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Urolitíase em gatos filhotes acende alerta para diagnóstico precoce e prevenção

Palestra de Heloisa Justen M. Souza destacou fatores de risco, avanços no tratamento e a importância da hidratação desde os primeiros meses de vida

Urolitíase em gatos filhotes acende alerta para diagnóstico precoce e prevenção
Por Stéfani Campos Chagas
6 de junho de 2026
Última atualização: 06/06/2026 - 12:27

A urolitíase em gatos filhotes, embora menos frequente do que em animais adultos, tem despertado a atenção da medicina felina. Durante palestra apresentada no Cat Congress 2026, a médica-veterinária Heloisa Justen M. Souza reuniu evidências científicas, dados nacionais e internacionais e relatos clínicos para discutir os principais desafios relacionados ao diagnóstico, tratamento e prevenção dos cálculos urinários em pacientes pediátricos.

A palestrante explicou que a formação dos urólitos é multifatorial e pode estar associada a alterações metabólicas, predisposições genéticas, fatores ambientais e características da urina. Em felinos, as infecções urinárias são menos frequentemente relacionadas ao surgimento dos cálculos, diferentemente do que ocorre em outras espécies.

Além dos fatores metabólicos, algumas alterações hereditárias também podem favorecer a formação de determinados tipos de cálculos. Distúrbios genéticos e defeitos enzimáticos, por exemplo, estão associados a urólitos menos comuns, como os compostos por cistina e xantina.

A médica-veterinária destacou ainda que a supersaturação urinária continua sendo um dos principais mecanismos envolvidos na formação dos cálculos. Alterações de pH, concentração urinária, volume de urina produzido e redução de substâncias que inibem a cristalização favorecem o surgimento de cristais que podem evoluir para urólitos.

“A urolitíase não é uma doença única. Ela é multifatorial e envolve fatores metabólicos, ambientais, genéticos e características da própria urina do paciente”, explicou Heloisa.

A equipe da Cães&Gatos acompanhou a apresentação durante o Cat Congress 2026, que reuniu profissionais de diferentes regiões do país para discutir os avanços da medicina felina e os desafios encontrados na rotina clínica.

Estudos brasileiros mostram mudanças no perfil dos cálculos urinários

Durante a palestra, foram apresentados dados do Minnesota Urolith Center, referência mundial na análise de urólitos, que já avaliou mais de 1,7 milhão de cálculos desde sua criação. Segundo os levantamentos mais recentes, observa-se um novo crescimento dos casos de estruvita após décadas de predominância do oxalato de cálcio.

No Brasil, entretanto, alguns estudos vêm apontando um cenário que merece atenção. Uma pesquisa realizada em Goiânia identificou frequência elevada de urólitos de urato de amônio em gatos analisados. Outros levantamentos conduzidos na região Centro-Oeste também observaram percentuais superiores aos descritos em estudos internacionais.

“Os dados brasileiros chamam atenção principalmente para o aumento dos casos de urato de amônio. Precisamos entender melhor o que está acontecendo e quais fatores estão favorecendo essa mudança”, afirmou.

De acordo com os pesquisadores, fatores como baixa ingestão hídrica, dietas excessivamente acidificantes e períodos prolongados de seca podem estar relacionados ao aumento desses casos.

Outro estudo realizado em Santarém (PA), com dados coletados ao longo de mais de dez anos, identificou a ocorrência de urolitíase em gatos com menos de dois anos de idade, reforçando que a doença pode se manifestar ainda na fase jovem.

Hidratação e diagnóstico precoce são aliados da prevenção

Heloisa Justen M. Souza destacou a importância da hidratação e do diagnóstico precoce na prevenção da urolitíase felina (Foto: Cães&Gatos)

Um dos principais pontos abordados por Heloisa foi a importância da hidratação adequada desde a fase de desmame. Segundo ela, o estímulo ao consumo de água deve começar precocemente, contribuindo para aumentar o volume urinário e reduzir a concentração de minerais capazes de formar cristais e cálculos.

“Se já sabemos que muitos gatos adultos não ingerem água suficiente, precisamos pensar ainda mais na prevenção durante a fase de crescimento”, destacou a médica-veterinária.

A palestrante ressaltou que a prevenção da doença começa na pediatria felina e deve incluir orientações aos responsáveis sobre alimentação, ingestão hídrica e monitoramento da saúde urinária.

Casos clínicos apresentados durante a palestra demonstraram que filhotes podem desenvolver obstruções urinárias graves, acompanhadas de dor, aumento dos níveis de ureia e creatinina e até lesão renal aguda.

Entre os exemplos discutidos estava o de um gato com apenas dois meses de idade que apresentou obstrução uretral associada à presença de múltiplos cálculos urinários. Outro caso envolveu uma filhote de aproximadamente três meses diagnosticada com obstrução bilateral dos ureteres, condição considerada rara e potencialmente fatal.

“Filhotes com obstrução urinária representam um grande desafio porque nem sempre é possível realizar intervenções cirúrgicas imediatas devido às limitações anatômicas desses pacientes”, observou.

A médica-veterinária ressaltou que o diagnóstico em pacientes pediátricos pode ser mais complexo devido ao pequeno porte dos animais e às limitações anatômicas para procedimentos invasivos. Além disso, nem todos os cálculos são facilmente visualizados em exames radiográficos, tornando a ultrassonografia uma ferramenta fundamental para a investigação desses pacientes.

Tratamento exige monitoramento e controle das recidivas

A apresentação também abordou avanços no tratamento clínico das obstruções ureterais. Estudos recentes vêm demonstrando resultados promissores com o uso de bloqueadores alfa-adrenérgicos, como a tansulosina, associados à analgesia e à fluidoterapia.

“Nem todo paciente precisa ir diretamente para a cirurgia. Em alguns casos, a terapia médica expulsiva pode ser uma alternativa importante quando bem indicada e monitorada”, explicou.

Segundo os trabalhos apresentados, as taxas de sucesso podem variar entre 30% e 50% em determinados pacientes, especialmente quando os cálculos são pequenos e estão localizados em regiões mais distais dos ureteres.

Heloisa destacou, porém, que a decisão entre tratamento clínico e intervenção cirúrgica deve considerar diversos fatores, incluindo localização do cálculo, peso do paciente, comprometimento renal e resposta à terapia inicial.

Outro desafio importante é a recorrência da doença. Dados apresentados durante a palestra indicam que determinados tipos de urólitos, especialmente os de urato de amônio, apresentam taxas de retorno mais elevadas quando comparados a outros cálculos urinários.

Por esse motivo, a recomendação é que os urólitos removidos sejam analisados sempre que possível, permitindo identificar sua composição e direcionar estratégias preventivas mais eficazes.

“O paciente que forma cálculos ainda jovem tem maior risco de apresentar novos episódios ao longo da vida. Por isso, o acompanhamento e a prevenção são fundamentais”, concluiu a palestrante.

Ao encerrar a palestra, a médica-veterinária reforçou que a combinação entre hidratação adequada, nutrição equilibrada, acompanhamento clínico e diagnóstico precoce continua sendo a melhor estratégia para reduzir complicações e melhorar a qualidade de vida dos gatos predispostos à formação de cálculos urinários.