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Artigos revista Clínica e Nutrição

Maio Amarelo: função renal em foco

Campanha Maio Amarelo chama atenção para o diagnóstico precoce e manejo das doenças renais em pequenos animais

Maio Amarelo: função renal em foco
Por Danielle Assis
8 de maio de 2026

Os rins são órgãos fundamentais para manutenção da homeostase do organismo. Muito citados na clínica médica de cães e gatos, possuem funções indispensáveis, e seu bom funcionamento está diretamente relacionado a manejo adequado, prevenção de doenças e fatores genéticos. 

Segundo Hugo Cardoso Martins Pires, médico-veterinário e mestre em ciência animal com ênfase em Nefrologia, membro da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), atual presidente do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária (CBNUV) e membro fundador do Colégio Latino-americano de Nefrologia e Urologia Veterinária (CLANUV), os rins são responsáveis pela produção de urina, exercendo o controle da quantidade de água no organismo, mas não atuam apenas nessa área. 

“Também agem na excreção de metabólitos nitrogenados, como ureia, creatinina e diversas outras toxinas urêmicas. Regulam o equilíbrio hídrico e eletrolítico, com destaque para sódio, potássio e fósforo, e atuam de forma decisiva no controle do equilíbrio ácido-base por meio da reabsorção de bicarbonato e excreção de íons hidrogênio”, cita. 

Já do ponto de vista endócrino, participam da produção de eritropoetina, da ativação da vitamina D (calcitriol) e da regulação do sistema renina-angiotensina-aldosterona, que possui efeito direto na pressão arterial. 

“Portanto, poderíamos dizer que os rins têm funções muito além de serem os “filtros” do organismo, e a disfunção renal gera repercussões sistêmicas amplas”, afirma.

Longevidade e as afecções renais

Hoje, mais do que antigamente, os pets estão sendo diagnosticados com enfermidades que acometem os rins, tal como, a Doença Renal Crônica (DRC). Porém, quais os motivos para isso? 

Para o professor Leandro Z. Crivellenti, médico-veterinário com residência em Clínica Médica e Cirúrgica de pequenos animais, mestre e doutor em Medicina Veterinária, pós-doutor na área de Nefrologia e vice-presidente do Colégio Brasileiro de Nefrologia e Urologia Veterinária (CBNUV), esse aumento reflete uma mudança social positiva: o animal de estimação passou a ser visto como um membro da família, o que eleva o nível de cuidado e atenção dos responsáveis. 

“Como consequência direta de uma vida mais assistida, nossos pets estão vivendo mais. A longevidade é uma vitória da Medicina Veterinária, mas, naturalmente, expõe os animais a doenças degenerativas. Hoje, procuramos mais por diagnóstico, não porque os cães e gatos estão ‘mais doentes’ e, sim, porque estamos dando a eles a chance de envelhecer e, consequentemente, estamos identificando doenças que antes passavam despercebidas”, avalia. 

Hugo também vê dessa forma e comenta que as alterações renais estão fortemente associadas ao envelhecimento, o que pode levar a doença renal crônica adquirida.

Conforme cita, em cães, a enfermidade é mais frequentemente identificada a partir da meia-idade, geralmente entre seis e oito anos, variando conforme o porte. Já em felinos, a prevalência aumenta significativamente a partir dos sete anos. 

“No entanto, é importante reforçar que na DRC a perda de néfrons é um processo progressivo e silencioso, podendo atingir cerca de 66% a 75% da função renal, momento em que o paciente vai começar a apresentar sinais clínicos e laboratoriais. Antes disso, a doença é silenciosa no ponto de vista de exames de função renal e sinais clínicos. Por isso, a importância do diagnóstico precoce”, alerta.

Felinos x cães 

Existe uma percepção de que gatos são mais acometidos por doenças renais do que cães. Porém, Crivellenti afirma que ambas as espécies podem sofrer com afecções dos rins. 

“O que observamos na prática é que a doença renal crônica possui uma prevalência muito marcante em gatos idosos, o que nos obriga a criar protocolos de monitoramento preventivo específicos para essa população”, pontua. 

Além disso, os felinos apresentam particularidades anatômicas e fisiológicas, que contribuem para o desenvolvimento de alterações nos rins, especialmente à DRC. 

Os gatos possuem néfrons com túbulos mais longos e medula renal proporcionalmente mais desenvolvida, o que lhes confere elevada capacidade de concentração urinária.

“Essa característica permite uma reabsorção de água mais eficiente e concentração urinária alta, possibilitando que esses animais mantenham a homeostase hídrica mesmo com baixa ingestão de água. No entanto, ao longo do tempo, essa alta capacidade de concentração urinária pode resultar em maior carga e estresse tubular crônico, favorecendo lesões túbulo-intersticiais progressivas, formação de cálculos urinários e predisposição a doenças”, explica Pires. 

Outro ponto importante é que a espécie realiza menor ingestão hídrica voluntária, especialmente quando associada a dietas secas, o que pode intensificar esse cenário. Somado a tudo isso, há maior prevalência de nefropatias crônicas de origem multifatorial ou idiopática, bem como a maior longevidade desses animais, que aumenta a exposição cumulativa a fatores de risco.

“Portanto, a maior incidência de alterações nos rins em gatos não está relacionada a um único fator, mas sim a um conjunto de adaptações fisiológicas e condições ambientais que, ao longo do tempo, podem favorecer o desenvolvimento de doenças renais”, diz o atual presidente do CBNUV. 

DRC em destaque

Não é possível falar sobre saúde dos rins sem citar a doença renal crônica. Conforme conta Vívian Souza Gonçalves, médica-veterinária pós-graduada em Nefrologia e Urologia com aprimoramento em hemodiálise e diálise peritoneal de cães e gatos, na rotina nefrológica a maior casuística de atendimentos é representada pela DRC, seja ela congênita ou adquirida. 

Em seguida, estão casos de cálculos urinários, injúria renal aguda e infecções do trato urinário superior ou inferior. “Já em menor escala, são observados quadros de proteinúria, cistos renais, incontinência urinária e glomerulopatias”, afirma. 

Leandro explica que a doença renal crônica representa um estádio clínico sem reversibilidade, onde o órgão perde sua capacidade funcional. Todavia, é um mito dizer que todo animal terá uma perda importante de função renal ao envelhecer. 

“O envelhecimento é um fator de risco, sim, mas não é uma sentença. Assim como ocorre em humanos, no qual a hipertensão descontrolada é uma das maiores causas de doença renal, em cães e gatos o controle rigoroso de doenças sistêmicas — como a hipertensão e outras afecções orgânicas — é o que diferencia um envelhecimento saudável de um estádio de DRC”, esclarece. 

De forma simplificada, na doença renal crônica ocorre perda gradual de néfrons. Ao mesmo tempo que alguns deixam de funcionar, os que sobrevivem tentam compensar o “trabalho” daqueles que morreram, ficando sobrecarregados. Essa sobrecarga crônica acentua a perda, criando um ciclo irreversível de declínio funcional do órgão. 

No entanto, é importante saber diferenciar a DRC da Lesão Renal Aguda (LRA), visto que o manejo de ambas as condições é distinto. 

“O animal em estádio crônico pode ser assintomático por muito tempo. Por isso, sem o check-up periódico, a doença não é identificada. Já a lesão renal aguda — ou uma DRC agudizada / descompensada — é dramática, podendo desencadear vômitos frequentes, diarreia, apatia e anorexia”, relata o médico-veterinário. 

Dessa forma, enquanto na LRA deve ser realizada uma intervenção emergencial, na DRC o foco está no acompanhamento individualizado do paciente para frear a progressão. 

“O segredo da longevidade renal é a parceria entre o responsável e o veterinário, garantindo que o cuidado não ocorra apenas na crise, mas também no cotidiano”, aconselha. 

Correlação rins e demais órgãos 

Nem sempre uma doença renal tem origem exatamente nos rins. Algumas condições sistêmicas podem lesionar esse órgão, levando a falhas no seu funcionamento. 

Basicamente, as lesões nos rins podem decorrer a partir de causas pré-renais, renais ou pós-renais. 

Entre os fatores pré-renais pode-se citar hipoperfusão renal por desidratação, hipovolemia, hipotensão e cardiopatias.

Já os fatores renais estão relacionados a alterações no parênquima renal, ou seja, lesões vasculares, em néfrons ou no interstício. Nesse caso, pode-se elencar a maioria das doenças infecciosas em cães e gatos, como leptospirose, hemoparasitoses, leishmaniose e doenças periodontais, por exemplo. 

“O uso de fármacos nefrotóxicos e processos inflamatórios ou imunomediados também podem contribuir para lesões renais, assim como a presença de doenças hereditárias, neoplasias e distúrbios metabólicos”, explica Pires. 

De acordo com Crivellenti, o rim é um espelho da saúde sistêmica. Com isso, doenças cardíacas podem reduzir o fluxo sanguíneo renal, causando isquemia. Porém, o inverso também é verdadeiro: a hipertensão arterial causa lesão direta aos vasos renais. 

Inclusive, Hugo cita que a relação entre as doenças cardíacas e os rins é descrita como doença cardiorrenal (antigamente chamada de síndrome cardiorrenal) e envolve uma interação bidirecional complexa. 

Nela, a redução do débito cardíaco pode levar à diminuição da perfusão renal, o que pode refletir lesões perfusionais no parênquima renal e, consequentemente, queda da taxa de filtração glomerular. 

Por outro lado, com a diminuição da perfusão renal ocorre ativação do sistema renina-angiotensina-aldosterona e do sistema nervoso simpático, aumentando a pressão arterial, o que é prejudicial tanto para os rins quanto para o coração. 

“Além disso, o manejo terapêutico das cardiopatias, como o uso de diuréticos e vasodilatadores, tais quais inibidores ou bloqueadores da enzima conversora de angiotensina, pode impactar na função renal, exigindo monitoramento constante”, afirma.

Para complementar, também é preciso se atentar a doenças endócrinas, como o hipercortisolismo e o hipertireoidismo, quadros oncológicos e desequilíbrios nutricionais, que podem sobrecarregar a função filtradora dos rins. 

Confira o artigo completo “Função renal em foco”, na íntegra e sem custo, acessando a página 22 da edição de maio (nº 321) da Revista Cães e Gatos.