A médica-veterinária Claudia Almeida Igayara de Souza escreveu um artigo intitulado “Desafios para a atuação do Médico-Veterinário no gerenciamento de Parques Zoológicos”, divulgado no site da Academia Paulista de Medicina Veterinária (Apamvet). O conteúdo aborda a evolução da Medicina Veterinária em zoológicos e os desafios enfrentados na área.

Ela compartilha que o tema zoológicos tornou-se sinônimo de controvérsia, sendo, hoje, um dos casos de “ame ou odeie”, mas não deveria ser assim. “De fato, ao longo de minha carreira de 27 anos como veterinária no Zoológico Municipal de Guarulhos, passei por momentos de amor e de de ódio pela instituição zoológico, e optei por tentar transformar o que eu não gostei em algo bom e positivo, além de buscar entender onde a minha atuação profissional poderia agir para fazer essa instituição melhor. Vivi e participei da mudança que vejo na atuação dos zoológicos no mundo e no Brasil, da mesma forma que vivi a mudança e evolução da Medicina Veterinária ao longo de meus 35 anos de profissão”, relata.
Ela conta que os procedimentos anestésicos são uma rotina no zoológico, já que, no geral, os profissionais lidam com pacientes não cooperativos e, algumas vezes, com potencial para causar sérios danos em caso de acidentes. “Esses procedimentos são sedações simples ou anestesias complexas de animais de alta periculosidade ou alto risco anestésico. O curso de pós-graduação lato sensu em Anestesiologia Veterinária, que conclui em 2019, na Famesp – IEP Ranvier, mesmo com foco principal em cães e gatos, me auxiliou a implantar novos protocolos anestésicos, garantindo maior segurança e melhoria da qualidade dos procedimentos, além de contar com o apoio de colegas especializados nessa área, para discutir e mesmo participar em casos complexos”, afirma.
Em sua visão, a colaboração e a cooperação são essenciais nesta área e, felizmente, os veterinários podem contar com a colaboração de muitos especialistas, que com o seu conhecimento em áreas específicas da Medicina Veterinária, ajudam a proporcionar aos animais silvestres o mesmo nível de cuidado que hoje existe para os domésticos.
Segundo ela, além da anestesiologia, fazem parte da equipe de de cuidados com os animais de zoológicos profissionais da área de odontologia, cardiologia, oftalmologia, ultrassonografia, radiologia, endoscopia, Medicina Integrativa, análises clínicas e, em casos especiais, na oncologia, nefrologia, dermatologia, Medicina Transfusional, entre outros. “Um check-up em um grande felino, por exemplo, pode envolver todos esses profissionais em um mesmo evento e cabe ao veterinário da instituição coordenar tudo para que ocorra com tranquilidade, segurança e no menor tempo possível. É óbvio que um único profissional não poderia ser um especialista em todas essas áreas e estar atualizado com toda a inovação em cada uma delas, portanto, a parceria e cooperação com os diversos colegas é fundamental”, assegura.

Ela observa que não é frequente os veterinários buscarem essa área de atuação, mas que esses profissionais podem, sim, conseguir desempenhar um papel de excelência. “Para chegar a isso participei de diversos workshops, ao lado dos mais diferentes destinos ligados à conservação de uma ou várias espécies, e fiz muitos cursos específicos para ecologia, conservação, gestão de studbooks, manejo de população, congressos e afins, que abriram um novo horizonte para minha atuação no zoológico. Por voltas do destino, acabei dedicando grande parte da minha carreira à espécie Callithrix aurita, o sagui-da-serra-escuro, investindo em melhorar o manejo da espécie e entender suas particularidades, inclusive nutricional e de saúde, e o Zoológico de Guarulhos acabou se tornando uma referência nessa área, contribuindo para a consolidação da população ex situ e a participação no manejo cooperativo para sua conservação”, compartilha.
Mesmo sabendo que muitas pessoas não são favoráveis aos zoológicos, Claudia lembra que os animais vivem nesses locais por diversas razões, na maioria das vezes por não estarem aptos a viver na natureza, seja por condições individuais ou por riscos à sobrevivência de toda uma espécie, como é o caso do sagui-da-serra-escuro. “Os programas de manejo ex situ são reconhecidamente necessários para a conservação de diversas espécies e alguns já não existiriam se não existissem zoológicos, que devem ser o princípio fundamental da manutenção de animais nas instituições”.
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