A resistência bacteriana já não é uma preocupação restrita à Medicina Humana. Na rotina veterinária, o tema ocupa posição central nas discussões clínicas, especialmente diante da limitação progressiva de opções terapêuticas eficazes.
Para entender melhor o assunto, conversamos com Sibele Konno, médica-veterinária formada pela Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo, diretora médica do Grupo Pet Care e especialista em Medicina Veterinária Intensiva pelo Programa de Aprimoramento Veterinário.
“A resistência bacteriana consiste na capacidade de microrganismos desenvolverem mecanismos de defesa que impedem a ação dos antimicrobianos. Trata-se de um problema urgente de Saúde Pública, porque a velocidade com que bactérias e fungos criam mecanismos de resistência é muito superior ao surgimento de novas moléculas”, explica.
Segundo ela, o cenário atual já inclui agentes infecciosos de interesse médico para os quais pouquíssimos antibióticos permanecem eficazes, configurando um problema presente e também futuro para a prática clínica.
Uso indiscriminado e pressão seletiva
A médica-veterinária conta que a prescrição inadequada de antibióticos e antifúngicos exerce papel direto na ampliação da resistência.
“Ao utilizar essas drogas sem indicação precisa, o profissional expõe os microrganismos ao mecanismo de ação do fármaco, favorecendo a seleção de cepas capazes de desenvolver estratégias de defesa. Esse processo culmina na necessidade de recorrer a diferentes antimicrobianos para tratar infecções que anteriormente responderiam a terapias mais simples. Como resultado, o ciclo de escalonamento terapêutico reduz progressivamente as alternativas disponíveis”, diz Konno.
Sibele conta que, na rotina veterinária, as quinolonas estão entre as classes mais envolvidas nos quadros de resistência.
Por isso, fármacos como enrofloxacina, pradofloxacina e marbofloxacina destacam-se pelo amplo espectro de ação, posologia conveniente — geralmente uma vez ao dia — e formulações direcionadas ao uso animal.
“Essas características, embora vantajosas, também favorecem seu uso frequente e, consequentemente, maior pressão seletiva”, conta a diretora médica do Grupo Pet Care.
Indicações corretas e critérios clínicos
A médica-veterinária explica que a indicação de antibióticos deve ocorrer sempre que houver infecção bacteriana constatada ou fortemente sugerida e deve ser interrompida quando a condição estiver resolvida ou for confirmada a ausência de necessidade terapêutica.
Além disso, esses medicamentos devem ser evitados em infecções virais e fúngicas, uma vez que não apresentam ação sobre vírus ou fungos.
“O uso profilático eletivo também deixou de ser recomendado, exceto em situações específicas de profilaxia pré-cirúrgica, cuja indicação depende do tecido envolvido, do tempo de manipulação e das condições do paciente”, pontua.
Outro ponto crítico é diferenciar infecção de inflamação, bem como distinguir contaminação ambiental ou colonização da presença efetiva de doença. A simples identificação de bactérias não confirma, por si só, um processo infeccioso ativo.

Exames como aliados na tomada de decisão
Quando falamos de exames, existem vários que podem contribuir para reduzir a resistência bacteriana ao orientar escolhas terapêuticas mais assertivas, entre eles: hemograma simples e cultura e antibiograma com determinação da concentração inibitória mínima (CIM).
“Os recursos diagnósticos permitem identificar o padrão de sensibilidade e ajustar a conduta, especialmente diante de bactérias multirresistentes”, relata Sibele.
No entanto, a profissional ressalta que a interpretação criteriosa dos achados clínicos e laboratoriais é determinante.
A condução adequada inclui identificar o tecido acometido, remover o foco infeccioso — como drenagem de abscessos ou retirada de corpo estranho — e instituir medidas de suporte, como analgesia e anti-inflamatórios, quando indicados.
Prescrição responsável na prática clínica
No dia a dia, a conduta responsável começa pelo diagnóstico confirmado ou, ao menos, fortemente sugerido de infecção bacteriana.
Para garantir a segurança é fundamental compreender quais tecidos estão envolvidos e quais bactérias são mais frequentemente associadas àquele sítio.
“O conhecimento aprofundado sobre os antibióticos — espectro de ação, farmacocinética, farmacodinâmica, tempo-dependência ou concentração, dependência, penetração tecidual e particularidades entre espécies — também orienta decisões mais seguras”, comenta a diretora médica do Grupo Pet Care.
Outro aspecto essencial é o tempo de tratamento e a reavaliação periódica. Logo, sempre que possível, deve-se prescrever o fármaco pelo menor período eficaz.
“Nos casos em que cultura e antibiograma indiquem sensibilidade a classes menos potentes ou revelem ausência de necessidade de determinada droga, recomenda-se o descalonamento terapêutico, preservando antimicrobianos de maior importância para situações futuras”, conclui Konno.
FAQ sobre a resistência bacteriana na Medicina Veterinária
A resistência bacteriana é, realmente, um problema urgente na Medicina Veterinária?
Sim. A velocidade com que bactérias e fungos desenvolvem mecanismos de defesa supera o ritmo de criação de novas moléculas antimicrobianas. Já existem microrganismos de interesse médico com pouquíssimas opções terapêuticas eficazes, configurando um desafio atual e futuro dentro do conceito de Saúde Única.
Quais exames ajudam a reduzir o uso inadequado de antibióticos?
Hemograma e cultura e antibiograma com determinação da concentração inibitória mínima são ferramentas que permitem confirmar infecção bacteriana, identificar padrões de sensibilidade e orientar escolhas mais assertivas, inclusive em casos de multirresistência.
O que pode ser feito na prática para prescrever fármacos de forma mais responsável?
É indispensável confirmar ou, ao menos, sustentar fortemente a suspeita de infecção bacteriana, identificar o tecido acometido e conhecer bem o perfil dos antimicrobianos.
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