Quando o assunto é a criação de cães, o encontro entre machos e fêmeas vai muito além da afinidade entre eles. Cada acasalamento exige planejamento, avaliação genética, cuidados sanitários e outras decisões que impactam diretamente a saúde e o bem-estar das futuras gerações.
Para entender melhor a temática, conversamos com Vinicius Ribeiro da Silva, médico-veterinário especializado em reprodução animal, neonatologia e obstetrícia.
“Antes mesmo de trabalhar a procriação de dois exemplares da mesma raça é preciso entender a seleção deles quando ainda são filhotes. A genealogia desses animais deve justificar o prosseguimento da linha genética da raça usando técnicas como o linebreeding (cruzamento entre indivíduos que possuem ancestrais comuns, mas não tão próximos quanto como pai com filha ou irmãos inteiros) ou outcross (acasalamento entre dois cães da mesma espécie que não possuem nenhum ancestral comum recente)”, explica o médico-veterinário.
Quando os cães já estão na fase reprodutiva, deve-se fazer um levantamento dos seus status de saúde, tanto da matriz quanto do procriador.
“Se eles possuírem um quadro clínico satisfatório e parâmetros fisiológicos adequados para espécie durante a consulta com o especialista em reprodução, devem passar por uma avaliação ginecológica e andrológica”, conta.
Ainda segundo ele, quando esses resultados também são satisfatórios, ainda é preciso fazer exames laboratoriais de hematologia e bioquímica, ultrassonografia e passar por um levantamento com testes genéticos.
Cruzamentos perigosos
O profissional ainda ressalta que a consanguinidade deve ser evitada ao máximo, sendo o inbreeding (acasalamento entre parentes de primeiro grau), apenas utilizado por criadores mais experientes.
Além disso, deve ser impedido o cruzamento entre cães portadores da síndrome braquicefálica, presente em alguns animais de raças braquicefálicas, para não perpetuar características genéticas que causem sofrimento ou problemas de saúde severos no futuro.
Certos reproduções baseadas em cores de pelagem também podem trazer problemas genéticos na prole. O acasalamento entre dois cachorros portadores do gene Merle, por exemplo, é terminantemente proibido. Entre as raças que podem ter esse gene estão os Border Collies, Pastores Australianos e Dachshunds.
“O resultado desse tipo de cruzamento é proibido porque os filhotes apresentam alta incidência de cegueira congênita, microftalmia e surdez profunda devido à ausência de melanócitos na orelha interna e nos olhos”, explica Vinicius.

Quantidade de ninhadas e sinais para evitar a criação
A quantidade de proles, dependendo de muitas condições da matriz, pode variar de três a quatro no máximo.
“Antes de começar o cruzamento, é importante lembrar que essa cachorra só deve iniciar sua reprodução após completar sua maturidade física e mental, podendo variar entre 18 a 24 meses de vida a depender do indivíduo, raça e situação corporal”, conta o profissional.
Além disso, o intervalo entre gestações deve obedecer de forma ética às condições deste animal, sendo necessário observar se a ninhada anterior foi muito pequena, de um a dois filhotes, antes de realizar qualquer acasalamento.
Previamente a ação, a matriz também precisa estar com um escore de condição corporal (ECC) impecável e receber uma liberação expressa do médico-veterinário.
“Em hipótese alguma devemos realizar a procriação de cães que tenham ausência de um ou ambos os testículos, que possuam desvios comportamentais, demonstrem agressividade injustificada, ansiedade extrema e hiperatividade, apresentem dermatite atópica severa, alergias alimentares crônicas, epilepsia idiopática ou colapso de traqueia”, diz o médico-veterinário.
Cuidados com os filhotes
Os primeiros dias do recém-nascido são os mais críticos. Por isso, nas primeiras quatro semanas de vida dele, devemos seguir três pilares essenciais: dar suporte neonatal físico, fazer um processo gradual de desmame e começar a socialização.
“Os neonatos são extremamente vulneráveis porque nascem sem a capacidade de regular a própria temperatura corporal. Por esse motivo dependem totalmente da mãe e devem ficar com ela o tempo todo. O desmame nunca deve ser abrupto e pode acontecer à medida que os dentes de leite surgem, por volta dos 21 a 28 dias”, conta Vinicius.
A partir da terceira semana de vida do animal, é permitido reduzir a porção líquida e deixar a alimentação mais sólida até que o filhote comece a ingerir ração pura, por volta da oitava semana.
Da terceira semana até os 12 meses, deve-se aplicar a técnica de socialização habituando os filhotes a diferentes texturas, como grama, piso frio, tapetes e jornal, e a barulhos controlados do dia a dia.
Para complementar, no começo da vida do cão, o toque humano precisa ser delicado e diário, e os animais precisam ficar juntos com a mãe e os irmãos até as oito semanas.
A socialização externa com outros cães ou ambientes públicos deve esperar o protocolo de vacinação estar completo. Até lá, essa ambientalização precisa ser feita dentro de casa ou em ambientes controlados e limpos, recebendo visitas de pessoas e de animais vacinados e saudáveis.

Responsabilidades legais e éticas do criador
É importante que o profissional que cuida do acasalamento de cães siga algumas regras. A primeira é que ele zele pelo bem-estar do animal, evitando a superpopulação em canis, mantendo a higiene, assistência veterinária e espaço, e não submetendo fêmeas a crias consecutivs sem descanso.
“O cruzamento consecutivo e a falta de cuidado configuram crime de maus-tratos, com penas que variam de dois a cinco anos de reclusão, vigentes na legislação de maus-tratos (Lei 14.064\2020)”, conclui o médico-veterinário.
O criador também deve ter um registro junto à Confederação Brasileira de Cinofilia (CBKC) fixo no canil, possuir um cadastro como Microempreendedor (MEI) ou empresa (CNPJ) para emissão de notas fiscais e alvará de funcionamento municipal.
FAQ sobre criação de cães
Quais exames os cães devem fazer antes da procriação?
Antes do acasalamento, matriz e reprodutor devem passar por avaliação clínica, exames ginecológicos e andrológicos, além de exames laboratoriais, ultrassonográficos e testes genéticos.
Quais cruzamentos devem ser evitados?
A consanguinidade deve ser evitada ao máximo. Também não é recomendado cruzar cachorros com síndrome braquicefálica ou outros problemas de saúde genéticos e nem dois animais portadores do gene Merle.
Quais são os cuidados mais importantes com os recém-nascidos?
Nas primeiras semanas de vida é fundamental garantir suporte neonatal, realizar o desmame de forma gradual e iniciar a socialização.
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