As doenças cardíacas em cães não representam uma única condição clínica, mas sim um conjunto amplo de enfermidades com diferentes causas, apresentações e evoluções ao longo da vida do paciente.
Esse foi o ponto de partida da palestra apresentada por Brian Scansen, durante a programação científica da VMX 2026, realizado entre 17 e 21 de janeiro, em Orlando (EUA).
A sessão, patrocinada pela Boehringer Ingelheim, teve como foco as terapias baseadas em evidências para o manejo das principais cardiopatias caninas, com ênfase na doença valvar.
Segundo o palestrante, embora existam cardiomiopatias, neoplasias cardíacas, doenças do pericárdio, arritmias e malformações congênitas, a condição para a qual há maior volume de evidências científicas relacionadas ao tratamento é a doença valvar degenerativa, especialmente a doença mixomatosa da valva mitral.
“Apesar de falarmos em ‘doença cardíaca’ como um conceito único, na prática lidamos com múltiplas entidades clínicas, e a valvopatia mitral é, de longe, a mais comum em cães”, destacou.
Doença valvar mitral: fisiopatologia e relevância clínica
A doença degenerativa da valva mitral é considerada a cardiopatia mais frequente na espécie canina, acometendo cerca de 10% dos cães ao longo da vida.
O processo envolve a deposição de glicosaminoglicanos na camada esponjosa da valva, levando ao espessamento valvar, frouxidão das cordas tendíneas, prolapso e regurgitação mitral.
Esse refluxo de sangue do ventrículo esquerdo para o átrio esquerdo pode variar em intensidade, resultando em graus distintos de remodelamento cardíaco.
“A progressão da regurgitação mitral é variável, mas está diretamente associada ao desenvolvimento de aumento atrial e ventricular”, explicou Scansen.
Cardiomiopatias e o fenótipo da DCM
Ao abordar as doenças do músculo cardíaco, o palestrante destacou a cardiomiopatia dilatada (DCM) como a mais relevante em cães.
Caracterizada pela dilatação das câmaras cardíacas e redução da função sistólica, a DCM pode ter origem primária, associada a fatores genéticos, ou secundária, relacionada a doenças sistêmicas, infecções, shunts congênitos ou regurgitação valvar crônica.
Algumas raças, como o Doberman Pinscher, apresentam predisposição conhecida.
No entanto, nos últimos anos, observou-se o surgimento de casos em raças e perfis etários atípicos, levantando a hipótese de uma DCM associada à dieta.
“Esses cães não se encaixavam no perfil clássico de DCM. Eram mais jovens, de raças pequenas, e muitos consumiam dietas não tradicionais”, relatou.
Embora a dieta pareça desempenhar um papel importante, os mecanismos exatos ainda estão sob investigação, e há evidências de reversão parcial da doença após mudança alimentar.
Neoplasias cardíacas e doenças do pericárdio
As neoplasias cardíacas também foram abordadas, com destaque para o hemangiossarcoma, frequentemente localizado no átrio direito, e os tumores de base cardíaca, mais comuns em raças braquicefálicas.
Essas condições podem resultar em derrame pericárdico, levando a sinais clínicos significativos.
Outras causas de efusão pericárdica incluem inflamações idiopáticas, insuficiência cardíaca avançada e, mais raramente, infecções.
“No cão, o derrame pericárdico está frequentemente associado a processos neoplásicos”, ressaltou.
Cardiopatias congênitas e arritmias
As cardiopatias congênitas foram divididas em dois grandes grupos: aquelas associadas a shunts, como persistência do ducto arterioso (PDA), comunicação interatrial (CIA) e interventricular (CIV) e as malformações valvares, como estenose subaórtica, estenose pulmonar e displasias das valvas atrioventriculares.
Essas alterações costumam gerar sopros intensos em animais jovens e podem evoluir para insuficiência cardíaca se não tratadas precocemente.
As arritmias, por sua vez, podem ser tanto consequência quanto causa de doença estrutural cardíaca.
Um dos pontos centrais da apresentação foi o conceito de que a doença cardíaca segue um continuum previsível ao longo da vida do animal.
Inicialmente, o paciente pode estar apenas em risco; depois, desenvolver a doença de forma assintomática; evoluir para aumento cardíaco; e, por fim, apresentar sinais clínicos e insuficiência cardíaca congestiva.
Esse raciocínio embasa o estadiamento da doença valvar mitral, dividido em quatro fases:
- Estágio A: pacientes predispostos, sem alterações clínicas ou estruturais
- Estágio B: presença de doença sem sinais clínicos, subdividido em B1 (sem aumento cardíaco) e B2 (com remodelamento)
- Estágio C: insuficiência cardíaca congestiva com sinais clínicos
- Estágio D: doença refratária, com falha ao tratamento convencional
“Uma vez que o paciente entra no estágio sintomático, ele permanece nesse estágio pelo resto da vida”, enfatizou.
Importância do diagnóstico por imagem
A auscultação cardíaca anual foi destacada como ferramenta fundamental, especialmente em raças predispostas.
A partir da detecção de um sopro, os exames de imagem passam a desempenhar papel decisivo na estratificação do risco e na definição terapêutica.
Embora a ecocardiografia seja o padrão-ouro, o palestrante ressaltou que, na prática clínica, a radiografia torácica pode fornecer informações valiosas por meio de medidas quantitativas, como o escore cardíaco vertebral (VHS) e o tamanho vertebral do átrio esquerdo (VLAS).
“Quando o VHS ultrapassa 11,5 vértebras e o VLAS é maior que três, é muito provável que o ecocardiograma confirme aumento cardíaco significativo”, explicou.
Terapias baseadas em evidências por estágio da doença
No estágio A, não há evidência de terapias capazes de prevenir o desenvolvimento da doença. O manejo baseia-se em monitoramento clínico regular.
No estágio B1, ainda não há indicação de tratamento farmacológico. Já no estágio B2, quando ocorre aumento cardíaco significativo, estudos demonstraram que o uso de pimobendan é capaz de retardar a progressão para insuficiência cardíaca congestiva.
“No momento em que o coração se remodela, intervir com pimobendan faz diferença na história natural da doença”, afirmou Scansen.
O tratamento do estágio C envolve estratégias agudas e crônicas. Na fase aguda, o objetivo é aliviar o desconforto respiratório, utilizando diuréticos como a furosemida, oxigenoterapia e sedação, frequentemente com butorfanol.
Após a estabilização, o manejo domiciliar inclui a chamada terapia “salva-vidas”, composta por:
- diurético de alça (furosemida)
- inotrópico positivo (pimobendan)
- inibidor da ECA (enalapril ou benazepril)
- antagonista da aldosterona (espironolactona)
“Embora não tenhamos estudos éticos que avaliem a furosemida isoladamente, seu uso é indiscutível no controle da congestão pulmonar”, pontuou.
O monitoramento da frequência respiratória em repouso, realizado pelos tutores em casa, foi citado como uma ferramenta simples e eficaz para identificar precocemente a descompensação cardíaca.

Dietas cardíacas e evidências atuais
Dietas específicas para cardiopatas, com restrição de sódio, triglicerídeos de cadeia média, taurina e ômega-3, foram discutidas.
Apesar dos benefícios metabólicos potenciais, ainda não há evidências conclusivas de que essas dietas alterem a sobrevida, especialmente nos estágios iniciais da doença.
“Eu utilizo dietas cardíacas principalmente em pacientes no estágio C, mas é importante reconhecer que as evidências ainda são limitadas”, ponderou.
Avanços intervencionistas: reparo valvar minimamente invasivo
Encerrando a palestra, Scansen abordou os avanços em terapias intervencionistas, destacando o reparo mitral por cateter (TEER) em cães.
O procedimento, realizado por acesso minimamente invasivo ao ápice do ventrículo esquerdo, permite reduzir significativamente a regurgitação sem necessidade de circulação extracorpórea.
“Não estamos apenas tratando sintomas, mas começando a corrigir a causa primária da doença”, afirmou.
Estudos iniciais demonstraram alta taxa de sucesso técnico, melhora da regurgitação e sobrevida superior a dois anos em muitos casos.
Perspectivas futuras
Segundo o palestrante, embora a cirurgia aberta de valva mitral ainda seja pouco acessível e onerosa, as técnicas minimamente invasivas representam uma fronteira promissora na cardiologia veterinária.
“A doença cardíaca é um processo contínuo. Quanto mais cedo identificamos o problema e aplicamos terapias baseadas em evidências, maior é a chance de prolongar a vida e a qualidade de vida dos nossos pacientes”, concluiu.

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