No dia 26 de agosto, é celebrado o Dia Mundial do Cão, uma data que convida a reconhecer a importância dos cães na vida das pessoas e também a refletir sobre a relação construída entre as duas espécies ao longo de milhares de anos.
A comemoração tem origem no National Dog Day, criado em 2004 pela norte-americana Colleen Paige. A escolha do dia 26 de agosto faz referência à data em que a família de Paige adotou seu primeiro cão, quando ela tinha 10 anos.
Muito antes de os cães ocuparem sofás, camas e diferentes espaços dentro das famílias, porém, a história dessa relação começou de outra maneira. O processo de domesticação dos cães transformou gradualmente a convivência entre humanos e animais e deu origem a uma das relações mais próximas entre espécies.
Para entender como essa parceria se desenvolveu e quais marcas desse processo ainda podem ser percebidas no comportamento dos cães, o portal Cães&Gatos conversou com Célio Ribeiro, terapeuta canino, conhecido como Dr. dos Cães e criador do Método CoNat.
Como começou a domesticação dos cães?
A origem da domesticação canina ainda é tema de pesquisas e diferentes estudos apresentam estimativas distintas. Evidências arqueológicas e genéticas indicam que a relação entre os ancestrais dos cães e os seres humanos começou há muitos milhares de anos, ainda no período Paleolítico.
Algumas pesquisas situam o processo em uma janela de aproximadamente 15 mil a 30 mil anos, enquanto trabalhos mais recentes continuam refinando quando e onde essa transformação ocorreu.
Segundo Célio Ribeiro, a domesticação representou o início de uma relação de cooperação que se desenvolveu geração após geração.
“A domesticação foi o ponto de partida para uma das relações mais bem-sucedidas da história entre espécies diferentes”, explica.
Uma das hipóteses é que alguns lobos tenham começado a se aproximar de grupos humanos em busca de restos de alimentos. Com o passar das gerações, indivíduos mais tolerantes à presença humana teriam tido vantagens para permanecer próximos desses grupos, contribuindo para as mudanças comportamentais que acompanharam o processo de domesticação.
Para Ribeiro, essa convivência trouxe benefícios para os dois lados.
“Os cães ajudavam na proteção, na caça e, mais tarde, no pastoreio. Em troca, recebiam alimento, abrigo e segurança. Foi uma relação de cooperação que evoluiu geração após geração, criando uma capacidade única de convivência entre cães e humanos”, afirma.
O terapeuta destaca ainda que a construção dessa parceria não pode ser entendida apenas pelas mudanças físicas ou pela proximidade entre as espécies. A comunicação teve papel fundamental.
“No Método CoNat, entendemos que essa parceria não foi construída apenas pela domesticação física, mas principalmente pela comunicação. O sucesso dessa relação sempre dependeu da capacidade de humanos e cães compreenderem os sinais um do outro”, esclarece.

Como a domesticação mudou o comportamento dos cães?
A domesticação modificou profundamente o comportamento dos cães. Ao longo desse processo, eles desenvolveram maior tolerância à presença humana, capacidade de formar vínculos afetivos e uma habilidade significativa para interpretar sinais das pessoas.
De acordo com Célio Ribeiro, os cães conseguem perceber diferentes formas de comunicação humana.
“Eles conseguem seguir o apontar de um dedo, interpretar mudanças no tom de voz, perceber expressões faciais e identificar alterações emocionais das pessoas”, destaca.
Essa capacidade de compreender os humanos, porém, não significa que a comunicação aconteça em apenas uma direção. Para o terapeuta canino, os responsáveis também precisam aprender a interpretar a linguagem dos animais.
“Assim como os cães aprenderam a compreender muitos sinais humanos, nós também precisamos aprender a interpretar corretamente a linguagem corporal, a postura, o espaço, o toque e os sinais emocionais dos cães”, sustenta.
Essa compreensão pode ser importante para evitar interpretações equivocadas sobre determinados comportamentos. Mesmo domesticados, os cães continuam apresentando necessidades relacionadas à exploração do ambiente, ao movimento, à interação social e à comunicação corporal.
“Embora domesticados, os cães ainda preservam muitos comportamentos herdados de seus ancestrais”, expõe Ribeiro.
Entre eles estão marcar território, farejar intensamente, cavar, perseguir objetos em movimento, proteger recursos importantes e utilizar a linguagem corporal para estabelecer relações sociais e evitar conflitos.
Também é natural que alguns cães demonstrem medo, insegurança ou comportamentos defensivos diante de situações percebidas como ameaçadoras.
“Esses comportamentos não representam desobediência. São respostas naturais que precisam ser compreendidas dentro do contexto em que acontecem”, ressalta.
De animais de trabalho a membros das famílias
A relação entre cães e humanos continuou mudando ao longo da história. Se em diferentes períodos os animais foram selecionados e utilizados principalmente para atividades como caça, proteção e pastoreio, atualmente muitos cães ocupam um lugar predominantemente afetivo dentro das famílias.
“Os cães deixaram de desempenhar apenas funções de trabalho e passaram a ocupar um lugar afetivo dentro das famílias. Hoje são considerados membros da casa e participam da rotina diária das pessoas”, diz Ribeiro.
Essa proximidade pode trazer benefícios para os seres humanos. Estudos sobre a interação entre pessoas e cães apontam associações com aspectos como atividade física, interação social, redução da solidão e bem-estar emocional.
Por outro lado, a convivência próxima também exige responsabilidade. Para Célio, oferecer carinho não é suficiente para garantir uma boa relação.
“Amor, sozinho, não é suficiente. Os cães precisam de comunicação adequada, limites claros, estímulos físicos e mentais e respeito às suas necessidades naturais”, pontua.
Quando esses elementos são considerados, a relação tende a se tornar mais equilibrada para os dois lados.
“Quando existe equilíbrio entre afeto e compreensão do comportamento canino, toda a família se beneficia”, acrescenta.
Por que compreender o comportamento canino é importante?
A proximidade entre cães e humanos também pode fazer com que determinados comportamentos sejam interpretados a partir de características exclusivamente humanas.
Na avaliação de Ribeiro, esse é um dos principais equívocos cometidos na convivência com os animais.
“Muitas pessoas acreditam que o cão faz algo por vingança, culpa, teimosia ou para desafiar o responsável. Na realidade, os cães respondem principalmente ao ambiente, às emoções, ao aprendizado e à forma como se comunicam”, assegura.
Latidos excessivos, destruição de objetos, medo e até comportamentos agressivos podem ter diferentes causas. Por isso, conforme o terapeuta, é importante compreender o que está por trás da manifestação antes de tentar simplesmente eliminá-la.
“Quando um cão late excessivamente, destrói objetos, apresenta medo ou até demonstra agressividade, normalmente existe uma causa emocional ou comportamental por trás daquele comportamento”, fundamenta.
Na abordagem desenvolvida por Ribeiro, a proposta é buscar a origem do comportamento antes de tentar modificá-lo.
“Tratar apenas o sintoma pode gerar resultados temporários. Compreender a causa permite promover mudanças mais consistentes e duradouras”, garante.

O que o Dia Mundial do Cão pode ensinar?
Mais do que uma oportunidade para compartilhar fotos e homenagens aos cães, o Dia Mundial do Cão, celebrado em 26 de agosto, pode servir como um momento para repensar a maneira como esses animais são compreendidos dentro de casa.
A história da domesticação mostra que cães e humanos desenvolveram uma relação baseada em proximidade, cooperação e comunicação. Hoje, conhecer melhor o comportamento canino é uma das formas de respeitar essa história e atender às necessidades dos animais.
Para Célio Ribeiro, a principal mensagem é justamente a importância da compreensão.
“O maior presente que podemos oferecer aos nossos cães não é apenas carinho, brinquedos ou conforto. É compreensão”, declara.
Segundo ele, os cães estão constantemente tentando se comunicar com as pessoas, e aprender a reconhecer esses sinais pode fortalecer o vínculo.
“Os cães passam a vida tentando se comunicar conosco. Quando aprendemos a entender sua linguagem, respeitamos suas necessidades e oferecemos orientação de forma clara e equilibrada, construímos uma relação baseada na confiança”, completa.
Assim, ao se aproximar do Dia Mundial do Cão, a data também pode ser uma oportunidade para olhar para esses animais além da condição de companhia e reconhecer que, por trás de cada comportamento, existe uma forma própria de comunicação.
“Quanto mais entendemos os cães como eles realmente são e não como imaginamos que sejam, mais felizes, seguros e equilibrados eles se tornam. E essa transformação melhora não apenas a vida dos cães, mas também a das famílias que convivem com eles”, conclui.

Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a comentar.