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Quando o outono chega, o que muda na saúde do seu animal?

A cada outono, os consultórios veterinários registram o mesmo padrão: animais idosos com articulações mais rígidas, cães com tosse persistente e gatos com pele ressecada. Não é coincidência

Quando o outono chega, o que muda na saúde do seu animal?
Por Marcelo Müller
19 de abril de 2026

O outono costuma ser tratado como uma estação de transição tranquila, algo entre o calor do verão e o rigor do inverno. Para quem cuida de cães e gatos, porém, essa percepção pode ser enganosa. 

A queda gradual de temperatura, a redução da umidade do ar e a mudança nos hábitos de convivência criam um conjunto de condições que sobrecarregam organismos mais sensíveis, agravam condições crônicas e abrem espaço para novas doenças.

Há mais de duas décadas atuando em domicílios e consultórios, observo que os responsáveis tendem a subestimar o outono justamente porque ele não tem o impacto visual imediato de uma onda de calor ou de um frio intenso. É exatamente nessa sutileza que mora o risco.

O sistema respiratório é o primeiro a sentir

Com os ambientes mais fechados e a umidade do ar em queda, as vias aéreas dos animais ficam mais vulneráveis. 

A traqueobronquite infecciosa canina, popularmente chamada de “tosse dos canis”, tem incidência aumentada nessa época, especialmente em cães que frequentam pet shops, hotéis para animais ou parques com alta circulação. 

Rinites, sinusites e o agravamento de doenças respiratórias crônicas também se tornam mais comuns.

Nos gatos, o ar seco favorece a irritação das mucosas e pode exacerbar quadros de herpesvírus felino latente, gerando episódios de espirros, secreção ocular e apatia, que desconcertam responsáveis acostumados com o animal saudável do verão.

Vale reforçar: vacinação em dia, boa ventilação dos ambientes e evitar aglomerações desnecessárias continuam sendo as melhores ferramentas preventivas. 

Sinais como tosse, espirros frequentes, secreção nasal ou respiração ofegante merecem avaliação veterinária sem demora.

A pele fala antes dos outros órgãos

Outro sistema que reage rapidamente às mudanças do outono é a pele. A queda na umidade relativa do ar resseca a barreira cutânea, favorece descamação e intensifica a coceira. 

Em animais com dermatite atópica, condição que acomete especialmente raças como Bulldog, Labrador e Golden Retriever, o outono pode ser o gatilho de uma crise inflamatória que havia ficado controlada nos meses anteriores.

Alimentação equilibrada, hidratação adequada e suplementação de ácidos graxos, quando indicada, fazem diferença concreta na manutenção da barreira cutânea. 

O monitoramento regular da pele e da pelagem, inclusive durante as sessões de escovação, permite identificar alterações antes que evoluam para infecções secundárias.

Articulações e o peso do frio

Quem tem um cão idoso em casa sabe do que estou falando: nos primeiros dias de frio, ele acorda mais devagar, hesita antes de subir no sofá e pede mais colo.

A osteoartrite, condição silenciosa que afeta grande parte dos cães a partir dos sete anos, tem seus sintomas amplificados pela queda de temperatura. A rigidez articular matinal se torna mais evidente, a mobilidade reduz e a disposição para exercícios diminui.

Esse não é um processo inevitável e intratável. Controle de peso, adaptações no ambiente doméstico, como camas ortopédicas e rampas de acesso, fisioterapia veterinária e o acompanhamento clínico adequado para ajuste de terapias analgésicas fazem diferença real na qualidade de vida do animal.

Cães jovens com displasia coxofemoral ou outros diagnósticos ortopédicos também merecem atenção redobrada nesse período.

Comportamento: o que a mudança de rotina revela

O outono altera não apenas o clima, mas a dinâmica do dia a dia. Passeios ficam mais curtos, o convívio externo diminui e os animais passam mais tempo dentro de casa. Isso tem consequências comportamentais que raramente são associadas à estação.

Maior apatia, alterações no apetite, comportamentos repetitivos ou destrutivos podem surgir ou se intensificar como resposta ao sedentarismo e ao menor estímulo ambiental. 

Não interpretar esses sinais apenas como “preguiça do frio” é importante: eles podem indicar desde enriquecimento ambiental insuficiente até processos de ansiedade em desenvolvimento.

Manter a rotina de exercícios, adaptar a intensidade às condições climáticas e garantir estímulo cognitivo diário são medidas simples que preservam o equilíbrio emocional dos animais.

Parasitas: o erro de baixar a guarda

Um equívoco comum no outono é reduzir ou suspender a prevenção contra pulgas e carrapatos. 

Em grande parte do Brasil, e especialmente no Rio de Janeiro, as temperaturas raramente caem o suficiente para interromper o ciclo desses parasitas. Eles continuam presentes no ambiente, nos abrigos quentes que os animais passam a frequentar mais e nas próprias camas e tapetes domésticos.

A prevenção contra ectoparasitas deve ser mantida ao longo do ano, sem exceções sazonais. O mesmo vale para a proteção contra carrapatos em animais que têm acesso a áreas externas, dado o risco de erliquiose e outras riquetsioses no estado.

Animais que merecem atenção redobrada

Filhotes, idosos e pacientes com doenças crônicas, respiratórias, cardíacas, renais ou imunomediadas formam o grupo de maior risco durante o outono. Para esses animais, a consulta preventiva com o médico-veterinário antes do período de frio não é um cuidado excessivo: é parte do manejo clínico responsável.

O outono não precisa ser uma estação de susto. Com atenção, rotina ajustada e acompanhamento veterinário, a transição climática pode acontecer de forma segura. O que não se deve fazer é esperar os sinais aparecerem para então agir. 

Na Medicina Veterinária, como em qualquer área da saúde, a prevenção é sempre mais barata, mais eficaz e menos sofrida do que o tratamento.

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