O celular faz parte da rotina da maioria das pessoas, seja para trabalhar, estudar ou se distrair. Mas, quando o tempo diante das telas reduz os momentos de interação com os animais de estimação, o impacto pode ir além do relacionamento entre responsáveis e pets.
A diminuição da atenção e dos estímulos pode favorecer alterações comportamentais e comprometer o bem-estar dos animais.
Segundo a médica-veterinária, zootecnista e pós-graduada em Comportamento e Bem-estar Animal, Dra. Letícia Tchmola, o problema está relacionado principalmente à redução da convivência de qualidade.
“Muitos animais já passam boa parte do dia sozinhos devido à rotina dos responsáveis e, quando estes finalmente têm tempo para interagir, muitas vezes, continuam concentrados nas telas. Essa redução na interação pode favorecer o surgimento de problemas comportamentais, como destruição de objetos, latidos excessivos para chamar atenção e até comportamentos compulsivos”, afirma.
Pets percebem a falta de atenção
Embora cães e gatos não entendam exatamente o que é um celular ou outro dispositivo eletrônico, eles percebem quando algo passa a disputar a atenção dos responsáveis.
“Eles não compreendem que se trata de um dispositivo eletrônico, mas percebem que é algo que prende a atenção dos seus responsáveis”, explica a profissional.
Com isso, alguns animais passam a associar o celular, o computador ou a televisão à perda da interação e tentam recuperar essa atenção por meio de latidos, miados, patadas, mordiscadas e outras tentativas de interromper o uso dos aparelhos.
Menos interação afeta o bem-estar
A redução da convivência diária pode trazer consequências importantes para a saúde física e emocional dos pets.
“Cães e gatos são seres sociais e precisam de interações de qualidade para manter a saúde física e emocional. A falta de atenção, de estímulos e de gasto de energia pode contribuir para quadros de ansiedade, estresse e até depressão”, destaca a Dra. Letícia.
Ela acrescenta que o estresse crônico também pode favorecer o desenvolvimento de doenças físicas, comprometendo a qualidade de vida dos animais.

Cães e gatos reagem de formas diferentes
Embora ambas as espécies possam sofrer com a falta de atenção, elas costumam demonstrar esse desconforto de maneiras distintas.
Nos cães, os sinais geralmente são mais evidentes, incluindo vocalizações excessivas, destruição de objetos, patadas, mordiscadas e eliminação de urina ou fezes em locais inadequados.
Já os gatos costumam apresentar manifestações mais discretas. De acordo com a médica-veterinária, eles podem desenvolver alterações físicas relacionadas ao estresse, como cistite, presença de sangue na urina, lambedura excessiva e falhas na pelagem.
Rotina equilibrada ajuda a prevenir problemas
Outro ponto destacado pela Dra. Letícia é que alguns comportamentos podem acabar sendo reforçados sem que os responsáveis percebam.
“Muitas vezes, o pet aprende que latir, destruir objetos ou vocalizar é uma forma de conseguir a atenção do responsável, mesmo que essa atenção aconteça apenas para repreendê-lo”, explica.
Por isso, quando a rotina oferece pouca interação positiva, alguns animais passam a utilizar esses comportamentos como estratégia para chamar a atenção.
A veterinária ressalta que não existe um tempo mínimo de interação que seja adequado para todos os cães e gatos. Essa necessidade varia conforme a espécie, idade, personalidade e características individuais.
“Mais importante do que estabelecer um número de horas é oferecer uma rotina equilibrada, com passeios, brincadeiras, treinos, enriquecimento ambiental e brinquedos interativos que permitam ao pet se entreter sozinho em determinados momentos do dia”, orienta.
Um animal físico e mentalmente saudável, vivendo em um ambiente enriquecido, consegue permanecer algumas horas sem interação direta com o responsável, desde que suas necessidades sejam atendidas.

Como equilibrar o uso das telas
Para reduzir os impactos do uso excessivo de celulares e outros dispositivos, a médica-veterinária recomenda organizar a rotina para que os momentos de passeio e interação aconteçam antes dos períodos em que o responsável costuma permanecer diante das telas.
Outra estratégia é disponibilizar brinquedos recheáveis ou próprios para roer somente nesses momentos, criando uma associação positiva para o animal.
“Ter um pet é uma grande responsabilidade. Eles precisam de atenção, estímulos e qualidade de vida para viverem de forma saudável e equilibrada”, conclui.

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