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VMX 2026 apresenta discussão sobre dilemas éticos da telemedicina veterinária

A telemedicina veterinária possui vantagens e desvantagens, sendo fundamental aos médicos-veterinários manter a ética durante a sua prática

VMX 2026 apresenta discussão sobre dilemas éticos da telemedicina veterinária
Por Danielle Assis
20 de janeiro de 2026

No quarto dia da VMX 2026, maior feira veterinária do mundo, que acontece de 17 a 21 de janeiro em Orlando (EUA), a médica-veterinária e docente de telemedicina na Faculdade de Medicina Veterinária e Ciências Biomédicas da Universidade Texas A&M, Lori Teller, trouxe um parâmetro sobre os dilemas éticos e legais da telemedicina veterinária.

No início da apresentação, a profissional abordou algumas definições pertinentes ao tema. Para começar, falou sobre telehealth, que é o termo geral para definir teleorientação. Basicamente, consiste na prática de fornecer ao tutor de um paciente informações básicas, orientação e conselhos gerais sobre um problema que está acontecendo com o animal.

Em seguida, falou sobre a teletriagem, usada para determinar a urgência de uma situação.

“Se um responsável liga relatando que o cão está vomitando, o médico-veterinário ou um técnico veterinário habilitado pode prestar serviços de triagem para ajudar a determinar se o animal precisa ser atendido imediatamente (nas próximas horas) ou se pode esperar até o próximo dia útil ou até alguns dias”, explicou.

Por fim, há a telemedicina, prática utilizada para realizar um diagnóstico, determinar um prognóstico e orientar quanto ao tratamento de um caso clínico.

cachorro telemedicina
A telemedicina veterinária está em expansão em todo o mundo (Foto: Reprodução)

Relação Veterinário–Cliente–Paciente (VCPR)

A Relação Veterinário–Cliente–Paciente (VCPR) acontece quando uma pessoa leva um paciente até o veterinário e existe a concordância em fornecer cuidados, e – da parte do cliente – seguir as orientações.

A grande maioria dos estados americanos exige que a VCPR seja estabelecida por meio de exame presencial ou visita adequada e oportuna às instalações onde os animais são mantidos, tal como, fazendas, ranchos e abrigos.

Dessa forma, uma particularidade da telemedicina nos EUA é que, conforme a Food and Drug Administration (FDA), uma vez estabelecida a VCPR presencial, é permitido usar a telemedicina para acompanhamento, inclusive em casos de uso extra-rótulo de medicamentos (o que inclui produtos manipulados e medicamentos de uso humano).

“Alguns estados permitem VCPR virtual, mas – ainda assim – deve-se seguir todas as regras federais, especialmente sobre medicamentos extra-rótulo”, citou a veterinária.

Vantagens e destantagens da telemedicina veterinária

A ética é um dos aspectos mais discutidos quando se fala em telemedicina veterinária. Para a especialista, é importante considerar qual é o padrão de cuidado ao usar a ferramenta, visto que é preciso garantir que a qualidade do atendimento não seja comprometida.

“O maior risco da telemedicina é a falha ou atraso no diagnóstico. Mas existem outras preocupações, como equidade e acessibilidade; prescrição excessiva ou inadequada (especialmente antibióticos e analgésicos); falha na continuidade do cuidado; e confiabilidade da tecnologia, visto que nem todos têm acesso à internet estável”, pontuou.

Por outro lado, existem diversos benefícios associados a essa prática. Dentre eles, estão apoio em surtos; possibilidade de triagem adequada; redução da sobrecarga de clínicas de emergência; acompanhamento de doenças crônicas (osteoartrite e diabetes, por exemplo); monitoramento remoto de animais de produção; e redução da ansiedade do tutor.

Já com relação as limitações, na apresentação as principais destacadas foram a impossibilidade de realizar um exame físico completo, tocar, cheirar ou observar todos os sinais clínicos, sendo importante que os clientes entendam essas dificuldades.

Princípios éticos aplicados à telemedicina

Muitos princípios relacionados a ética utilizados na telemedicina veterinária foram adaptados da Medicina Humana. De acordo com a veterinária, são eles:

  • Autonomia: direito de escolha e consentimento;
  • Beneficência: agir sempre no melhor interesse do paciente;
  • Não maleficência: não causar dano ao paciente e nem à sociedade;
  • Justiça distributiva: equidade no acesso e uso dos recursos.

“A telemedicina pode ampliar o acesso para pessoas com dificuldades de mobilidade ou renda, mas não deve criar um sistema de duas camadas, onde populações vulneráveis tenham apenas atendimento remoto”, citou.

No entanto, também existem conflitos éticos que precisam ser discutidos, como o fato de algumas empresas farmacêuticas utilizarem a telemedicina como ferramenta de marketing. O problema por trás dessa prática é que pode levar a prescrição inadequada; perda de confiança do público; falta de integração com o veterinário habitual; e ausência de diagnóstico adequado.

“Há também o uso de influenciadores digitais, inclusive na Medicina Veterinária, que são pagos para promover medicamentos e produtos”, comentou Teller.

médico-veterinário telemedicina
Durante a prática da telemdicina é preciso que os médicos-veterináos mantenham os princípios éticos (Foto: Reprodução)

Riscos legais e de responsabilidade profissional

Estudos mostram que 66% a 71% das ações judiciais relacionadas à telemedicina envolvem erro de diagnóstico. Em comparação, as consultas presenciais apresentam cerca de 47%.

Dentre os principais motivos das ações estão falhas no diagnóstico por falta de exame físico; ausência de acompanhamento; prescrição inadequada; e atraso no atendimento de emergência.

Sendo assim, ao finalizar a palestra a especialista apresentou uma conclusão:

“A telemedicina não é boa nem ruim em si. Ela não é ética nem antiética por natureza. É uma ferramenta, e tudo depende de como escolhemos usá-la”, concluiu.