As terapias com a finalidade de modular o comportamento e a resposta ao estresse dos animais estão se tornando cada vez mais comuns na prática clínica veterinária.
Em gatos muito se fala sobre a gabapentina, que se tornou o medicamento mais prescrito no mundo para minimizar a ansiólise na espécie. Para cães, até um certo tempo não havia nenhum fármaco conhecido por essa ação.
No entanto, pouco a pouco a trazodona está conquistando seu espaço nos consultórios veterinários, mas ainda existem muitas dúvidas e questionamentos sobre os seus reais efeitos, sejam elas positivos ou colaterais.
Segundo Laís Villa Demétrio, médica-veterinária com ênfase em Anestesiologia, Fisiologia e Farmacologia, mestre em Ciência Animal e docente de cursos da Sinapse Vet Capacitações, a trazodona é um medicamento pertencente à classe dos moduladores de serotonina. Na Medicina Humana, tem sido utilizada como terapia para depressão, agressão, insônia e ansiedade desde 1981.
“Esse é um fármaco que bloqueia seletivamente a recaptação da serotonina, aumentando os efeitos da serotonina no organismo. É um antagonista dos receptores 5-HT2A, histamínico H1 e α1-adrenérgico em doses baixas a moderadas, resultando em vários níveis de sedação e ansiólise, podendo apresentar efeitos hipotensores”, cita.
Devido a essa forma de ação, a medicação tem ganhado popularidade na rotina veterinária de pequenos animais, principalmente na prescrição para animais agressivos.
Resposta dos animais é individual
Por mais que a trazodona seja considerada uma aliada, sua ação depende de alguns fatores. Dentre eles, a resposta do animal ao medicamento e a forma de uso.
Conforme explica a especialista, a trazodona deve ser administrada cerca de uma hora antes de possíveis estímulos indutores de ansiedade. Seu início de ação é de 30 a 60 minutos, apresentando duração do efeito em torno de quatro horas ou mais.
“A medicação pode ser administrada em doses de cinco a 12 mg/kg, mas na literatura podemos encontrar indicações que variam de 1,7 a 19,5 mg/kg/dia ou em episódios isolados, como antes de um evento estressor, como ida à clínica veterinária, chuva forte e até mesmo durante internamentos, no caso de cães mais agitados e ansiosos”, afirma.
Além disso, para complementar, Demétrio detalha que desde 2008 estudos investigam o benefício da trazodona para reduzir a ansiedade em cães hospitalizados e após cirurgia ortopédica envolvendo confinamento.
Outro ponto importante é que o composto original do fármaco possui meia-vida de eliminação de, aproximadamente, sete horas em comprimidos de liberação imediata. Porém, deve-se prestar atenção nas apresentações de uso humano, pois existem formulações de 150 e 300 mg de liberação lenta que não devem ser prescritas para animais.
“O ideal é manipular e testar diferentes doses do medicamento antes de uma data específica para avaliar como o cão se comporta. Existem cães que ao receber uma dose de cinco a oito mg/kg não manifestam nenhuma sedação e continuam sendo de difícil manejo por conta da agressividade, necessitando de doses maiores. Em contrapartida, alguns animais sedam bem com doses baixas”, aconselha.
Efeitos colaterais e interações medicamentosas
Assim como qualquer fármaco, a trazodona também pode causar efeitos colaterais nos cães.
Laís explica que os mais relatados na literatura são espasmos, sonolência, respiração ofegante, vômito, mudança comportamental, excitação, sedação, aumento da fome, colite e agressão (ato de rosnar).
Além disso, ao prescrever a trazodona é importante tomar cuidado com certas medicações, visto que dependendo da associação é preciso alterar o protocolo terapêutico.
“Quando administrada em combinação com antidepressivos tricíclicos, como a amitriptilina, ou inibidores seletivos da recaptação de serotonina, como tramadol, recomenda-se iniciar a dose de trazodona com duas a cinco mg/kg e aumentar conforme necessário até uma dose máxima de 14 mg/kg/d, observando sinais pelo risco do desenvolvimento de síndrome serotoninérgica”, pontua a especialista.
Mais um alerta importante é que a trazodona sofre extenso metabolismo no fígado e é predominantemente excretada pelos rins. Por isso, deve-se ter cautela com o uso em animais com hepatopatias e nefropatias.
Uso contínuo e pontual são permitidos
De acordo com a médica-veterinária, o uso pontual desse fármaco é indicado para reduzir o estresse em situações específicas, como a ida de animais agressivos/agitados à clínica veterinária.
Já o uso contínuo na Medicina Veterinária é mais comum em animais idosos com alterações no ciclo sono-vigília.
“Nestes casos, a trazodona pode ser iniciada em doses baixas, sempre no período noturno e por volta de uma hora antes da família ir dormir. Contudo, o veterinário responsável pelo paciente também pode avaliar o seu uso contínuo em situações na qual a agressividade, o medo, a ansiedade e a agitação do animal estejam sendo um problema recorrente”, informa.
Trazodona ou gabapentina?
Há tempos a gabapentina tem sido o fármaco de escolha para regular a ansiedade e agressividade em felinos. Esse é um fármaco anticonvulsivante, que age reduzindo a ação dos canais de cálcio e a liberação de glutamato e da substância P.
Por mais que esse mecanismo de ação seja diferente da trazodona, ambas as medicações possuem ação ansiolítica. No entanto, em cães, o uso da gabapentina para acalmar e modular o comportamento não é tão comum, existindo um motivo para isso.
Laís afirma que na rotina clínica a trazodona costuma ocasionar um efeito mais intenso do que a gabapentina em cães com dose única antes do efeito estressor.
“Nos felinos, o uso da gabapentina para esse tipo de manejo já é amplamente estudado e consolidado na prática clínica, de modo que a trazodona é mais frequentemente empregada em cães, enquanto a gabapentina permanece como fármaco de escolha para o manejo comportamental dos gatos”, conclui.
