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Desinformação digital chega aos consultórios veterinários e desafia a comunicação clínica

Responsáveis chegam às consultas com diagnósticos, exames e tratamentos encontrados nas redes sociais; para o médico-veterinário, comunicar evidências tornou-se parte essencial da atuação clínica

Desinformação digital chega aos consultórios veterinários e desafia a comunicação clínica
Por Stéfani Campos Chagas
23 de outubro de 2026

O avanço das redes sociais transformou a maneira como os responsáveis buscam informações sobre saúde animal.

Antes mesmo de chegar ao consultório, muitos pesquisam sinais clínicos, possíveis doenças, exames e tratamentos e apresentam ao médico-veterinário uma hipótese já formada sobre o que pode estar acontecendo com o animal.

Essa mudança cria novos desafios para a rotina clínica. Além do conhecimento técnico necessário para avaliar cada paciente, o profissional precisa lidar com informações incorretas, simplificadas ou descontextualizadas, muitas vezes sem comprometer a relação de confiança estabelecida durante a consulta.

Para Kaleizu Rosa, médico-veterinário, mestre em Fisiopatologia Experimental, doutor em Ciências, com área de concentração em Cardiologia, professor, consultor em Cardiologia de cães e gatos e diretor do Instituto Kaleizu, o problema não está no acesso à informação, mas na forma como ela é interpretada.

“O acesso à informação não é o problema. O problema começa quando informação é confundida com conhecimento”, pontua.

Segundo o profissional, o cenário exige dos veterinários competências que ultrapassam o domínio técnico. É necessário compreender a origem das crenças apresentadas pelos responsáveis, contextualizar o conteúdo encontrado e demonstrar por que determinada informação pode não ser aplicável àquele paciente.

Quando a internet interfere no raciocínio clínico

Entre os conteúdos que mais chegam aos consultórios estão relatos de experiências individuais, associações simplificadas entre sinais clínicos e doenças e recomendações apresentadas como soluções universais.

Um tratamento que funcionou para determinado animal, por exemplo, pode ser interpretado como uma conduta que deveria ser reproduzida em outros pacientes.

“‘Funcionou com o meu animal’ ganha força de regra, ou um vídeo faz o responsável associar diretamente um sinal a uma doença. Em situações clínicas complexas, isso pode levar a conclusões equivocadas e condutas fora de contexto”, explica Rosa.

A velocidade de disseminação desses conteúdos também é um ponto de atenção. O médico-veterinário cita um estudo publicado em 2026 na Veterinary Record, que analisou os 50 vídeos em inglês com maior engajamento no TikTok relacionados à hashtag #tickprevention, sobre métodos de prevenção de carrapatos em cães e gatos.

Entre os conteúdos avaliados, 92% foram produzidos por criadores não veterinários, enquanto métodos naturais ou holísticos estavam entre os temas mais frequentes. O levantamento evidencia como informações relacionadas à saúde animal podem alcançar grande repercussão mesmo sem a participação de profissionais tecnicamente preparados.

Para Kaleizu, a repetição de uma informação pode fazer com que ela adquira aparência de verdade, mesmo sem respaldo científico, influenciando decisões com consequências para a saúde dos animais.

O impacto da informação prévia também pode atingir o próprio processo de avaliação clínica. Quando o responsável chega muito convicto de determinada hipótese, o conteúdo apresentado pode funcionar como uma âncora e influenciar a interpretação do caso.

O médico-veterinário ressalta que os profissionais também estão sujeitos a vieses cognitivos. Por isso, manter uma avaliação estruturada é importante para evitar que uma hipótese previamente apresentada direcione excessivamente a atenção para determinados achados e reduza a consideração de outras possibilidades diagnósticas.

Nesse contexto, ouvir o responsável é fundamental, mas sem abrir mão da independência necessária para a tomada de decisão clínica.

comunicação clara
A comunicação clara no consultório auxilia o médico-veterinário a desmistificar informações incorretas encontradas nas redes sociais (Foto: Reprodução)

Comunicação também é ferramenta clínica

Corrigir uma informação equivocada exige mais do que apresentar uma resposta tecnicamente correta. Uma abordagem excessivamente confrontativa pode aumentar a resistência do responsável e dificultar a construção de uma decisão compartilhada.

“O desafio é não transformar correção em confronto. Dizer simplesmente ‘isso está errado’ pode fazer com que a pessoa passe a defender ainda mais aquela informação”, afirma Rosa.

Uma alternativa é investigar a origem do conteúdo, compreender por que determinada fonte pareceu confiável e, então, estabelecer uma comparação com o caso clínico que está diante do profissional. Dessa maneira, o veterinário consegue explicar não apenas qual conduta recomenda, mas por que ela é indicada para aquele paciente.

Essa capacidade de comunicação também se torna importante diante do aumento dos questionamentos. De acordo com o profissional, uma dúvida apresentada pelo responsável não precisa ser interpretada como contestação da autoridade veterinária. Ela pode representar uma oportunidade de educação e aproximação.

Os responsáveis também apresentam diferentes perfis de comunicação. Alguns preferem explicações detalhadas, enquanto outros valorizam objetividade ou querem compreender as possibilidades antes de tomar uma decisão. Adaptar a linguagem a essas características pode favorecer a compreensão e a adesão.

Metáforas e storytelling também podem ser utilizados para traduzir conceitos técnicos e facilitar a compreensão sem simplificar de maneira inadequada o conteúdo científico.

Essas habilidades devem ser desenvolvidas e treinadas, assim como outras competências profissionais.

Quando o responsável compreende a lógica por trás da decisão clínica, a orientação deixa de ser apenas uma recomendação recebida e passa a fazer parte de um processo de cuidado mais consciente.

Riscos vão além da informação incorreta

A influência de conteúdos encontrados na internet pode ter consequências práticas quando interfere em decisões relacionadas a medicamentos, tratamentos, alimentação ou prevenção sem avaliação veterinária.

Entre os principais riscos estão atraso no diagnóstico, uso inadequado de medicamentos, suspensão de tratamentos e adoção de condutas que não consideram as particularidades do paciente.

Alterar doses, iniciar medicamentos ou suplementos, modificar a alimentação ou abandonar medidas preventivas com base em recomendações genéricas pode mascarar sinais clínicos, atrasar a intervenção adequada ou agravar o quadro.

“Em saúde, poucas decisões são universais. Idade, espécie, doenças associadas, interações medicamentosas e estágio da doença podem mudar completamente uma conduta”, destaca o veterinário.

O alerta reforça a importância da avaliação individualizada. Uma recomendação que parece adequada em um conteúdo publicado nas redes sociais pode não considerar fatores como histórico clínico, doenças concomitantes, medicamentos utilizados ou estágio de determinada enfermidade.

Para Kaleizu, portanto, combater a desinformação não significa apenas desmentir conteúdos depois que eles chegam ao consultório. Também envolve fortalecer a capacidade dos responsáveis de avaliar criticamente aquilo que encontram no ambiente digital.

Entre as perguntas que podem ser ensinadas pelos profissionais estão: quem produziu o conteúdo? Qual é a formação dessa pessoa? De onde veio a informação? Existem evidências que sustentam a recomendação? E, principalmente, aquilo realmente se aplica ao animal em questão?

ambiente digital
Ocupar o ambiente digital com conteúdos baseados em evidências é estratégico para evitar que informações descontextualizadas afetem a saúde animal (Foto: Reprodução)

Veterinário também precisa ocupar as redes

Se as redes sociais fazem parte do ambiente em que os responsáveis formam opiniões e tomam decisões sobre os animais, a presença dos médicos-veterinários nesses espaços também ganha relevância.

Segundo Rosa, isso não significa que todos os profissionais precisem se tornar influenciadores ou produzir conteúdo diariamente. A questão é reconhecer o papel que o veterinário exerce também fora do consultório e ocupar os canais digitais com informação tecnicamente correta, ética e compreensível.

“Se profissionais tecnicamente preparados não ocuparem esse espaço, outras pessoas vão ocupar — e nem sempre com o mesmo compromisso com evidência, contexto e responsabilidade”, alerta.

A comunicação científica, entretanto, precisa considerar a capacidade de compreensão do público. Um conteúdo tecnicamente correto, mas apresentado de maneira excessivamente complexa, pode não alcançar o objetivo de orientar.

“Informação de qualidade que não consegue ser entendida também perde força”, ressalta.

A atuação nas redes, portanto, pode ser uma ferramenta complementar à comunicação clínica, contribuindo para ampliar o acesso a informações baseadas em evidências e reduzir o espaço ocupado por conteúdos sem respaldo científico.

O mesmo princípio vale para o consultório. Clareza, adaptação da linguagem e checagem da compreensão devem fazer parte da atuação profissional, especialmente diante de responsáveis expostos diariamente a um volume crescente de informações.

Conforme diz o médico-veterinário, essa mudança exige compreender a comunicação como uma competência profissional que pode ser desenvolvida. O conhecimento técnico permanece como base da Medicina Veterinária, mas precisa ser acompanhado pela capacidade de transmiti-lo de maneira clara e contextualizada.

“Diante de um responsável exposto diariamente a um enorme volume de informações, saber comunicar esse conhecimento deixou de ser apenas um diferencial. Tornou-se uma competência essencial”, conclui.