“Se a genética é o texto de um livro, a epigenética é o conjunto de marcações que determina quais capítulos serão lidos e quais permanecerão fechados”.
A comparação feita pelo médico-veterinário Marcelo Müller, especializado em Clínica Médica e Cirúrgica de Pequenos Animais, mestre em Pesquisa Clínica pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e pesquisador na área de saúde animal, ajuda a explicar um dos temas que mais vêm ganhando espaço na Medicina Veterinária.
Embora o DNA permaneça praticamente inalterado durante toda a vida, fatores como alimentação, ambiente, estresse e bem-estar podem influenciar quais genes serão ativados ou silenciados, refletindo diretamente na saúde e na longevidade dos animais.
Nos últimos anos, estudos vêm demonstrando que a epigenética pode ajudar a explicar por que cães e gatos com predisposição genética semelhante apresentam comportamentos, envelhecimento e desenvolvimento de doenças bastante diferentes.
Além de ampliar o conhecimento sobre a biologia dos animais, essa área desponta como uma importante aliada da Medicina Veterinária preventiva e da Medicina de precisão.
Muito além do DNA
Segundo Müller, a genética representa o conjunto de informações herdadas pelos animais, enquanto a epigenética funciona como um sistema capaz de regular a utilização dessas informações.
Esse controle acontece por meio de mecanismos moleculares que ativam ou silenciam genes sem modificar a sequência do DNA. Diversos fatores influenciam esse processo, entre eles alimentação, ambiente, manejo, estresse e bem-estar.
Um dos exemplos mais conhecidos veio de estudos com camundongos portadores do chamado gene agouti. Embora geneticamente idênticos, os filhotes apresentaram características completamente diferentes conforme a alimentação recebida pela mãe durante a gestação, evidenciando que o ambiente também pode interferir na expressão dos genes.

O histórico de vida também deixa marcas
Pesquisas já demonstram que esse fenômeno também ocorre em cães. Estudos identificaram alterações na metilação de genes relacionados ao estresse e ao vínculo social em animais resgatados de situações de abuso ou negligência, indicando que as experiências vividas podem deixar marcas moleculares duradouras.
“A forma como cuidamos de uma ninhada, de um filhote recém-adotado ou de uma gata prenha não é apenas uma boa prática de manejo: é literalmente parte da construção biológica daquele animal, com consequências que podem se estender por toda a vida”, explica Müller.
Segundo o médico-veterinário, até mesmo o excesso de peso pode deixar registros moleculares associados ao metabolismo, mostrando que o organismo responde continuamente ao histórico de vida do animal, e não apenas ao seu estado de saúde durante a consulta.
Novas ferramentas para prevenção e diagnóstico
Embora muitas aplicações ainda estejam concentradas em centros de pesquisa, a epigenética já apresenta resultados promissores para a Medicina Veterinária.
Entre eles estão os chamados relógios epigenéticos, capazes de estimar a idade biológica de cães e gatos por meio da análise de padrões de metilação do DNA. No futuro, a tecnologia poderá auxiliar na identificação precoce de animais que estejam envelhecendo mais rapidamente do que o esperado.
A área também desperta grande interesse na Oncologia Veterinária. Estudos vêm relacionando alterações epigenéticas ao desenvolvimento e à agressividade de doenças como linfomas, mastocitomas e tumores mamários, além de abrir caminho para novas estratégias diagnósticas e terapêuticas.
“A epigenética ajuda a responder perguntas que a genética sozinha não consegue explicar, como por que animais com genes semelhantes apresentam trajetórias de saúde tão diferentes”, destaca Müller.

Cuidar também é influenciar os genes
Apesar dos avanços, o uso da epigenética na rotina clínica ainda enfrenta desafios, como o alto custo das análises, a necessidade de padronização dos testes e a ampliação das pesquisas em diferentes espécies.
Ainda assim, a expectativa é que biomarcadores de bem-estar, testes para avaliação do envelhecimento biológico e futuras terapias epigenéticas passem a integrar, gradativamente, a prática clínica veterinária.
Para Müller, a principal mensagem é que os cuidados oferecidos diariamente fazem diferença muito antes do surgimento de qualquer doença.
“A epigenética devolve à Medicina Veterinária algo que a genética isolada nunca poderia oferecer: a prova molecular de que cuidado não é sentimentalismo, é biologia em ação. Cada refeição adequada, cada ambiente calmo e cada gestação bem acompanhada representam instruções químicas capazes de influenciar a forma como os genes serão expressos ao longo da vida do animal”, conclui.
