A albumina desempenha um papel central na manutenção da homeostase dos pacientes críticos, mas seu impacto vai muito além da pressão oncótica plasmática.
No primeiro dia do Cat Congress 2026, evento realizado de 5 a 7 de junho em São Paulo, a médica-veterinária especializada em Intensivismo e Endocrinologia Veterinária, destacou a importância de compreender a fisiologia da albumina para tomar decisões mais assertivas na rotina clínica.
Segundo a profissional, a compreensão atual do equilíbrio de fluidos mudou significativamente com a revisão da hipótese de Starling.
“A mensagem-chave dessa mudança é que a reabsorção capilar sustentada é limitada e que a drenagem linfática passa a ter papel central no manejo dos líquidos”, explicou.
Nesse contexto, o glicocálix vascular ganhou protagonismo, mas a albumina continua sendo fundamental para sua preservação.
“A albumina contribui para a manutenção da saúde do glicocálix. Quando temos hipoalbuminemia associada à inflamação e lesão dessa estrutura, ocorre prejuízo na translocação de fluidos, aumento do edema e piora da entrega de oxigênio aos tecidos”, afirmou.
Além de participar da manutenção da pressão oncótica, a proteína exerce diversas funções fisiológicas importantes, incluindo o transporte de hormônios, íons e fármacos, ação antioxidante e participação na modulação da inflamação. Por isso, a redução de seus níveis pode desencadear uma série de complicações clínicas.
Edema e comprometimento da oxigenação
Durante a palestra, Camila enfatizou que um dos principais problemas da hipoalbuminemia é o extravasamento de líquidos para o interstício. Embora o edema seja frequentemente encarado apenas como um sinal clínico, ele representa um fator importante de agravamento do quadro.
“O oxigênio não chega onde tem água. Quando há edema intersticial, a difusão de oxigênio fica comprometida, a célula deixa de produzir energia adequadamente e isso pode culminar em disfunção orgânica múltipla”, pontuou.
Esse processo favorece o metabolismo anaeróbico e a produção de lactato, reduzindo drasticamente a eficiência energética celular.

Nutrição como base do tratamento
Outro ponto amplamente discutido foi a relação entre nutrição e produção de albumina. De acordo com a médica-veterinária, a reposição isolada da proteína não resolve o problema quando o paciente não recebe aporte nutricional adequado.
“Se eu não tenho dieta, se eu não tenho nutrição, esquece a albumina. A síntese da albumina depende da disponibilidade de aminoácidos. Sem ingestão adequada de nutrientes, o fígado simplesmente não terá substrato para produzi-la”, ressaltou.
Por isso, a avaliação nutricional deve ocorrer logo no momento da admissão hospitalar e atrasos na implementação do suporte nutricional comprometem a recuperação e favorecem a progressão da doença.
Uso criterioso da albumina
Embora a administração de albumina seja uma ferramenta terapêutica disponível, a palestrante alertou que ela não deve ser encarada como solução universal para todos os pacientes com níveis reduzidos da proteína.
“Não existe tratamento milagroso. Não adianta pensar apenas na albumina se o paciente não está se alimentando, se o foco infeccioso não está controlado ou se a fluidoterapia continua inadequada”, afirmou.
Logo, a decisão de utilizar essa ferramenta deve considerar fatores como presença de edema, derrames cavitários, estado hemodinâmico e resposta ao tratamento de base.
Camila também chamou atenção para um erro frequente na prática clínica: o aumento progressivo de vasopressores em pacientes com hipoalbuminemia e má perfusão tecidual.
Ao final da palestra, a especialista reforçou a necessidade de uma abordagem individualizada.
“Cada paciente é único. Antes de pensar em repor albumina, precisamos garantir que ele esteja recebendo nutrição adequada, que a inflamação esteja sendo controlada e que o manejo de fluidos seja correto. É esse conjunto de fatores que realmente faz diferença na evolução clínica”, finalizou.
