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Boca doente, corpo em risco: problemas odontológicos em cães e gatos podem afetar outros aspectos da saúde do animal

Problemas bucais em cães e gatos vão muito além do mau hálito e podem impactar rins, coração, fígado e até o controle de doenças crônicas

Boca doente, corpo em risco: problemas odontológicos em cães e gatos podem afetar outros aspectos da saúde do animal
Por Danielle Assis
10 de março de 2026

A saúde oral é um tema muito debatido dentro dos consultórios veterinários, mas ainda bastante negligenciado nos cuidados diários com cães e gatos. 

Por mais que os responsáveis, geralmente, associem as alterações bucais apenas a boca, poucos se lembram – ou sabem – que essas enfermidades podem desencadear prejuízos a diversos outros sistemas orgânicos.  

Segundo Mariana Scudeler, médica-veterinária especializada em Odontologia de Pequenos Animais pela Anclivepa-SP e Radiodiagnóstico Veterinário, a saúde bucal tem impacto direto na saúde e na qualidade de vida dos animais de estimação. 

“A doença periodontal não é uma condição limitada à cavidade oral. É um processo inflamatório crônico e infeccioso, que impacta diretamente a saúde sistêmica de cães e gatos. Com a inflamação crônica presente nessa enfermidade ocorre a liberação contínua de mediadores inflamatórios, contribuindo para perda de colágeno e alterações funcionais em diferentes sistemas”, relata.

Ainda de acordo com a profissional, a bacteremia também acontece constantemente quando há permanência da doença periodontal instalada, permitindo que microrganismos da boca alcancem a corrente sanguínea e se depositem em órgãos distantes, causando prejuízos. 

Inclusive, existe a associação da enfermidade com a progressão de doença renal crônica, alterações hepáticas e maior dificuldade no controle do diabetes numa relação bidirecional, em que a inflamação periodontal piora o controle glicêmico e a hiperglicemia agrava a periodontite, pois prejudica a imunidade salivar. 

“Também pode haver impacto respiratório e cardiovascular, com alterações endoteliais e maior predisposição a endocardite”, complementa.

Entendendo a dentição  

Os cães e gatos são animais difiodontes, ou seja, possuem duas dentições distintas ao longo da vida: a decídua (dentes de leite) e a permanente.

Mariana explica que a troca dentária é um processo fisiológico, no qual os dentes de leite vão tendo suas raízes esfoliadas e caem, sendo substituídos pelos permanentes. 

“Essa troca acontece nos primeiros meses de vida. Em geral, começa por volta dos três a quatro meses e se completa até os seis ou sete meses”, cita.

Nas raças de pequeno porte e braquicefálicas é bastante comum ocorrer a persistência de dentes decíduos, que acontece quando o dente permanente nasce e o de leite não cai. Nesses casos, o animal passa a apresentar dentição dupla, o que favorece retenção de biofilme e cálculo, aumentando o risco de doença periodontal precoce.

“Além disso, quando o dente permanente não encontra espaço adequado para erupcionar, são comuns desalinhamentos e traumas oclusais. Nessas situações, a exodontia do dente decíduo deve ser realizada o quanto antes para liberar espaço e permitir que a dentição permanente se posicione e oclua de forma adequada”, relata. 

Afecções de maior incidência em cães

As enfermidades orais mais comuns nos cães são: doença periodontal, fraturas dentárias e, em menor incidência, tumores orais e fraturas maxilomandibulares.

“Segundo a literatura, a doença periodontal afeta 80% dos cães. Entretanto, após quase 30 anos de experiência no atendimento exclusivo em Odontologia de Pequenos Animais, ouso afirmar que 100% dos cães terão algum grau de doença periodontal e precisarão de um dentista especializado”, afirma Vanessa Graciela Gomes Carvalho, médica-veterinária, mestre, doutora e pós-doutora pela FMVZ-USP, professora e coordenadora do curso de especialização em Odontologia Veterinária da Anclivepa-SP e proprietária e responsável pelo atendimento em Odontologia Veterinária da  Smile4pets – especialidades veterinárias. 

O motivo dessa elevada incidência, conforme a profissional, é o avançar da idade e a falta de cuidados de higiene oral em casa, que leva ao acúmulo de tártaro sobre os dentes, gerando, inicialmente, inflamação da gengiva, condição chamada de gengivite.

“Quando não detectada a tempo pelos responsáveis ou pelos médicos-veterinários, as bactérias se acumulam por baixo da gengiva, causando um processo inflamatório ainda mais intenso, que desencadeia perda óssea ao redor das raízes dentárias, culminando na perda dentária”, comenta.

Inclusive, a perda dos dentes não é a única consequência da periodontite. Esse processo inflamatório ao redor das raízes causa desconforto ao mastigar e pode evoluir para abscessos dentários e inflamações sistêmicas. 

Já as fraturas dentárias são altamente frequentes em cães, principalmente pelo acesso a objetos ou brinquedos muito duros e, eventualmente, por brigas com outros animais. 

“Roer pedras, metal, brinquedos de nylon ou ossos naturais é altamente contraindicado, pois os dentes não são capazes de absorver o impacto da mordida. Por isso, recomendam-se brinquedos de silicone ou borracha maciços e, se os responsáveis quiserem ofertar ossos naturais, deve-se retirá-los assim que o animal roer toda a carne e cartilagem”, aconselha. 

Vanessa também explica que algumas fraturas dentárias podem expor a polpa dentária, levando a contaminação interna do dente e inflamação na região óssea. Quando isso ocorre, a condição pode evoluir para abscessos periapicais e causar dor e disseminação de bactérias pelo organismo. 

“Todo o dente fraturado deve ser avaliado por um dentista veterinário, que pode sugerir o tratamento de canal ou a extração do mesmo”, cita. 

Por outro lado, os tumores orais, mesmo não tão comuns, se desenvolvem com certa frequência nos animais e o diagnóstico precoce é fundamental. A médica-veterinária esclarece que eles podem ser benignos ou malignos e a primeira conduta perante o seu surgimento é a retirada do material para exame histopatológico.

Exames de imagem, como radiografias da cabeça, intraorais ou tomografia, podem ser necessários para o estudo e planejamento do tratamento, que é cirúrgico em quase 100% dos casos.  

“Tratamentos adjuvantes são associados ao tratamento cirúrgico, como a eletroquimioterapia, quimioterapia ou radioterapia. Contudo, os profissionais responsáveis pelo paciente irão determinar qual o melhor método ou associação, a depender da localização ou extensão tumoral”, informa. 

Para complementar, as fraturas maxilomandibulares ocorrem por traumas, como acidentes automobilísticos, brigas com outros animais ou até mesmo pela evolução da doença periodontal em região de molares inferiores, especialmente quando há grande perda óssea. 

Perante esses quadros, o animal deve passar por avaliação e exames, existindo diversas condutas terapêuticas que podem ser empregadas a depender da localização e das características da lesão.

Nos felinos

Assim como acontece com os cães, nos felinos a afecção oral mais comum é a doença periodontal. Porém, na espécie existe um agravante: a elevada incidência de reabsorção dentária. 

“Infelizmente, a literatura aponta que a cada 10 gatos, sete terão, pelo menos, um dente acometido por reabsorção. Quando a lesão se inicia na raiz, sem exteriorizar para a cavidade oral, costuma não causar dor. Entretanto, quando começa na base da coroa dentária – ou mesmo as radiculares que progridem para a coroa, abrindo cavidades que expõe a polpa dentária – o animal sente muita dor, pois as terminações nervosas internas do dente ficam expostas e qualquer coisa que ali toca, como o alimento, água e até a passagem de ar, causa dor”, explica Carvalho. 

Outra enfermidade que afeta muitos os felinos e não possui tratamento conservador eficaz é a Gengivoestomatite Crônica Felina (GECF). 

A médica-veterinária especializada em Odontologia afirma que essa é uma doença inflamatória exacerbada, que ocorre frente a estímulos presentes na cavidade oral, tal como, placa bacteriana, cálculo dentário e presença de alguns vírus e bactérias. 

“Porém, o problema concentra-se não no agente em si, mas na resposta imunológica de alguns gatos acometidos pela GECF, que acaba sendo totalmente descontrolada. Quando isso acontece é comum surgir inflamação das mucosas, úlceras orais ou até crescimento de tecido inflamatório, principalmente localizado no fundo da boca, bilateralmente”, esclarece. 

Essa é uma enfermidade extremamente dolorosa, que possui como sinais clínicos sialorréia intensa, dificuldade em se alimentar e deglutir, mal cheiro na boca e presença de sangramento. 

Vanessa pontua que o diagnóstico da GECF é clínico, pois não há um exame específico para esta enfermidade, e o tratamento consiste na exodontia, visto que a administração de antibióticos e anti-inflamatórios corticoides não são eficazes a longo prazo. 

“A cada 10 animais que fazem as extrações, sete melhoram ou se curam, mas a melhora clínica pode levar até seis meses para ocorrer. Em alguns casos, imunomoduladores podem ser associados ao tratamento para acelerar este processo, mas devem ser usados com parcimônia para não causar lesões renais”, alerta.

Por fim, nos felinos, as fraturas dentárias também são frequentes e causadas, principalmente, por brigas ou quedas durante os saltos. Na espécie, a neoplasia oral mais comum é o Carcinoma de Células Escamosas e o tratamento requer remoção cirúrgica associada a outras terapias adjuvantes.

Importância dos cuidados domiciliares 

As profissionais da área concordam: o principal motivo para a importante casuística de animais com afecções orais é a falta de cuidados domiciliares. 

“O elevado número de casos de cães e gatos com problemas orais pode ser justificado, principalmente, pela falta de cuidados domiciliares, como a escovação dental diária e, pela falta de avaliação profissional por um dentista veterinário”, afirma Vanessa. 

Já para Mariana, essa alta prevalência é explicada pelas lacunas na formação e prática clínica dos veterinários durante a graduação. Como consequência, ocorre a falta de orientação adequada aos responsáveis dentro do consultório e, por último, a dificuldade dos mesmos nos cuidados diários com a prevenção em casa. 

“Vejo na minha rotina que um dos principais problemas é a dificuldade dos responsáveis na constância de manter a escovação dentária diariamente. A falta de hábito desde filhote, aliada à percepção de que cuidados diários não são tão necessários, favorece o acúmulo de biofilme e o desenvolvimento precoce da doença periodontal”, cita.

Atenção aos sinais clínicos 

Mesmo com a escovação diária, ainda assim pode ocorrer o surgimento de enfermidades na boca dos pets. Inclusive, alguns animais possuem uma tendência maior em desenvolver a doença periodontal, necessitando de consultas especializadas com maior frequência. 

De acordo com Ana Cristina Klein Marques de Freitas, médica-veterinária pós-graduada em Odontologia de Pequenos Animais pela Anclivepa-SP e atual sócia-proprietária da Ana Klein – Odontologia Veterinária, alguns sinais podem indicar que algo não está certo com a saúde oral dos animais de estimação. 

“Os mais comuns são presença de halitose, sangramento gengival, dor, perda de peso, mudança de comportamento, aumento de volume facial e salivação excessiva”, pontua. 

Já segundo a pós-doutora pela FMVZ-USP, os responsáveis costumam se queixar com frequência da presença de cálculos dentários, popularmente conhecidos como tártaro, e halitose. 

“Na consulta odontológica felina, quando há GECF, muitos relatam que o animal está com dificuldade para se alimentar e apresenta emagrecimento e salivação. Demais sintomas apontados são preferência por alimentos úmidos, esfregar a patinha na face ou a face no chão, recusa por petiscos e brinquedos que antes adorava pegar, virar a cabeça ao se alimentar ou comer mais devagar”, cita.

No entanto, nem sempre a halitose está relacionada às doenças orais. Existem enfermidades sistêmicas, como insuficiência renal, diabetes mellitus e afecções gástricas, que podem alterar o odor do hálito, embora sejam menos frequentes quando comparadas a doença periodontal.

“Por isso, é fundamental que a avaliação veterinária inclua exame clínico detalhado da cavidade oral com sondagem periodontal e radiografias intraorais. Caso as causas odontológicas, que são significativamente mais comuns, sejam descartadas, deve-se prosseguir com a investigação de possíveis causas sistêmicas”, recomenda Mariana.

Além disso, as fraturas dentárias são, muitas vezes, achados em consulta que surpreendem os responsáveis.

Confira o artigo completo “Boca doente, corpo em risco”, na íntegra e sem custo, acessando a página 24 da edição de março (nº 319) da Revista Cães e Gatos.