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Dia Internacional da Mulher: a expressividade da mulher médica-veterinária

60% dos médicos-veterinários registrados no Brasil são mulheres e o mês de março vem para relembrar a força, eficiência e profissionalismo do sexo feminino na profissão

Dia Internacional da Mulher: a expressividade da mulher médica-veterinária
Por Danielle Assis
8 de março de 2026

A história da Medicina Veterinária brasileira teve início no século XX, quando foram fundadas as duas primeiras instituições focadas no ensino dessa profissão no Brasil: a Escola de Veterinária do Exército e a Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária. 

Foi em 1929, na Escola Superior de Agricultura e Medicina Veterinária, atual Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, que se formou a primeira mulher brasileira médica-veterinária, chamada Nair Eugenia Lobo. 

Alguns anos depois, em 1935, foi a vez de São Paulo formar a sua primeira médica-veterinária. Virginie Buff D’Ápice não somente conquistou esse marco, como também elaborou o primeiro projeto do Código de Deontologia e Ética Profissional. Tamanha foi a sua relevância que, atualmente, a biblioteca da FMVZ-USP leva seu nome. 

Mesmo em meio a preconceito e desvalorização profissional, pouco a pouco o sexo feminino foi conquistando seu espaço na profissão. A presença das mulheres na Medicina Veterinária é tão expressiva, que chega a 60% – equivalente a 132,4 mil – dos registros nos órgãos de classe do Brasil. 

Dentro e fora dos consultórios, laboratórios e centros cirúrgicos as mulheres fazem a diferença e Daniela Pontes Chiebao é um exemplo. 

Graduada em Medicina Veterinária pela Universidade de São Paulo, a profissional possui aprimoramento em Medicina Veterinária Preventiva pelo VPS-FMVZ-USP, e mestrado, doutorado e pós-doutorado em Epidemiologia Experimental Aplicada às Zoonoses pela Universidade de São Paulo. 

Também é pesquisadora científica nível VI do Instituto Biológico de São Paulo, professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Sanidade, Segurança Alimentar e Ambiental no Agronegócio do Instituto Biológico e atual presidente do Conselho Regional de Medicina Veterinária do estado de São Paulo (CRMV-SP). 

Em entrevista exclusiva à Cães&Gatos, Daniela contou um pouco da sua história profissional e falou sobre o papel e os desafios das mulheres na Medicina Veterinária. 

Dia Internacional da Mulher: a expressividade da mulher médica-veterinária
Daniela Pontes Chiebao, presidente do CRMV-SP (Foto: Divulgação)

Cães&Gatos – Qual foi a sua principal área de interesse na Medicina Veterinária? 

Daniela Pontes Chiebao – A área científica sempre foi meu objetivo. Por isso, minha atuação e projetos envolvem o segmento laboratorial e o diagnóstico de enfermidades, aliando o aspecto acadêmico, de estudo, publicações e ensino com a parte prática de atendimento das demandas do agronegócio e ensaios experimentais. 

Como foi a sua trajetória na Medicina Veterinária?

Quando fui aprovada no concurso para pesquisadora, em 2005, tive a oportunidade de direcionar toda minha formação complementar para contribuir com a solidificação multidisciplinar necessária para um bom cientista. Hoje, através do meu perfil de epidemiologista, realizo projetos envolvidos em programas de controle e erradicação de doenças estaduais e federais, como o Plano Nacional de Sanidade Suídea. Também colaboro com o desenvolvimento de estudos moleculares, que auxiliam na elucidação do perfil genético de patógenos. Mesmo não atuando rotineiramente na maneira clássica da profissão, meu trabalho implica na orientação de produtores, responsáveis por animais de produção e colegas médicos-veterinários sobre medidas de prevenção e diagnóstico diferencial de enfermidades.

Você já sofreu algum tipo de preconceito ou assédio durante a sua carreira?

Como a maioria das mulheres, já enfrentei episódios de falta de reconhecimento e viés de gênero, normalmente, sendo subestimada ou preterida em projetos. Também já recebi convites inapropriados de homens em cargos superiores ao meu. Percebo que essas situações ocorreram no início de minha carreira, em uma época no qual mal se discutiam essas questões e, mesmo quando identificadas, não haviam muitas ferramentas para denúncia e proteção das mulheres. Hoje, temos um caminho menos obscuro para estabelecermos nossos critérios de respeito e criar uma cultura de consciência feminina para não nos calarmos em casos de abuso. 

Hoje, as mulheres são maioria na Medicina Veterinária, como você enxerga esse panorama? 

Na verdade, esse cenário ocorre há décadas e mostra a excelente aptidão das mulheres para trabalhos envolvendo cuidado, resolução de problemas e ciências multidisciplinares. Infelizmente, essa predominância ainda não está refletida no cenário de participação em cargos seniores, nos quais a representação das mulheres é menor. A situação demonstra que essa não é uma tendência que irá se reverter tão cedo, pois ainda são necessárias iniciativas de criação de oportunidades para garantir a continuidade dos ganhos da atuação feminina.

Você é a primeira mulher a presidir o CRMV-SP, por que decidiu se candidatar ao cargo? 

Após ter alcançado o nível máximo de progressão na minha carreira científica dentro da instituição que trabalho, comecei a buscar outras oportunidades de me destacar profissionalmente e trazer visibilidade aos institutos de pesquisa. Eu já tinha colegas atuando no conselho, que me contaram da necessidade de oxigenação e novos projetos para melhorar a gestão. Então, me pareceu uma possibilidade viável para alinhar essas diretrizes e espero que minha participação traga visibilidade para que mais colegas façam parte do sistema.

Na sua gestão há dez outras mulheres que fazem parte da Diretoria Executiva.  Por que as escolheu? 

A formação do grupo que se candidatou à gestão do conselho começou cerca de seis meses antes das eleições. Fazíamos reuniões para definir as propostas de projetos e cada um foi acionando sua rede de contatos para convidar profissionais interessados, que pudessem dedicar uma parte do seu tempo ao Conselho e fossem atuantes em áreas diversas. Coincidentemente, a maioria dos indicados e que aceitaram concorrer foram mulheres. Isso faz total sentido, considerando a realidade dos números de profissionais e a representatividade das classes médico-veterinária e, cada vez mais, zootécnica. 

Recentemente foi criado o projeto CFMV Mulher, cuja comissão responsável é presidida por você. Qual a importância do projeto para as mulheres médicas-veterinárias?

Considerando que as mulheres já são maioria na Medicina Veterinária, e que, apesar disso, ainda enfrentamos barreiras estruturais, o projeto se faz importante. A comissão tem como objetivo criar mecanismos concretos de valorização, capacitação e proteção das profissionais, propondo políticas institucionais de equidade de gênero, combate aos assédios moral e sexual e apoio às profissionais, que conciliam a vida profissional com a maternidade, criando espaços de capacitação e liderança.

Confira o artigo completo “A expressividade da mulher médica-veterinária”, na íntegra e sem custo, acessando a página 20 da edição de março (nº 319) da Revista Cães e Gatos.