Realizando um trabalho único, os cães-guia e os cães de assistência são capazes de minimizar as dificuldades de pessoas portadoras de alguma deficiência.
Através de um longo período de treinamento, esses animais se capacitam para oferecer muito mais do que amor, tendo um papel de extrema importância no dia a dia de muitos seres humanos. Porém, como funciona a capacitação dos cães-guia?
Para entender um pouco mais sobre esse processo conversamos com Elis Rejane Busanello, que é presidente da diretoria executiva da Escola de Cães-Guia Hellen Keller (HKeller), pioneira no Brasil a atuar diretamente na inclusão de pessoas com deficiência visual com o apoio de cães-guias.
A escola também é a única instituição da América Latina certificada pela International Guide Dog Federation (IGDF), uma referência mundial em padrões de qualidade para cães-guias.
Segundo Elis, tudo começa com o cão ainda filhote.

“Até os quatro meses de vida os animais estão no período de dessensibilização. Nessa fase são estimulados e observados enquanto realizamos trabalhos relacionados aos hábitos de alimentação e higiene. A próxima etapa é a da socialização, no qual os voluntários “apresentam o mundo” ao futuro cão-guia. A socialização dura um ano e nesse período os cães vivenciam experiências diárias em locais diversos”, comenta.
Passada a etapa de socialização, a presidente explica que os animais retornam para a escola quando estão com cerca de 1,5 anos e passam por avaliações de comportamento e de saúde. Na sequência, são treinados por cerca de seis meses.
Quais as características essenciais de um cão-guia?
Busanello comenta que as melhores raças para exercer funções como cão-guia, cão de assistência ou cão de terapia são as que possuem temperamento equilibrado, inteligência, facilidade de aprendizado, sociabilidade e disposição para o trabalho em equipe com o ser humano.
“Entre as raças mais utilizadas no mundo para essas atividades estão retriever do labrador, golden retriever, pastor alemão, poodle (médio ou padrão) e border collie. Nossa instituição optou pela retriever do labrador por considerá-la extremamente adequada para a função de cão-guia”, pontua.
Ela relata que a escolha foi baseada em diversas qualidades marcantes da raça como:
- Temperamento dócil e equilibrado essencial para ambientes urbanos e variados;
- Alta sociabilidade, que facilita a convivência com pessoas e outros animais;
- Inteligência e facilidade de treinamento;
- Instinto de colaboração e desejo de agradar o humano.
“Além dessas qualidades comportamentais e físicas, a escolha por uma única raça também favorece o processo de melhoramento genético, permitindo que sejam selecionados e preservados, ao longo das gerações, os traços desejáveis para o desempenho da função. Essa padronização genética torna os resultados mais previsíveis e confiáveis, contribuindo para a qualidade e a segurança do serviço prestado pelos cães”, afirma.
Já para saber se um animal, realmente, está apto para a função, uma equipe de profissionais realiza avaliações técnicas, comportamentais e físicas.
Quem pode solicitar um cão guia?
De acordo com Elis, na escola HKeller podem requisitar um cão-guia deficientes visuais com cegueira ou baixa visão, maiores de 18 anos e que tenham domínio do uso da bengala
Por outro lado, as famílias socializadoras, que auxiliam no treinamento dos animais, devem contar com uma residência segura a um raio de 150km da escola e possuir disponibilidade para estar com o cão 24 horas por dia. Além disso, também é importante que exista um responsável com mais de 18 anos.
A importância dos cães-guia
“Os cães-guia e os cães de assistência têm um impacto profundo não apenas na vida da pessoa com deficiência, mas em toda a sua família. Esses cães representam liberdade, autonomia, segurança e inclusão, devolvendo à pessoa a possibilidade de viver com mais independência e confiança”, comenta a presidente.
Ela também relata que, para as famílias, o animal se torna parceiro essencial no cuidado e na rotina. Através do seu trabalho consegue reduzir o nível de preocupação constante, melhora a mobilidade e promove a autoestima da pessoa assistida, o que reflete em uma dinâmica familiar mais leve e positiva.
Contudo, esse vínculo é construído de maneira cuidadosa e gradual. Segundo Busanello, esse processo envolve:
- Um período de adaptação e convivência assistida com orientação técnica especializada;
- Treinamento conjunto, no qual usuário e cão aprendem a se comunicar e confiar um no outro;
- Presença de afeto, respeito e rotina – elementos fundamentais para solidificar a parceria.
“Com o tempo esse vínculo ultrapassa a função prática e se transforma em amizade profunda, conexão emocional e parceria de vida. O cão passa a entender as necessidades do seu humano com uma sensibilidade surpreendente, respondendo com dedicação e lealdade. Mais do que um auxiliar, o cão-guia ou cão de assistência se torna um membro da família, um elo de amor, que inspira todos ao redor”, finaliza.
O trabalho na prática
Elias Ricardo Diel é um exemplo de quem vivenciou na prática o trabalho desses animais. Hoje com 51 anos, ele é bicampeão de parasurf mundial e já teve dois cães- guia.

“O primeiro cão-guia eu recebi em 2010 e veio da Austrália. Era uma fêmea, mistura de labrador com golden retriever, e ficou comigo durante seis anos. Depois eu tive a Durga, uma labradora que foi treinada pela escola HKeller e também se manteve ao meu lado durante esse período”, relembra.
Segundo o atleta, contar com a assistência dos cães é algo incrível.
“Eles nos ajudam muito na rotina e no dia a dia. É muito importante que as pessoas possam ter acesso a esse trabalho. Hoje estou sem um cão-guia, na realidade, estou na fila para receber o próximo e muito feliz por poder ter essa oportunidade”, relata.
Já Rock Hudson nasceu com perda de visão e no decorrer dos anos a deficiência foi agravando até que ele se tornou usuário de um cão-guia.
“Estou com a Hibisco, uma labrador retriever de cor preta, há três anos e seis meses. Ela me acompanha todos os dias na nossa rotina. Para chegar ao trabalho pegamos ferry boat e ônibus e andamos por calçadas com obstáculos. Nós temos uma rotina agitada e, graças a Deus e a Hibisco, eu levo uma vida muito ativa”, conta.
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