O resgate de oito gatos submetidos a um esquema clandestino de coleta de sangue em Monte Alto (SP), noticiado pelo G1, trouxe à tona riscos e lacunas na hemoterapia veterinária.
Os animais foram encontrados em situação crítica — com sinais de anemia, desnutrição, parasitas e áreas raspadas no pescoço, indicativo do ponto de coleta de sangue.
Dois gatos chegaram em estado grave e, segundo a veterinária responsável pelo tratamento, Carla Adriana Marconato, uma intervenção rápida foi essencial para salvar suas vidas.
O caso expôs a vulnerabilidade dos animais e a ausência de fiscalização adequada e de regulamentação específica para bancos de sangue veterinários no Brasil.
Além dos riscos físicos, um dos gatos foi diagnosticado com FIV (vírus da imunodeficiência felina), possivelmente transmitido durante as transfusões irregulares.
A repercussão do episódio levantou a necessidade de discutir normas, protocolos e boas práticas de hemoterapia para garantir segurança tanto para os doadores quanto para os receptores felinos.
Para esclarecer os aspectos técnicos do processo e as medidas de segurança que devem ser adotadas, conversamos com Isabella Zeque Macedo, médica-veterinária e gerente assistencial de pacientes ambulatoriais do Veros Hospital Veterinário, e Ian Seiji Matsumura Weimann, médico-veterinário e coordenador de laboratório no Hospital Amarvets.
Protocolos e segurança na transfusão felina – Segundo Isabella Zeque Macedo, a hemoterapia veterinária ainda carece de regulamentação federal específica.
“No Brasil, ainda não existe uma legislação que regulamente bancos de sangue veterinários de forma uniforme. Seguimos resoluções do Conselho Federal de Medicina Veterinária, diretrizes da ABVHMT e da ANVISA, que orientam a prática e garantem a segurança transfusional”, explica.

Para ela, a segurança depende de cuidados rigorosos durante todas as etapas: desde a seleção do doador até a administração do hemocomponente.
“É fundamental avaliar criteriosamente o doador e o receptor, realizar a tipagem sanguínea e os testes de compatibilidade, além de monitorar continuamente o paciente durante a transfusão. Toda a rastreabilidade precisa ser registrada, garantindo qualidade, segurança e responsabilidade”, afirma.
Ian Weimann reforça que o controle de compatibilidade é crítico para evitar reações transfusionais graves. “A transfusão de sangue felino exige atenção máxima à tipagem e ao teste de compatibilidade.
Durante a infusão, parâmetros vitais como temperatura, mucosas e comportamento precisam ser monitorados. Cada etapa deve ser documentada, pois a rastreabilidade é sinônimo de segurança”, complementa.
Sobre a seleção de doadores, Isabella detalha critérios específicos.
“Os gatos doadores devem ter pelo menos 4 kg, estar clinicamente saudáveis, vacinados, vermifugados e livres de ectoparasitas. Não podem possuir histórico de transfusões anteriores. Exames laboratoriais incluem hemograma completo, função renal e hepática, além de testes para retrovírus felinos e hemoplasmas”, explica.
Ian acrescenta que o temperamento do animal também é relevante: “Um doador tranquilo e cooperativo reduz riscos de estresse e complicações durante a coleta”.
