De origem milenar, uma das primeiras referências descritas da raiva data da Mesopotâmia, em 1770 a.C. Mesmo após tanto tempo, ainda é necessário falar sobre a enfermidade, que até hoje não tem cura e representa um risco para animais e seres humanos.
A raiva é causada por um vírus do gênero Lyssavirus e é caracterizada por provocar encefalomielite aguda e fatal em animais de sangue quente (mamíferos) e em seres humanos.
“A doença permanece como uma das zoonoses virais mais importantes do mundo, sendo responsável por aproximadamente 59 mil mortes humanas por ano, principalmente em países da Ásia e da África”, afirma a professora Jane Megid, médica-veterinária, mestre e doutora em epidemiologia experimental aplicada às zoonoses, pós-doutora em infecção e imunidade e neuroimunologia viral, docente sênior na Universidade Estadual Paulista (Unesp) e membro do Comitê Internacional de Raiva nas Américas.
Essa é considerada uma enfermidade prevalente de países em desenvolvimento, especialmente entre populações com acesso limitado aos serviços de saúde e à profilaxia por meio de vacinas e soro antirrábico.
Além disso, é frequentemente subnotificada nos continentes africano e asiático, uma vez que a maioria das vítimas evolui para óbito em seus próprios domicílios.
“Embora alguns relatos indiquem a sobrevivência de pacientes que adquiriram a raiva, ela ainda é considerada uma doença 100% letal quando são iniciados os sinais clínicos”, pontua.
Efeitos no Sistema Nervoso Central (SNC)
O principal sistema afetado pela raiva é o nervoso central. Depois que o vírus o atinge por meio das fibras nervosas periféricas, começa a sua multiplicação ativa em neurônios do tronco encefálico, hipocampo, tálamo, bulbo e cerebelo.
“Em seguida, dissemina-se pelas fibras nervosas, alcançando diversos órgãos e as glândulas salivares, especialmente as submandibulares (ou submaxilares), que são os principais órgãos-alvo fora do sistema nervoso central. Nas glândulas salivares, o vírus replica-se e pode ser detectado antes do aparecimento dos sinais clínicos na maioria dos animais, sendo eliminado de forma intermitente pela saliva. A partir da replicação no SNC, ocorre degradação e disfunção neuronal, causando os sinais clínicos e morte”, esclarece.
Um fato interessante é que o vírus da raiva praticamente não provoca lesões inflamatórias intensas no SNC e os sinais clínicos ocorrem, principalmente, devido à disfunção neuronal provocada.
Por falar nisso, o aparecimento dos sinais clínicos da enfermidade depende de vários fatores, tal como, o local de penetração do vírus rábico.
Conforme cita a professora, o período médio para a manifestação clínica é de três a oito semanas, com extremos que variam de 10 dias a seis meses. Contudo, de modo geral, os sinais não são vistos com menos de duas semanas após a infecção e raramente surgem após quatro meses de infecção.
“De acordo com o Código Terrestre da Organização Mundial da Saúde (OMS), o período de incubação da raiva é de seis meses. Cães e gatos apresentam um período de evolução com morte, normalmente, 10 dias após o início dos sinais clínicos”, destaca.


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