Apesar de amplamente discutido na Medicina Veterinária de cães, o hipotireoidismo ainda é considerado uma condição pouco frequente em gatos e, por isso, pode passar despercebido na rotina clínica.
O tema foi discutido durante a palestra “Hipotireoidismo Felino: diagnóstico e manejo”, apresentada pela médica-veterinária especialista em felinos e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Heloisa Justen, durante o Animal Health 2026.
Na apresentação, a especialista destacou que a doença pode se manifestar de diferentes formas na espécie felina, incluindo quadros congênitos, formas espontâneas em gatos adultos e casos adquiridos após tratamento de hipertireoidismo.
“Apesar de ser considerado raro, o hipotireoidismo em gatos provavelmente é subdiagnosticado. Muitas vezes, os sinais clínicos são sutis ou confundidos com outras condições”, explica Justen.
Alterações congênitas podem comprometer o desenvolvimento
Entre as apresentações clínicas discutidas durante a palestra está o hipotireoidismo congênito, condição que pode comprometer o crescimento e o desenvolvimento de filhotes.
Nesses casos, a doença costuma estar associada a alterações na formação da glândula tireoide ou a defeitos na síntese hormonal.
Entre as possíveis causas estão a disgenesia tireoidiana e a disormonogênese, que interferem diretamente na produção dos hormônios tireoidianos.
De acordo com a especialista, esses quadros podem gerar sinais clínicos ainda nos primeiros meses de vida do animal. Entre os achados mais frequentes estão:
- nanismo desproporcional;
- atraso na ossificação;
- constipação intestinal;
- abdômen abaulado;
- alterações neurológicas.
Durante a palestra, também foi apresentado um caso clínico de um filhote com diagnóstico confirmado de hipotireoidismo congênito, que apresentava atraso no desenvolvimento e dificuldade para defecar.
“Esses pacientes podem apresentar alterações importantes no crescimento e no desenvolvimento neurológico. O diagnóstico precoce pode fazer diferença no prognóstico”, afirma.
Hipotireoidismo espontâneo também pode ocorrer em gatos adultos
Embora seja menos comum, o hipotireoidismo espontâneo primário também pode ser observado em gatos adultos.
Nesses casos, diferentes fatores podem estar envolvidos no desenvolvimento da doença.
Entre as possíveis causas estão processos inflamatórios da tireoide, como tireoidite linfocítica, além de alterações nutricionais relacionadas ao equilíbrio de iodo na dieta e exposição a determinadas substâncias.
Os sinais clínicos nesses pacientes podem ser variados e muitas vezes pouco específicos. Entre os principais estão:
- letargia;
- ganho de peso;
- pelagem opaca ou sem brilho;
- crescimento tardio do pelo;
- hipotricose;
- otite externa recorrente.
Além disso, alterações laboratoriais também podem estar presentes, como azotemia, anemia não regenerativa e hipercolesterolemia, podendo ocorrer associação com doença renal crônica.
“O hipotireoidismo pode afetar diferentes sistemas do organismo. Por isso, a avaliação clínica deve considerar sempre o conjunto de sinais e exames laboratoriais”, destaca Justen.

Diagnóstico exige interpretação cuidadosa dos exames hormonais
Outro ponto enfatizado durante a apresentação foi a complexidade do diagnóstico do hipotireoidismo felino. A simples avaliação do T4 total pode não ser suficiente para confirmar a doença.
Isso porque níveis reduzidos desse hormônio podem ocorrer também em diferentes situações clínicas, como doenças sistêmicas não relacionadas à tireoide ou uso de determinados medicamentos.
Diante desse cenário, a especialista ressaltou a importância de uma abordagem diagnóstica mais completa.
“Quando encontramos valores de T4 total baixos ou próximos do limite inferior, é importante aprofundar a investigação e considerar também a dosagem de T4 livre e de TSH”, explica.
A interpretação correta desses exames é essencial para evitar diagnósticos equivocados e garantir que o paciente receba a abordagem terapêutica adequada.
Tratamento envolve reposição hormonal e acompanhamento clínico
Quando o diagnóstico é confirmado, o tratamento geralmente envolve a reposição hormonal com levotiroxina sódica (LT4).
A dose inicial pode variar e deve ser ajustada de acordo com a resposta clínica do animal e os resultados dos exames laboratoriais.
O acompanhamento clínico é essencial para avaliar a evolução do paciente e monitorar os níveis hormonais ao longo do tratamento.
“O objetivo da terapia é restabelecer os níveis séricos dos hormônios tireoidianos dentro dos intervalos de referência”, afirma Justen.
Hipotireoidismo iatrogênico pode surgir após tratamento do hipertireoidismo
A palestra também abordou o hipotireoidismo adquirido iatrogênico, que pode ocorrer após o tratamento de gatos com hipertireoidismo.
Esse quadro pode estar associado a procedimentos como tireoidectomia, terapia com iodo radioativo ou uso de fármacos antitireoidianos. Em alguns casos, a supressão excessiva da função tireoidiana pode levar ao desenvolvimento do distúrbio.
A especialista destacou ainda que o tratamento excessivo com medicamentos antitireoidianos pode estar relacionado ao desenvolvimento de azotemia e à redução da expectativa de vida dos pacientes.
“A restauração do status eutireoideo é fundamental nesses casos, pois a normalização da função tireoidiana pode contribuir para a melhora da função renal”, afirma.
FAQ sobre hipotireoidismo felino
Hipotireoidismo é comum em gatos?
Não. A doença é considerada rara na espécie, mas pode ser subdiagnosticada devido à semelhança dos sinais clínicos com outras condições.
Quais são os principais sinais clínicos do hipotireoidismo felino?
Entre os sinais mais comuns estão letargia, ganho de peso, alterações na pelagem, crescimento tardio do pelo e alterações metabólicas.
Como é feito o tratamento do hipotireoidismo em gatos?
O tratamento geralmente envolve reposição hormonal com levotiroxina e acompanhamento periódico dos níveis hormonais e da evolução clínica do paciente.
LEIA TAMBÉM:
Manejo da Síndrome da Disfunção Cognitiva é tema da palestra no Animal Health 2026
Polifagia e obesidade: quando as duas condições estão associadas na prática clínica
