O envelhecimento da população felina tem transformado a rotina da clínica veterinária. Com cada vez mais gatos alcançando idades avançadas, cresce também o número de pacientes que convivem simultaneamente com multimorbidades crônicas.
Os desafios dessa realidade foram abordados por Archivaldo Reche Júnior, médico-veterinário especialista em felinos pelo American Board of Veterinary Practitioners (ABVP), no primeiro dia do Cat Congress 2026, realizado de 5 a 7 de junho em São Paulo.
Durante palestra “O gato idoso não tem uma “doença”: Medicina multimorbidade em felinos”, o médico-veterinário destacou a importância de uma abordagem individualizada para esses animais, defendendo que o foco do tratamento deve estar na qualidade de vida do paciente e não apenas no controle de cada doença diagnosticada.
Segundo Archivaldo, o perfil dos atendimentos tem mudado significativamente nos últimos anos.
“Hoje eu me considero um geriatra de gatos. Atendo muito mais felinos idosos e, normalmente, as complicações começam justamente com o envelhecimento”, afirmou.
Desafios da longevidade
A longevidade traz consigo um desafio cada vez mais frequente: a multimorbidade, condição em que o animal apresenta duas ou mais doenças que interagem entre si e impactam diretamente seu bem-estar.
Para o palestrante, diante desse cenário, é fundamental abandonar a ideia de tratar todos os diagnósticos de forma simultânea.
“O mais importante para um paciente idoso que tem muitas morbidades é que vocês não tenham interesse em tratar todas as doenças. Vocês devem tratar o paciente e não a doença”, ressaltou.
Entre as enfermidades mais comuns em gatos idosos estão a doença renal crônica, hipertireoidismo, hipertensão arterial e osteoartrite. O especialista destacou que, muitas vezes, os sinais clínicos mais relevantes estão relacionados à interação entre essas condições, tornando o tratamento um desafio maior do que o próprio diagnóstico.
Outro ponto de atenção é a perda de peso, considerada uma das principais manifestações clínicas observadas em gatos geriátricos. De acordo com ele, esse processo pode começar anos antes do diagnóstico definitivo de uma doença.
“Não tem nada que preocupe mais um responsável de gato do que a perda de peso. Muitas vezes, quando ele percebe que o animal está emagrecendo, essa perda já vem acontecendo há bastante tempo”, explicou.

Cuidados com o tratamento excessivo
O palestrante também chamou atenção para o risco de tratamentos excessivos, especialmente em pacientes com múltiplas doenças e que já utilizam diversos medicamentos.
Segundo ele, a chamada polifarmácia pode aumentar o estresse tanto do animal quanto do responsável, sem necessariamente trazer benefícios clínicos proporcionais.
“Minimalismo terapêutico inteligente sempre deve ser a nossa meta. A meta é tentar prescrever menos e chegar ao nosso objetivo máximo, que é o bem-estar físico do paciente e o bem-estar emocional do responsável”, afirmou.
Além dos cuidados médicos, o especialista alertou para fatores ambientais que podem comprometer a estabilidade desses pacientes. A introdução de um filhote na casa, por exemplo, pode representar uma fonte importante de estresse para gatos idosos, favorecendo a descompensação de doenças já existentes.
Ao encerrar a apresentação, o médico-veterinário reforçou que não existem protocolos universais para pacientes geriátricos. Cada caso deve ser avaliado individualmente, considerando não apenas os exames e diagnósticos, mas principalmente aquilo que mais impacta a qualidade de vida do animal naquele momento.
“A prioridade vai depender do paciente. Nós não devemos tratar doenças; precisamos tratar o paciente de forma individualizada”, concluiu.
