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Obesidade animal: epidemia silenciosa, mas visível

Especialista destaca causas, impactos na saúde e estratégias para controle do peso em animais de companhia

Obesidade animal: epidemia silenciosa, mas visível
Por Danielle Assis
21 de abril de 2026

Nos últimos anos, a obesidade se tornou um tema relevante na Medicina Veterinária, sendo abordada, especialmente, na clínica médica de cães e gatos. 

Se antes os pets “gordinhos” eram considerados fofos, hoje a condição é tida como doença e sabe-se dos efeitos deletérios que os quilos a mais causam no organismo dos animais de estimação. 

Mesmo assim, a incidência do sobrepeso e da obesidade ainda é alta. Uma pesquisa realizada pela Association for Pet Obesity Prevention em 2022 trouxe um dado alarmante: nos Estados Unidos 59% dos cães e 61% dos gatos são classificados com sobrepeso ou obesos. 

Por mais que no Brasil não se tenha um panorama exato da condição, especialistas alertam para o problema. 

Para falar um pouco sobre a obesidade em cães e gatos e suas complicações, conversamos com o médico-veterinário Aulus Cavalieri Carciofi, membro da Diretoria Técnica do Colégio Brasileiro de Nutrição Animal (CBNA). 

Professor da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias (FCAV) da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e orientador e responsável pelas disciplinas Doenças Nutricionais e Metabólicas e Formulação e Processamento Termomecânico de Alimentos para Cães, Gatos e Organismos Aquáticos na mesma universidade, o profissional também foi presidente da European Society of Veterinary and Comparative Nutrition (ESVCN) nos anos de 2023 a 2025.

Cães&Gatos – A obesidade se tornou um problema cada vez mais recorrente em cães e gatos. Na sua opinião, quais os principais motivos para isso? 

Aulus Cavalieri Carciofi – A obesidade se tornou um problema frequente pelo estilo de vida dos cães e gatos. O ambiente doméstico tem condições que favorecem a sua ocorrência. Hoje, nós vivemos com muitas facilidades materiais, que diminuem a necessidade de exercícios. Isso faz com que o gasto energético e a atividade física dos seres humanos tenham caído bastante. Como os cães e gatos compartilham o mesmo ambiente, partilham dessa situação. Logo, os pets possuem amplo acesso à calorias e, estando restritos ao ambiente doméstico, deixaram de fazer atividades físicas. Na natureza os animais corriam e se exercitavam muitas horas para caçar. A falta deste exercício faz com que a necessidade energética e de alimento seja muito baixa. 

A castração pode ser considerada relevante nos níveis de obesidade em cães e gatos? 

A castração é importante para modular o comportamento e controlar a reprodução e a população de cães e gatos. Porém, ao ser castrado, o animal passa por uma profunda adaptação metabólica e os hormônios sexuais são anorexígenos, ou seja, estimulantes da massa magra. A presença de um eixo endócrino intacto faz com que o animal tenha um melhor controle do apetite, do estímulo à atividade física e para desenvolver massa muscular. Quando castramos, ele passa a se exercitar menos, possui menor controle sobre o consumo de alimentos e acaba ingerindo mais calorias do que necessita, criando um balanço calórico positivo para a obesidade. 

O vilão da obesidade é a maior variedade de alimentos disponíveis para os pets? 

Realmente, a obesidade só vai se estabelecer se o animal ingerir mais calorias do que gasta, ou seja, quando acumula energia na forma de gordura corporal. No entanto, isso ocorre por um modelo complexo e a fisiologia do organismo tem ferramentas, como vias metabólicas e endócrinas, que controlam o quanto comer. Então, quando se estabelece a obesidade, o controle metabólico e endócrino foi rompido e o animal entra em um desequilíbrio energético positivo. Nesses casos, em primeiro lugar, o grande vilão é a falta de exercício e, em segundo lugar, a castração. 

Quais os erros principais na nutrição de cães e gatos domésticos que levam a obesidade?

Os principais erros são fornecer alimento à vontade e, além do alimento industrializado, disponibilizar itens de alimentação caseira, como restos de comida, petiscos, pães, bolachas e doces, em excesso. Já do ponto de vista do veterinário, a não seleção apropriada do alimento em termos da compatibilidade entre necessidade calórica e quantidade de calorias também é considerado um problema.

Qual o papel dos responsáveis nos quadros de obesidade dos animais? 

Os responsáveis precisam reconhecer que a obesidade é uma doença e não somente um estado de aparência física. Essa massa de gordura nada mais é do que um estado pró-inflamatório crônico, que leva a alterações muito relevantes na qualidade e na expectativa de vida dos cães e gatos. Os animais obesos vivem menos e a inflamação constante do organismo potencializa o desenvolvimento de doenças crônicas de forma geral. 

Quais os principais aspectos da obesidade em cães? 

Os gatos têm uma tendência maior à ocorrência de obesidade do que cães. Porém, epidemiologicamente, nos cães a incidência da condição aumenta de modo linear. Assim, quanto mais idoso o cão, mais risco há de ele se tornar obeso. Além disso, o cão idoso só começa a perder peso efetivamente quando adoece e possui alguma alteração de saúde que cause esse emagrecimento.

Quais as características da obesidade em gatos? 

Nos felinos, a incidência da obesidade aumenta a partir dos dois ou três anos de idade, tendo um pico entre os 10 e 12 anos, que é quando a maior parte da população de gatos está em sobrepeso ou obesa. Após essa fase, quando eles entram na senescência, já são idosos e começam a perder peso. Portanto, um felino idoso é tipicamente é um gato magro devido a diversas alterações metabólicas que ocorrem como consequência do processo de envelhecimento.

Quais os principais efeitos negativos da obesidade no organismo dos cães?

A obesidade está associada a baixa expectativa de vida, existindo estudos que apontam para uma redução de dois anos na expectativa de vida dos animais. A condição também está associada ao aumento da incidência e da gravidade de diversas doenças, como as ortopédicas, quando a inflamação acaba potencializando os sinais das osteoartrites e osteoartroses. A obesidade pode, ainda, levar a forte insuficiência respiratória, pois o animal tem dificuldade de realizar o movimento respiratório normal e a troca gasosa no pulmão é deficitária. Com isso, está sempre taquipneico e essa taquipneia, muitas vezes, é interpretada como uma alteração cardíaca, mas no coração os efeitos da obesidade não são tão graves. 

Quais os principais efeitos negativos da obesidade no organismo dos gatos?

Em gatos a obesidade também diminui a expectativa de vida e aumenta a predisposição ao desenvolvimento de diabetes mellitus. Devido a isso, ao atender um gato obeso há muito tempo é importante realizar exame laboratorial de glicemia e glicosúria. O diabetes típico do felino obeso é o tipo 2, que é reversível. Portanto, se esse animal passar por um regime e perder peso, é possível remover o estado pró-inflamatório crônico e corrigir o quadro. 

Quando é possível classificar um animal como obeso? 

Em termos simples, a obesidade pode ser definida como um acúmulo de gordura corporal suficiente para causar alterações de saúde no animal. Um animal obeso é aquele que possui acúmulo suficiente de gordura para alterar a sua saúde e o metabolismo. Geralmente, isso ocorre quando cães e gatos têm mais de 30 ou 35% de gordura no corpo. Antes disso, eles são considerados em sobrepeso. 

Quais são as formas de avaliar o score de condição corporal de cães e gatos?

Tudo começa com a inspeção visual e a palpação do corpo do animal, especialmente na região das costelas, pescoço, tórax, abdômen e coxal. Neste exame é possível avaliar as massas adiposas ali presentes. Também existem protocolos de avaliação muito interessantes, como o da World Small Animal Veterinary Association (WSAVA), que disponibiliza várias ferramentas para o médico-veterinário classificar o escore corporal do animal. O escore varia entre 1 e 9. Um cão ou gato nível 1 é considerado caquético e nível 9 está extremamente obeso. Para cães, o ideal é escore entre 4 e 5 e para gatos a classificação 5 é a mais indicada. 

Como deve ser realizado o cálculo da ingestão de calorias diárias nos animais?

A fórmula para o cálculo da ingestão diária de calorias é a seguinte: de 95 a 130 kcal/kg0,75/dia para cães e de 60 a 80 kcal/kg0,67/dia para gatos. Esse é um cálculo que considera um fator provável de gasto energético multiplicado pelo peso metabólico.

O peso metabólico é obtido pelo peso corporal elevado a um fator específico para gatos de 0,67 e para cães de 0,75. 

Como deve ser instituída a dieta dos animais?

Na prática, nós médicos-veterinários fazemos uma anamnese alimentar, coletando informações com o responsável sobre quantas calorias o animal ingere diariamente. Assim podemos analisar se a quantidade está acima ou abaixo do valor teórico esperado de acordo com o cálculo. Porém, é importante destacar que, como em todas as equações, existe variabilidade entre indivíduos, principalmente em função da idade, status reprodutivo, raça, ambiente onde vive e nível de atividade física. Com base em tudo isso, quando o profissional propõe uma quantidade diária de calorias, deve acompanhar esse processo através de retornos entre 15 e 30 dias para conferir se, com a quantidade de alimento estabelecida, o animal está sendo capaz de manter o peso corporal constante. 

Confira o artigo completo “Epidemia silenciosa, mas visível”, na íntegra e sem custo, acessando a página 16 da edição de abril (nº 320) da Revista Cães e Gatos.