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Incontinência urinária e seus determinantes multifatoriais

Distúrbio envolve falhas na coordenação entre bexiga, uretra e sistema nervoso e é mais comum em cães, especialmente fêmeas castradas

Incontinência urinária e seus determinantes multifatoriais
Por Danielle Assis
24 de abril de 2026

A eliminação involuntária de urina, conhecida também como incontinência urinária, representa um desafio para os clínicos, visto que chegar a uma conclusão quanto às suas causas não é simples. 

De acordo com Sérgio Bicalho, médico-veterinário pós-graduado em Nefrologia e Urologia de Pequenos Animais e diretor clínico da Nefropet Itu, esse distúrbio está associado a falhas no sistema responsável pelo armazenamento e esvaziamento da urina, que envolve bexiga (músculo detrusor), uretra (esfíncter uretral) e componentes do sistema nervoso central e periférico.

“Durante a fase de enchimento da bexiga, os nervos hipogástrico (L1–L4), pudendo e pélvico (S1–S3) atuam de forma coordenada. O nervo hipogástrico, pertencente ao sistema nervoso simpático, mantém o músculo detrusor relaxado por meio da ativação dos receptores β3-adrenérgicos, ao mesmo tempo em que promove a contração do esfíncter uretral interno via receptores α1-adrenérgicos. Já o nervo pudendo, originado do sistema somático, contribui para o controle voluntário, mantendo o esfíncter uretral externo contraído, o que evita perdas urinárias”, explica.

Quando a vesícula urinária atinge um volume crítico de preenchimento, o reflexo da micção é ativado. Nesse momento, receptores sensoriais localizados na parede da bexiga detectam o estiramento e enviam sinais ao sistema nervoso central através do nervo pélvico, que pertence ao sistema parassimpático. 

Em seguida, esses sinais chegam ao tronco encefálico, onde são processados. Se as condições ambientais forem adequadas, o cérebro autoriza conscientemente a micção, fazendo com que o músculo detrusor se contraia e os esfíncteres uretrais relaxem, o que permite a saída da urina.

Todo esse processo é regulado por vias neurais da medula espinhal – tanto autônomas quanto somáticas – e por estruturas superiores, como o tronco encefálico, o cerebelo e o córtex cerebral.

“Resumindo, o sistema nervoso simpático e o somático são os principais responsáveis pela fase de armazenamento da urina, enquanto o sistema parassimpático atua predominantemente na fase de micção. O funcionamento normal deste mecanismo depende da integração e coordenação eficiente entre esses três sistemas”, comenta Bicalho.

Cães são os mais acometidos 

O médico-veterinário explica que a incontinência urinária é mais comum em cães do que em gatos, existindo algumas raças mais predispostas. Dentre elas, Pastor Alemão, Doberman, Boxer, Weimaraner, Labrador Retriever, Golden Retriever, Poodle e Bulldog Francês

Já em gatos, não há uma predisposição racial claramente definida.

“A condição também é mais comum em fêmeas, principalmente nas que foram castradas. A castração precoce é um fator de risco importante, pois pode causar incompetência do esfíncter uretral”, diz. 

 Causas associadas 

A complexidade do diagnóstico da incontinência urinária em pequenos animais está relacionada ao fato de que a condição pode ter causa única ou ser resultado de múltiplos fatores. 

Dessa forma, existe a incontinência congênita, presente desde o nascimento do cão ou gato, e a adquirida, que é desenvolvida ao longo da vida. 

Com relação a fase afetada, Sergio esclarece que pode ocorrer durante falhas no armazenamento da urina ou da micção. Além disso, é possível que a doença tenha origem neurogênica, estando relacionada a alterações no sistema nervoso, e não neurogênica, quando é decorrente de alterações anatômicas, hormonais e infecciosas, por exemplo. 

“Essas classificações ajudam a entender o mecanismo envolvido na disfunção e orientar o diagnóstico e tratamento”, pontua o médico-veterinário. 

Box – Exemplificando:  

Distúrbios na fase de armazenamento

  • Neurogênicos:
    • Hérnia de disco intervertebral;
    • Neoplasias da medula espinhal;
    • Traumas na coluna vertebral;
    • Síndrome da cauda equina.
  • Não neurogênicos:
    • Ureter ectópico;
    • Incompetência do esfíncter uretral;
    • Infecções urinárias;
    • Divertículos vesicouretrais.

Distúrbios na fase de micção

  • Neurogênicos:
    • Mielopatias degenerativas;
    • Hérnias discais;
    • Mielites;
    • Neoplasias;
    • Estenoses lombossacrais;
    • Traumas.
  • Não neurogênicos:
    • Funcionais:
      • Atonia vesical;
      • Fibrose da parede da bexiga;
  • Mecânicos:
    • Urólitos;
    • Divertículos vesicouretrais;
    • Estenose uretral;
    • Hérnia perineal;
    • Afecções prostáticas;
    • Neoplasias (bexiga, uretra, próstata);
    • Traumatismos. 

Outras causas possíveis:

  • Malformações congênitas (ex: ureter ectópico);
  • Traumas lombossacrais;
  • Cistites bacterianas ou inflamatórias – especialmente em gatos;
  • Distúrbios hormonais ou endócrinos.

Apresentação clínica é variável 

A manifestação da incontinência urinária varia de acordo com a causa de base, podendo ser contínua, como nos casos de malformações congênitas, ou intermitente, ocorrendo apenas em momentos específicos. 

O profissional relata que o principal sinal clínico da doença é a eliminação involuntária de urina, mas outros sintomas também podem ser vistos. Irritação ou dermatite na região perineal, lambedura frequente da área genital, pelos constantemente úmidos em região perineal e odor forte de urina são os mais comuns. 

Com base em tudo isso, o diagnóstico depende de uma avaliação completa do animal, que envolve anamnese minuciosa associada a exames de imagem e laboratoriais.

“Para o diagnóstico analisamos o histórico clínico detalhado do animal e realizamos exame físico. Também devem ser solicitados exames laboratoriais, como os sanguíneos e de urina, e podem ser executados exames de imagem, como radiografia, ultrassom, uretrocistografia, tomografia e avaliação neurológica, quando necessário”, cita Sérgio. 

Tratamento clínico ou cirúrgico 

O tratamento da incontinência urinária varia de acordo com a causa de base. Existe a possibilidade do manejo clínico ou cirúrgico.

O médico-veterinário especializado em Urologia e Nefrologia comenta que em casos de infecções urinárias pode ser feito o uso de antibióticos, nas deficiências hormonais e nas incompetências do esfíncter uretral a reposição hormonal é indicada e para os distúrbios endócrinos existe tratamento clínico específico. 

Já se houverem alterações estruturais, como presença de urólitos, neoplasias, hérnias e ureteres ectópicos, a cirurgia costuma ser o procedimento de escolha. O mesmo vale para as causas neurológicas, que também podem ser tratadas de forma clínica e com fisioterapia. 

“Em muitos casos é possível curar a incontinência urinária, especialmente quando a causa é identificada precocemente e tratada de forma adequada, seja clínica ou cirurgicamente. Se não atingirmos a cura, consegue-se fazer o controle eficaz dos sintomas”, afirma Bicalho. 

O profissional ainda complementa que, na maioria dos quadros, não é possível prevenção da incontinência urinária devido às suas variadas causas. Porém, deve-se evitar realizar a castração precoce das fêmeas para minimizar os riscos de incontinência associada à incompetência do esfíncter uretral.

Confira o artigo completo “Incontinência urinária e seus determinantes multifatoriais”, na íntegra e sem custo, acessando a página 36 da edição de abril (nº 320) da Revista Cães e Gatos.