Receber a notícia de que uma doença não tem cura costuma produzir uma sensação imediata de impotência.
“Então não existe mais nada que possa ser feito?”
Na maioria das vezes, essa é a pergunta errada.
Talvez devêssemos perguntar:
O que ainda podemos fazer por esse animal?
E frequentemente a resposta é: muita coisa.
Paliar não significa abandonar
Cuidados paliativos são uma abordagem ativa voltada à prevenção e ao alívio do sofrimento.
Podem ser indicados para animais com câncer avançado, doenças degenerativas, insuficiências orgânicas progressivas, alterações neurológicas graves e outras condições em que a cura não é possível ou deixa de ser um objetivo realista.
Além disso, tratamento paliativo e tratamento direcionado à doença não são necessariamente excludentes.
Durante determinado período, ambos podem coexistir.
O que muda é a prioridade.
Precisamos tratar o paciente, não apenas a doença
Quando pensamos em sofrimento, a dor costuma ser nossa primeira preocupação. Ela é fundamental, mas está longe de ser a única.
Náusea persistente, dificuldade respiratória, ansiedade, fraqueza, desidratação, dificuldade para dormir, incapacidade de se locomover ou eliminar urina e fezes adequadamente também comprometem profundamente o bem-estar.
Por isso, um plano paliativo precisa considerar o animal como um todo.
Alimentação, hidratação, analgesia, mobilidade, higiene, sono, temperatura, ambiente e interação social fazem parte do tratamento.

Como avaliar qualidade de vida?
Não existe um exame de sangue capaz de responder se um animal ainda tem uma vida que lhe proporciona experiências positivas.
Precisamos observar.
Ele consegue descansar?
Respira confortavelmente?
Alimenta-se espontaneamente?
Ainda procura a família?
Demonstra interesse por alguma atividade?
Consegue se levantar?
Mantém higiene adequada?
A dor está controlada?
Ainda existem coisas que claramente lhe dão prazer?
Uma ferramenta extremamente simples pode ajudar: registrar os dias bons e ruins.
Quando convivemos diariamente com uma doença progressiva, pequenas deteriorações podem passar despercebidas. Registrar alimentação, mobilidade, interação, dor, sono e outros parâmetros ajuda a enxergar tendências.
O ambiente faz parte da terapêutica
No cuidado paliativo, pequenas adaptações podem proporcionar benefícios enormes.
Uma cama mais confortável, um piso antiderrapante, alimento e água mais próximos ou ajuda para se locomover podem preservar autonomia.
O objetivo deixa de ser fazer o paciente voltar a ser aquilo que era.
Passa a ser ajudá-lo a realizar, com conforto, aquilo que ainda consegue e deseja fazer.
Existe uma família junto daquele paciente
Cuidados paliativos também precisam considerar a capacidade real da família de executar o plano terapêutico.
Medicamentos, alimentação assistida, higiene, noites interrompidas, auxílio para locomoção e vigilância constante podem ser exaustivos.
Reconhecer a sobrecarga do cuidador não significa diminuir o amor pelo animal.
Um protocolo precisa ser cientificamente adequado, mas também precisa ser possível.
E existe outra dimensão: o medo.
Quando sabemos que o tempo pode estar diminuindo, cada alteração parece maior.
É nesse momento que pode surgir o chamado luto antecipatório.
A despedida ainda não aconteceu, mas emocionalmente a possibilidade da perda já está presente.

Quando a pergunta muda novamente
Os cuidados paliativos podem proporcionar semanas, meses e, dependendo da condição, períodos ainda maiores de boa qualidade de vida.
Mas doenças progressivas continuam progredindo.
Pode chegar um momento em que, apesar de todos os esforços, já não conseguimos controlar adequadamente o sofrimento.
E então surge provavelmente a pergunta mais difícil de toda essa jornada:
Até quando continuar?
Essa pergunta merece uma conversa própria.

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