ampliar a cultura da identificação permanente entre responsáveis e médicos-veterinários. A entidade defende que a microchipagem seja incorporada à rotina de cuidados dos animais, e não utilizada apenas quando ocorre o desaparecimento.
“O principal desafio da identificação animal no Brasil ainda é o mesmo do início: a ampla disseminação da cultura da microchipagem entre responsáveis e médicos-veterinários”, diz o diretor.
A plataforma também não é restrita a cães e gatos. Segundo a associação, animais exóticos e silvestres, equinos e animais de produção podem ser cadastrados. A tecnologia pode auxiliar em atividades de manejo, identificação individual, regulamentação de provas esportivas e acompanhamento de animais em diferentes sistemas de criação.
Outro ponto destacado pela ABRACHIP é que o cadastro na plataforma é gratuito. O registro pode ser feito pelo responsável legal, pelo médico-veterinário que realizou a aplicação do microchip, pelo criador ou pela entidade responsável pela doação.
A consulta pública pelo número do microchip e o gerenciamento das informações cadastradas também são oferecidos sem custo.
Além disso, Padovani garante que o dispositivo não interfere na saúde dos animais. O microchip é um transponder passivo, sem bateria própria, que é ativado apenas quando recebe o sinal de um leitor externo. Conforme a explicação apresentada pela ABRACHIP, o componente é encapsulado em material biocompatível e aplicado no tecido subcutâneo.

Identificação entra na era dos dados integrados
A expectativa da ABRACHIP é que a identificação animal avance de um modelo utilizado principalmente de forma reativa, após o desaparecimento, para uma estrutura preventiva e integrada.
Nesse cenário, o registro do animal pode reunir informações de identificação, posse, vacinação, documentos e histórico, permitindo diferentes níveis de acesso mediante a necessidade de cada usuário. Um médico-veterinário, cuidador ou autoridade, por exemplo, poderia consultar apenas os dados necessários para determinada situação.
A integração também pode alcançar serviços relacionados à saúde animal, transporte, órgãos públicos e outras áreas. Para Leonardo, a identificação individual pode funcionar como elemento de conexão entre diferentes setores.
“A evolução do mercado exige que o registro do animal seja a chave primária que conecta responsáveis, médicos-veterinários, órgãos públicos, seguradoras e empresas de transporte em uma única cadeia de dados confiável”, sustenta.
Nesse contexto, a modernização da identificação é apresentada pela ABRACHIP como uma ferramenta que pode contribuir para três frentes: segurança jurídica e comprovação da responsabilidade pelo animal; acompanhamento de informações sanitárias e apoio à saúde pública; e maior eficiência para profissionais e instituições que atuam no setor.
A associação também pretende ampliar a utilização da plataforma por clínicas, ONGs, gestores públicos, criadores e demais integrantes da cadeia de proteção animal.
“A nossa principal contribuição é elevar o padrão da identificação animal no Brasil, transformando a microchipagem de um simples acessório em um ecossistema de dados estruturado, seguro e acessível”, ressalta Padovani.

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