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Inteligência Artificial impulsiona pesquisa para criar contraceptivo não cirúrgico para cães

Tecnologia em desenvolvimento busca ampliar as alternativas para o controle populacional de cães

Inteligência Artificial impulsiona pesquisa para criar contraceptivo não cirúrgico para cães
Por Stéfani Campos Chagas
17 de junho de 2026

A Inteligência Artificial (IA) pode abrir um novo caminho para o controle populacional de cães. Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Saúde Única da Universidade Santo Amaro (Unisa) estão desenvolvendo um estudo que busca criar um contraceptivo não cirúrgico, permanente e sem base hormonal para cadelas, especialmente aquelas que vivem em situação de rua.

Em entrevista exclusiva ao Portal Cães&Gatos, a professora Paula Papa, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Única da universidade, explicou que a tecnologia ainda está em fase inicial, mas já permitiu identificar genes que não haviam sido encontrados por métodos tradicionais de análise.

Segundo a pesquisadora, a proposta não pretende substituir a castração cirúrgica, considerada o padrão-ouro da Medicina Veterinária, mas oferecer uma alternativa para programas de controle populacional de animais sem responsáveis, nos quais a cirurgia e o acompanhamento pós-operatório nem sempre são viáveis.

Novos alvos

A pesquisa começou em 2014, mas ganhou um novo impulso após um edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) voltado ao uso da Inteligência Artificial.

A tecnologia foi empregada para analisar um grande volume de dados biológicos relacionados à gestação canina. Com isso, foi possível identificar genes potencialmente essenciais para a manutenção da gravidez e definir uma ordem de prioridade para sua validação.

“Estamos conseguindo enxergar coisas que antes não conseguíamos ver. A Inteligência Artificial identificou novos genes que não haviam sido detectados pelas análises estatísticas convencionais”, explica a pesquisadora.

Paula Papa ressalta que a IA utilizada no projeto não é a mesma presente em plataformas de IA generativa. O estudo utiliza sistemas desenvolvidos especificamente para analisar grandes volumes de dados biológicos em computadores de alto desempenho.

Atualmente, a equipe realiza a validação biológica dos genes identificados em culturas de células obtidas durante procedimentos de castração. Caso os resultados sejam positivos, a pesquisa seguirá para novas etapas de desenvolvimento.

Controle populacional

O contraceptivo em desenvolvimento tem como foco inicial as cadelas, já que elas são responsáveis pelo nascimento das ninhadas e, consequentemente, exercem maior impacto sobre o crescimento da população de cães abandonados.

“A nossa pesquisa quer enfrentar o problema dos animais sem responsáveis. A proposta é que o contraceptivo seja aplicado apenas uma vez, sem necessidade de cirurgia ou de reaplicações”, afirma Paula.

Outro diferencial é que o método não utilizará hormônios, sendo esse um dos grandes diferenciais. Atualmente, anticoncepcionais hormonais podem aumentar o risco de doenças como piometra e tumores mamários.

Paula Papa
Paula Papa, do Programa de Pós-Graduação em Saúde Única da Unisa (Foto: Divulgação)

A pesquisadora explica, ainda, que a expectativa é oferecer uma ferramenta complementar à castração cirúrgica, principalmente para programas de manejo populacional de cães sem responsáveis.

Embora ainda seja cedo para estimar o valor do produto, a expectativa é que ele possa ter um custo inferior ao de um procedimento cirúrgico, dependendo da molécula escolhida ao final do desenvolvimento.

Próximas etapas

Apesar do potencial da tecnologia, Paula Papa reforça que ainda não é possível afirmar que o futuro contraceptivo será seguro ou isento de efeitos colaterais.

Neste momento, as moléculas identificadas passam por análises computacionais para verificar possíveis riscos de toxicidade.

“Primeiro precisamos saber se essas moléculas são seguras. Se o computador indicar potencial de toxicidade, elas serão descartadas e buscaremos outra alternativa”, pontua.

Somente após essa fase terão início os estudos em modelos animais, seguidos por testes em cães e um período de acompanhamento para avaliar possíveis efeitos adversos. Em um cenário otimista, a pesquisadora estima que ainda serão necessários cerca de cinco anos para que um eventual produto possa chegar ao mercado, após cumprir todas as etapas científicas e regulatórias.

Ao final da entrevista, Paula Papa destacou que o avanço da pesquisa também depende do trabalho coletivo.

“Uma pesquisa dessa complexidade depende de pessoas excelentes trabalhando juntas. Foi isso que encontrei no Programa de Pós-Graduação em Saúde Única da Unisa”, finalizou.

FAQ sobre o contraceptivo não cirúrgico para cães

O contraceptivo já está disponível para uso?

Não. A pesquisa ainda está em fase de validação e os testes de segurança em animais ainda não começaram.

O método substituirá a castração cirúrgica?

Não. A castração continua sendo o padrão-ouro da Medicina Veterinária. A proposta é oferecer uma alternativa para programas de controle populacional de cadelas sem responsáveis.

Já se sabe se haverá efeitos colaterais?

Ainda não. Segundo os pesquisadores, essa resposta só poderá ser dada após a conclusão das análises de toxicidade e dos estudos em animais.

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