Estamos vivendo a era da inteligência artificial (IA), no qual muitas tarefas antes executadas por seres humanos passaram a ser realizadas por softwares. Não há o que discutir, essa é uma tendência mundial vista em muitas profissões. Inclusive, na Medicina Veterinária.
Hoje, clínicas e hospitais veterinários já podem contar com IAs que preenchem prontuários médicos, transcrevem atendimentos e, ainda, podem auxiliar na realização de exames e na interpretação de resultados. Mas até que ponto essas tecnologias são positivas e quando podem atrapalhar?
Para Fabiano de Granville Ponce, médico-veterinário, CEO da EloVetNet, presidente da Comissão de Gestão e Mercado Pet do CRMV-SP e Diretor Científico do VetConnection, as ferramentas de IA já saíram do campo da especulação e entraram na rotina de profissionais em diversas especialidades — da análise de imagens diagnósticas e resultados hematológicos ao suporte à decisão clínica, passando pela gestão administrativa de clínicas e hospitais.
“No Brasil, ainda estamos em estágio inicial de adoção, mas a velocidade com que isso está evoluindo é surpreendente. O médico-veterinário que ignora esse movimento hoje corre o risco de se ver despreparado amanhã”, analisa.
De acordo com o profissional, as inteligências artificiais possuem três vantagens centrais:
- Velocidade de acesso ao conhecimento: ferramentas de IA permitem que o clínico consulte literatura científica, diretrizes e protocolos em segundos, sem substituir o julgamento clínico, mas acelerando o processo;
- Suporte ao diagnóstico: algoritmos treinados em grandes bases de dados já demonstram acurácia relevante na identificação de alterações em radiografias, ecocardiogramas, análises histológicas e até em equipamentos hematológicos modernos, que emitem impressões diagnósticas assistidas por IA diretamente nos laudos;
- Eficiência administrativa: da triagem de prontuários à geração de relatórios, gestão de agendamento, controle financeiro e de estoque, a IA libera tempo do veterinário para o que realmente importa – o animal e o responsável pelo pet.
No entanto, como toda tecnologia, essa também oferece riscos à rotina veterinária. O principal deles é o da delegação crítica.
Fabiano afirma que o profissional que utiliza uma ferramenta de inteligência artificial sem filtro técnico próprio está, na prática, terceirizando seu julgamento clínico para um sistema que não examinou o paciente, não tem responsabilidade legal e pode errar.
“Há também o risco de viés nos algoritmos. Ou seja, modelos treinados predominantemente em populações animais de países desenvolvidos podem apresentar desempenho inferior em determinadas raças ou contextos clínicos distintos”, comenta.
Além disso, a privacidade de dados é outra questão relevante no mundo atual. As informações de pacientes e responsáveis precisam ser tratadas com o mesmo rigor ético que qualquer dado sensível em saúde.
“Há também um risco estrutural de longo prazo que merece atenção: ao acumular erros e decisões equivocadas baseadas em IA mal utilizada, o médico-veterinário pode, progressivamente, perder relevância como protagonista do diagnóstico e do tratamento, um caminho que nenhum profissional deveria aceitar passivamente”, alerta o gestor.

IAs como aliadas
No momento atual, a inteligência artificial se destaca como uma ferramenta para ampliar a capacidade dos médicos-veterinários, mas não deve substituí-la.
Se bem utilizada, essa tecnologia pode auxiliar na tomada de decisões mais rápidas, com embasamento científico e menor margem de erro. Esse aspecto é positivo, especialmente, em cenários de alta demanda ou especialidades com déficit de profissionais.
“No médio prazo, vejo um potencial enorme em Medicina preventiva e personalizada. Através das IAs poderemos cruzar histórico clínico, raça, genética e hábitos do animal para prever riscos antes que virem emergências”, explica Ponce.
Ele ainda complementa: para gestores de clínicas e hospitais, a IA também é uma alavanca poderosa de eficiência operacional e financeira, podendo ser usada desde a previsão de demanda e o controle de custos até experiência do responsável pelo pet.

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