O Dia Internacional do Gato, celebrado hoje (8 de agosto), é uma das principais oportunidades é desmistificar crenças que ainda cercam o comportamento felino. Entre elas, a ideia de que esses animais são frios, distantes ou que se apegam mais à casa do que aos responsáveis.
Embora esses estereótipos ainda sejam comuns, estudos e a experiência clínica mostram que os felinos são plenamente capazes de construir laços afetivos profundos e apenas demonstram esse vínculo de uma forma diferente.
Segundo Danieli Zanoni Cypriano, médica-veterinária, zootecnista, mestranda em Ciência Animal, pós-graduanda em Gastroenterologia Veterinária e proprietária do Gatil Miadore, especializado na raça Norueguês da Floresta, comparar a forma como cães e gatos mostram afeto é um dos principais motivos para esses equívocos.
“Dizer que os gatos são frios ou incapazes de demonstrar amor é um estereótipo. Na verdade, eles apenas possuem uma forma diferente de expressar carinho e de se conectar com as pessoas”, afirma.
A profissional explica que os felinos podem expressar amor de diversas maneiras, como permanecendo próximos dos responsáveis, os acompanhando pela casa, dormindo ao lado, esfregando a cabeça ou o corpo, aproximando-se com a cauda erguida, ronronando ou até fazendo o famoso “amassar pãozinho” com as patas.
“Alguns gatos adoram colo e buscam contato de forma intensa. Outros preferem permanecer por perto ou somente manter algum contato físico. Isso não significa que o vínculo seja menor, apenas que cada animal tem sua própria forma de expressar afeto”, acrescenta.
Os gatos gostam mais da casa do que da família?
Outro mito bastante difundido é o de que os gatos criam vínculo apenas com o ambiente onde vivem. De acordo Danieli, essa percepção tem relação com a importância que o território exerce sobre a sensação de segurança dos felinos.
Eles constroem um verdadeiro “mapa” do ambiente, baseado em cheiros, locais de descanso, esconderijos, pontos de alimentação e caixas de areia. Quando esse cenário muda, é natural que o animal sinta insegurança.
“Isso não significa que ele goste mais da casa do que das pessoas. Da mesma forma, um gato pode permanecer na mesma residência e sofrer muito com a ausência de alguém com quem tinha forte vínculo”, explica.
A médica-veterinária destaca que fatores como genética, socialização, experiências anteriores, idade, saúde e a maneira como uma mudança é conduzida influenciam diretamente a adaptação.
Ela compartilha, inclusive, uma experiência pessoal. Durante duas mudanças de residência realizadas em um curto intervalo, organizou todo o processo para minimizar o estresse dos seus 14 gatos (dez deles idosos) levando previamente móveis, arranhadores e objetos familiares, além de utilizar feromônios sintéticos.
Apesar da boa adaptação do grupo, ela ressalta que cada gato reage de forma diferente e que mudanças de ambiente devem ser planejadas de forma gradual e respeitando as particularidades do animal.

Pequenos gestos que demonstram confiança
Muitas demonstrações de afeto passam despercebidas, justamente, porque são mais discretas do que aquelas observadas em cães.
Dormir próximo ao responsável, acompanhar sua rotina pela casa ou simplesmente escolher permanecer no mesmo ambiente são exemplos de comportamentos que revelam confiança.
Outro gesto bastante característico é esfregar a cabeça ou o corpo nas pernas das pessoas.
“Muitas vezes, isso é interpretado apenas como um pedido de comida, mas também pode ser uma demonstração de carinho e proximidade”, esclarece.
As chamadas piscadas lentas, conhecidas popularmente como “beijo de gato”, também fazem parte dessa linguagem.
“Quando o gato olha de forma relaxada e fecha os olhos lentamente, demonstra que se sente seguro e não percebe aquela pessoa como uma ameaça”, pontua.
Já mostrar a barriga nem sempre significa que o gato deseja receber carinho naquele local.
“Expor a barriga pode indicar que ele se sente seguro, mas isso não representa necessariamente um convite para tocar nessa região”, alerta.
Ela também lembra que o ronronar deve sempre ser interpretado dentro do contexto.
“Embora seja comum em momentos agradáveis, ele também pode ocorrer em situações de dor ou medo”, explica
A ciência confirma: gatos criam laços afetivos
Nos últimos anos, diversos estudos têm reforçado aquilo que muitos responsáveis já percebiam na prática: os gatos estabelecem, sim, vínculos emocionais com as pessoas.
Conforme Danieli, eles reconhecem a voz dos responsáveis, observam suas reações diante de situações desconhecidas e podem buscar proximidade, conforto e segurança na presença de quem convive diariamente.
“A compreensão começa quando deixamos de medir o amor do gato pela quantidade de colo ou de contato e aprendemos a valorizar os momentos em que ele nos procura, escolhe permanecer por perto e nos inclui em sua rotina. São gestos preciosos, que devemos reconhecer e acolher com muito carinho”, comenta.

Ambiente e rotina influenciam diretamente o relacionamento
A qualidade da relação entre gatos e responsáveis também depende das condições oferecidas no dia a dia.
Ambientes enriquecidos, com locais para descanso, arranhadores, brinquedos, água, alimentação adequada e oportunidades para explorar favorecem o bem-estar físico e emocional.
Além disso, a previsibilidade da rotina ajuda o animal a se sentir seguro. Mudanças bruscas, excesso de ruídos, conflitos com outros animais e interações forçadas podem provocar medo, isolamento ou comportamentos defensivos.
A alimentação também desempenha papel importante. Mais do que a qualidade nutricional, Danieli destaca que a forma como o alimento é oferecido pode estimular comportamentos naturais.
“O uso de comedouros interativos, por exemplo, enriquece a rotina, estimula o comportamento de caça e ainda ajuda a reduzir a velocidade da ingestão do alimento”, cita.
Para ela, o Dia Internacional do Gato também deve servir para incentivar uma convivência baseada no respeito às características da espécie.
“Aprenda a reconhecer a linguagem do seu gato, respeite seus limites e valorize as pequenas formas com que ele demonstra confiança, carinho e afeto. Quando aprendemos a enxergar o felino como ele realmente é, a convivência se torna mais leve, mais rica e profundamente transformadora para ambos”, finaliza.

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