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Resolução de cistite idiopática felina com modificação ambiental multimodal: série de três casos

Estudo com três gatos diagnosticados com Cistite Idiopática Felina indica que técnicas de modulação ambiental multimodal associadas ao tratamento clínico podem reduzir recidivas e melhorar o bem-estar dos pacientes

Resolução de cistite idiopática felina com modificação ambiental multimodal: série de três casos
Por Equipe Cães&Gatos
14 de março de 2026

A Cistite Idiopática Felina (CIF), uma das causas da Doença do Trato Urinário Inferior (DTUIF), sendo caracterizada por uma condição crônica desencadeada pela inflamação neurogênica da bexiga. 

Os gatos apresentam sinais clínicos de acordo com as variantes, que se agravam mediante situações de estresse agudo ou crônico, elucidando que muitos animais passam por períodos assintomáticos.

Os sinais das afecções do trato urinário inferior em gatos domésticos incluem combinações variáveis ​​de disúria, hematúria, periúria, polaciúria e estrangúria e podem resultar em diversas patologias. 

Essas são apresentações comuns em pacientes felinos e, frequentemente, crônicas e recorrentes, causadas por diversas doenças do trato urinário inferior, tal qual a cistite idiopática. 

A obstrução uretral, que ocorre quase exclusivamente em gatos machos, é uma manifestação da Doença do Trato Urinário Inferior com complicações potencialmente fatais. 

O diagnóstico da causa dos sinais clínicos e o manejo da enfermidade podem ser desafiadores para os médicos-veterinários e frustrantes para os responsáveis, e os resultados conflitantes em estudos publicados aumentam essa complexidade.

As técnicas MEMO (Modulação Ambiental Multimodal) e os cinco pilares do paciente felino são conhecidas como os melhores métodos de tratamento e prevenção de recorrências de crises. 

Os cinco pilares consistem em fornecer um local seguro, disponibilizar brincadeiras e oportunidades para comportamento predatório, promover interação social-humana consistente e previsível e proporcionar um ambiente que respeite a importância olfativa do gato. Tudo isso pensando em favorecer o vínculo afetivo responsável-gato e fornecer bem-estar. 

Dessa forma, permite-se que o animal mostre seu comportamento natural sem danificar os móveis e arranhar o responsável, visando respeito e harmonia no lar.

O objetivo deste trabalho foi descrever a importância do conhecimento da etologia felina e Técnicas Ambientais Multimodais (MEMO) no tratamento da CIF.

Materiais e métodos

Para o presente estudo foram estudados três casos de felinos diagnosticados com CIF a partir de avaliação clínica, sintomatologia, urinálise e ultrassom abdominal sem melhora relevante apenas com tratamento convencional. 

Após introdução das técnicas MEMO, associadas a feromonioterapia, controle de dor/ansiedade e rotina estruturada, os três casos regrediram consideravelmente, estabilizando o quadro sem recidiva.

A nova conduta dos quadros teve como base o uso de meloxicam (0,05mg/kg por cinco dias e 0,03mg/kg por 10 dias), ômega 3 (uso contínuo), gabapentina (5mg/kg por 90 dias) e alimentação úmida como prioridade. 

Além disso, foi instituída a terapia cognitivo comportamental estruturada (TCCE), aumentado o número e tamanho de banheiros e adequado de substrato para que forme torrão firme. Também foi introduzida musicoterapia, feromonioterapia e momentos saudáveis com o responsável, como escovação.

Técnicas MEMO 

As técnicas MEMO (Modulação Ambiental Multimodal) e os cinco pilares do paciente felino são conhecidas como os melhores métodos de tratamento e prevenção de recorrências de crises. Seus pilares são:

Promover um ambiente seguro físico e social

Os recursos necessários para o convívio saudável dos gatos nos lares domésticos variam com a quantidade de felinos. A literatura recomenda uma fórmula básica de n+1, que significa o número de recursos básicos (como alimento, água, banheiro, arranhadores e locais para descansar) mais um, ou seja, em lares com dois gatos que convivem bem em casa, todos os recursos precisam estar em número de três e espalhados pela casa de forma estratégica, visando o respeito e conforto dos hábitos solitários dos gatos.

Fornecer separadamente e em número suficiente os recursos chave (essenciais)

  • Alimentação
  • Arranhadores
  • Gatificação/Verticalização/Enriquecimento vertical
  • Banheiros/liteiras

Oferecer brincadeiras e oportunidades para comportamento predatório

É necessário sempre proporcionar brincadeiras e incentivar comportamentos predatórios para os gatos, afinal eles são caçadores de oportunidade solitários. 

Estimular esse comportamento mentalmente aumenta o bem-estar e a cognição, garantindo uma saúde emocional positiva. 

Os felinos não caçam somente quando sentem fome. Eles são caçadores naturais, que liberam endorfinas e monoaminas (principalmente a dopamina) no ritual da caça. Não pela morte da presa, mas pelo estímulo mental positivo que isso causa.

É importante nunca ensinar ou estimular os gatos a caçar mãos e pés, principalmente na fase de socialização, ou em qualquer fase da vida.  

Além disso, vale destacar que o hábito de caçar e, consequentemente, se alimentar dos felinos é solitário e não social. 

Ritual de caça

Caçar engloba processos dinâmicos e inéditos, envolvendo quatro comportamentos fundamentais. Os brinquedos disponíveis em casa precisam ser de diferentes tamanhos e em formatos e materiais que lembrem suas presas naturais.

Outro ponto importante é que quando o brinquedo fica espalhado no ambiente após a brincadeira lúdica, irá fazer com que o animal o veja como uma caça morta, minimizando o seu interesse. 

Portanto, sempre deve-se guardar os brinquedos e sempre trocá-los para que o gato tenha a percepção de estar recebendo um objeto novo toda hora.

Fornecer interação social-humana consistente e previsível

É extremamente necessário proporcionar interação social humana positiva com o felino. Esses momentos reduzem o medo e o distresse e aumentam o vínculo felino-responsável. 

O recomendado é oferecer o que o gato necessita e respeitar as interações, interagindo com ele somente quando busca contato. 

Não deve-se forçar interações e, sempre que possível, abaixar-se para ficar na mesma altura que o animal. 

Disponibilizar um ambiente que respeite a importância olfativa do gato.

A primeira forma de comunicação do gato é o olfato. Por isso, é de extrema importância respeitar seus odores corporais. Para isso, arranhadores e os locais em que dorme e se esfrega sempre devem ter o cheiro do animal. 

O uso de odores fortes em casa, como incensos, aromatizadores, desinfetantes, amaciantes e afins, devem ser evitados. 

Um ambiente olfativo adequado promove sensação de segurança e conforto, fazendo com que as glândulas que ficam na cauda, focinho, queixo e patas liberem feromônios prazerosos. 

Resultados

Após a aplicação da nova terapia, em cerca de 30 dias, os três animais do estudo apresentaram melhora considerável dos quadros. Os cinco pilares e as técnicas MEMO foram associadas a rotina de caça, buscando a homeostase fisiológica e eustresse.

Sem conhecer o comportamento do felino é impossível tratar casos clínicos relacionados ao distresse com sucesso. 

Nos três casos, após estudo do quadro e avaliação dos parâmetros comportamentais entre os gatos e humanos, foi montado um parâmetro multimodal estrutural segundo a literatura. 

Com todas as mudanças propostas atreladas e a implementação do que o gato precisa em casa, houve melhora e nenhuma recidiva de casos crônicos de CIF não responsivos aos protocolos clínicos isolados. 

Escrito por Julyenne Christynne Escrivani Frasnelli, médica-veterinária pós-graduada em Medicina Felina pelo Qualittas, veterinária Cat Friendly pela AAFP, profissional certificada Fear Free Professional, certificada em comportamento felino avançado pela ISFM, mestre pela UFSCar e docente de pós-graduação em Medicina Felina.

Confira o artigo completo “Resolução de cistite idiopática felina com modificação ambiental multimodal: série de três casos”, na íntegra e sem custo, acessando a página 52 da edição de março (nº 319) da Revista Cães e Gatos.