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Trazodona: real aliada nos atendimentos de cães?

Modulador de serotonina tem sido cada vez mais utilizado para reduzir estresse e agressividade, mas exige avaliação individualizada e atenção a efeitos colaterais

Trazodona: real aliada nos atendimentos de cães?
Por Danielle Assis
27 de março de 2026

As terapias com a finalidade de modular o comportamento e a resposta ao estresse dos animais estão se tornando cada vez mais comuns na prática clínica veterinária. 

Em gatos muito se fala sobre a gabapentina, que se tornou o medicamento mais prescrito no mundo para minimizar a ansiólise na espécie. Para cães, até um certo tempo não havia nenhum fármaco conhecido por essa ação. 

No entanto, pouco a pouco a trazodona está conquistando seu espaço nos consultórios veterinários, mas ainda existem muitas dúvidas e questionamentos sobre os seus reais efeitos, sejam elas positivos ou colaterais. 

Segundo Laís Villa Demétrio, médica-veterinária com ênfase em Anestesiologia, Fisiologia e Farmacologia, mestre em Ciência Animal e docente de cursos da Sinapse Vet Capacitações, a trazodona é um medicamento pertencente à classe dos moduladores de serotonina. Na Medicina Humana, tem sido utilizada como terapia para depressão, agressão, insônia e ansiedade desde 1981.

“Esse é um fármaco que bloqueia seletivamente a recaptação da serotonina, aumentando os efeitos da serotonina no organismo. É um antagonista dos receptores 5-HT2A, histamínico H1 e α1-adrenérgico em doses baixas a moderadas, resultando em vários níveis de sedação e ansiólise, podendo apresentar efeitos hipotensores”, cita.

Devido a essa forma de ação, a medicação tem ganhado popularidade na rotina veterinária de pequenos animais, principalmente na prescrição para animais agressivos. 

Resposta dos animais é individual 

Por mais que a trazodona seja considerada uma aliada, sua ação depende de alguns fatores. Dentre eles, a resposta do animal ao medicamento e a forma de uso. 

Conforme explica a especialista, a trazodona deve ser administrada cerca de uma hora antes de possíveis estímulos indutores de ansiedade. Seu início de ação é de 30 a 60 minutos, apresentando duração do efeito em torno de quatro horas ou mais. 

“A medicação pode ser administrada em doses de cinco a 12 mg/kg, mas na literatura podemos encontrar indicações que variam de 1,7 a 19,5 mg/kg/dia ou em episódios isolados, como antes de um evento estressor, como ida à clínica veterinária, chuva forte e até mesmo durante internamentos, no caso de cães mais agitados e ansiosos”, afirma. 

Além disso, para complementar, Demétrio detalha que desde 2008 estudos investigam o benefício da trazodona para reduzir a ansiedade em cães hospitalizados e após cirurgia ortopédica envolvendo confinamento.

Outro ponto importante é que o composto original do fármaco possui meia-vida de eliminação de, aproximadamente, sete horas em comprimidos de liberação imediata. Porém, deve-se prestar atenção nas apresentações de uso humano, pois existem formulações de 150 e 300 mg de liberação lenta que não devem ser prescritas para animais. 

“O ideal é manipular e testar diferentes doses do medicamento antes de uma data específica para avaliar como o cão se comporta. Existem cães que ao receber uma dose de cinco a oito mg/kg não manifestam nenhuma sedação e continuam sendo de difícil manejo por conta da agressividade, necessitando de doses maiores. Em contrapartida, alguns animais sedam bem com doses baixas”, aconselha. 

Efeitos colaterais e interações medicamentosas 

Assim como qualquer fármaco, a trazodona também pode causar efeitos colaterais nos cães. 

Laís explica que os mais relatados na literatura são espasmos, sonolência, respiração ofegante, vômito, mudança comportamental, excitação, sedação, aumento da fome, colite e agressão (ato de rosnar). 

Além disso, ao prescrever a trazodona é importante tomar cuidado com certas medicações, visto que dependendo da associação é preciso alterar o protocolo terapêutico. 

“Quando administrada em combinação com antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina, ou inibidores seletivos da recaptação de serotonina, como tramadol, recomenda-se iniciar a dose de trazodona com duas a cinco mg/kg e aumentar conforme necessário até uma dose máxima de 14 mg/kg/d, observando sinais pelo risco do desenvolvimento de síndrome serotoninérgica”, pontua a especialista.

Mais um alerta importante é que a trazodona sofre extenso metabolismo no fígado e é predominantemente excretada pelos rins. Por isso, deve-se ter cautela com o uso em animais com hepatopatias e nefropatias. 

Uso contínuo e pontual são permitidos 

De acordo com a médica-veterinária, o uso pontual desse fármaco é indicado para reduzir o estresse em situações específicas, como a ida de animais agressivos/agitados à clínica veterinária. 

Já o uso contínuo na Medicina Veterinária é mais comum em animais idosos com alterações no ciclo sono-vigília. 

“Nestes casos, a trazodona pode ser iniciada em doses baixas, sempre no período noturno e por volta de uma hora antes da família ir dormir. Contudo, o veterinário responsável pelo paciente também pode avaliar o seu uso contínuo em situações na qual a agressividade, o medo, a ansiedade e a agitação do animal estejam sendo um problema recorrente”, informa. 

Trazodona ou gabapentina? 

Há tempos a gabapentina tem sido o fármaco de escolha para regular a ansiedade e agressividade em felinos. Esse é um fármaco anticonvulsivante, que age reduzindo a ação dos canais de cálcio e a liberação de glutamato e da substância P. 

Por mais que esse mecanismo de ação seja diferente da trazodona, ambas as medicações possuem ação ansiolítica. No entanto, em cães, o uso da gabapentina para acalmar e modular o comportamento não é tão comum, existindo um motivo para isso.  

Laís afirma que na rotina clínica a trazodona costuma ocasionar um efeito mais intenso do que a gabapentina em cães com dose única antes do efeito estressor. 

“Nos felinos, o uso da gabapentina para esse tipo de manejo já é amplamente estudado e consolidado na prática clínica, de modo que a trazodona é mais frequentemente empregada em cães, enquanto a gabapentina permanece como fármaco de escolha para o manejo comportamental dos gatos”, conclui. 

Confira o artigo completo “Trazodona: real aliada nos atendimentos de cães?“, na íntegra e sem custo, acessando a página 50 da edição de março (nº 319) da Revista Cães e Gatos.