Durante muito tempo, as mudanças na relação entre humanos e animais foram percebidas principalmente no campo do afeto. Os animais entraram nas casas, passaram a participar das rotinas, das viagens, das decisões financeiras e, cada vez mais, a ocupar um lugar reconhecido dentro das famílias.
Mas o que acontece quando essa transformação ultrapassa a vida privada e começa a modificar a Medicina Veterinária, o mercado, a tecnologia, as cidades, as empresas e até o Direito?
É essa discussão que está no centro do Futuro Multiespécie: animais, tecnologia e a reorganização da sociedade, estudo conduzido pelo Atelier do Futuro que busca mapear tendências e construir cenários sobre o futuro das relações entre humanos e outras espécies no Brasil.
A pesquisa parte de uma transformação que já apresenta sinais no presente: os animais deixam de ocupar exclusivamente o lugar de propriedade, recurso ou mercadoria e passam a adquirir maior reconhecimento moral, social, jurídico e político.
Segundo Mariana Nobre, fundadora do Atelier do Futuro, a iniciativa surgiu da percepção de que a transição para um paradigma biocêntrico já era discutida no meio acadêmico, mas permanecia pouco estruturada no mercado corporativo e nas políticas públicas.
Para ela, o momento atual reúne condições que tornam essa discussão particularmente urgente: o avanço da inteligência artificial aplicada à bioacústica e à compreensão da senciência animal, as crises climáticas e a consolidação das famílias multiespécies.
“Deixou de ser um tema meramente afetivo para se tornar uma pauta de sustentabilidade, economia, tecnologia e direitos”, afirma Mariana.
O que essa transformação pode significar para o mercado PetVet?
Um dos sinais mais relevantes identificados pelo estudo é justamente o questionamento da ideia do animal como objeto de posse e seu crescente reconhecimento como integrante do núcleo familiar.
Essa mudança produz novas expectativas sobre produtos, serviços e formas de cuidado.
Entre as tendências mapeadas estão o avanço da medicina preventiva personalizada, da alimentação natural, das terapias integrativas e dos diagnósticos apoiados por inteligência artificial. Também aparecem a maior atenção ao comportamento e à saúde mental animal, a telemedicina veterinária e a demanda por infraestruturas capazes de considerar o bem-estar físico e emocional dos animais ao longo de todo o ciclo de vida.
Para Mariana, essa transformação também deverá ampliar as exigências relacionadas à bioética, à transparência em exames e procedimentos, aos termos de consentimento e aos padrões de bem-estar animal.
Se o lugar social do animal muda, muda também aquilo que as pessoas esperam das empresas e dos profissionais aos quais confiam seus animais.
Uma Medicina Veterinária que também acompanha famílias
Essa transformação talvez apareça de maneira ainda mais evidente dentro da Medicina Veterinária.
Mariana define esse movimento como uma Medicina Veterinária que se torna cada vez mais uma “medicina da família estendida”.
O médico-veterinário não recebe apenas um paciente. Recebe também pessoas profundamente vinculadas àquele animal, com expectativas, medos, dúvidas e diferentes formas de compreender saúde, adoecimento e cuidado.
Nesse contexto, competências como comunicação e escuta ganham importância ao lado da precisão clínica.
A própria assistência ao animal também se transforma. Protocolos de baixo estresse, cuidados paliativos, gerontologia veterinária e novas tecnologias para interpretação de sinais de dor, vocalizações e biomarcadores estão entre os caminhos apontados pela pesquisa.
A inteligência artificial poderá ampliar nossa capacidade de interpretar sinais emitidos por outras espécies e tornar a Medicina Veterinária cada vez mais preditiva e personalizada.
Mas esse avanço traz uma questão interessante: quanto mais capazes formos de compreender os animais, maior será também nossa responsabilidade diante deles?

Quem está na ponta também pode ajudar a desenhar esse futuro
O Futuro Multiespécie está em fase de escuta ampliada e quer ouvir justamente quem já vivencia essas transformações no cotidiano.
Médicos-veterinários, enfermeiros veterinários, equipes de clínicas e serviços de emergência, profissionais de banho e tosa, lojistas, criadores, cuidadores, gestores de negócios pet, profissionais de comunicação e responsáveis por animais de diferentes espécies estão entre os públicos convidados a participar.
Para Mariana, ouvir esses profissionais é fundamental porque quem está na linha de frente muitas vezes identifica primeiro mudanças que só posteriormente se tornam visíveis para o restante da sociedade.
“A participação desses especialistas é fundamental para que as nossas projeções de futuro estejam ancoradas na realidade prática da rotina médica, do manejo animal e do dilema ético da profissão.”
As contribuições serão incorporadas como dados qualitativos à metodologia de foresight e cruzadas com outras fontes para a construção de cenários, riscos e oportunidades estratégicas para o ecossistema nos próximos dez anos.
Se você trabalha no setor PetVet ou convive com animais, sua experiência também pode contribuir para essa construção.
Participe da pesquisa Futuro Multiespécie.
E quando o animal passa a ser família?
É justamente nesse ponto que, para mim, pensar o futuro deixa de ser apenas um exercício de antecipação de tendências.
Se estamos caminhando para uma sociedade que reconhece cada vez mais os animais como integrantes da família, não basta discutir como serão as clínicas, os produtos, os planos de saúde, as tecnologias ou as leis.
Precisaremos compreender também o que significa viver em uma família multiespécie.
Pertencer a uma família não significa apenas receber mais afeto. Significa participar de uma rede de relações, responsabilidades, escolhas e cuidado.
Quando muda o lugar ocupado pelo animal, mudam também as decisões construídas ao redor desse vínculo: quanto investir em tratamentos, como organizar a rotina familiar diante de uma doença, quem participa das decisões, como conduzir o envelhecimento, quais limites estabelecer diante do sofrimento e como viver uma despedida.
Isso também modifica o lugar dos profissionais que acompanham essas famílias. Quanto maior a importância atribuída ao vínculo, maiores podem ser as expectativas depositadas sobre quem cuida daquele animal.
Por isso, talvez o futuro das relações multiespécies não dependa apenas de reconhecermos que animais fazem parte das famílias. Esse movimento, em grande medida, já está acontecendo.
O desafio das próximas décadas será compreender o que esse reconhecimento passa a exigir de nós.
Das famílias, dos profissionais, das empresas, das instituições e da própria sociedade.
Pensar o futuro multiespécie, portanto, não é apenas perguntar qual será o lugar dos animais em nossas vidas.
É perguntar que tipo de relação estaremos preparados para construir com eles.

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