Os antibióticos revolucionaram a Medicina humana e veterinária no século passado, transformando infecções antes fatais em condições perfeitamente tratáveis.
Entretanto, nas últimas décadas, o uso inadequado, indiscriminado ou profilático sem critérios técnicos rigorosos acelerou a seleção e a disseminação de microrganismos resistentes, ameaçando severamente a eficácia dos tratamentos disponíveis no mercado global.
A resistência antimicrobiana já deixou de ser uma previsão teórica futura para se consolidar como uma das maiores ameaças contemporâneas à saúde pública mundial.
Dados epidemiológicos apontam que infecções causadas por bactérias multirresistentes são responsáveis por centenas de milhares de mortes humanas anualmente.
No ecossistema da Medicina Veterinária de pequenos animais, a proximidade física e afetiva entre responsáveis e seus animais de companhia atua como uma via bidirecional de transmissão de determinantes de resistência, transformando cães e gatos em reservatórios potenciais de patógenos críticos.
Estudos de vigilância molecular indicam um crescimento alarmante no isolamento de cepas de Staphylococcus pseudintermedius resistentes à meticilina em piodermites e otites caninas, além de enterobactérias, como a Escherichia coli, produtoras de betalactamases de espectro estendido em infecções do trato urinário.
Diante desse cenário complexo, cada prescrição de antibiótico realizada na clínica médica representa uma decisão terapêutica crucial e uma oportunidade única de preservar a eficácia biológica desses medicamentos para as próximas gerações.
Resistência antimicrobiana e a abordagem One Health
A interconexão intrínseca entre a saúde humana, animal e a integridade ambiental forma o tripé do conceito de Saúde Única (One Health).
A resistência bacteriana exemplifica perfeitamente a necessidade dessa abordagem integrada, visto que genes de resistência circulam livremente entre diferentes nichos ecológicos.
O uso de antimicrobianos em animais de companhia exerce uma pressão seletiva contínua na microbiota comensal desses pacientes. Quando um fármaco é administrado incorretamente, as cepas bacterianas sensíveis são eliminadas, abrindo espaço ecológico para a proliferação daquelas que possuem mutações cromossômicas ou elementos genéticos móveis de resistência.
O médico-veterinário desempenha, portanto, um papel estratégico fundamental na linha de frente epidemiológica, prevenindo a disseminação dessas superinfecções tanto para outros animais quanto para os seres humanos que com eles coabitam.

Princípios do stewardship antimicrobiano
O termo stewardship antimicrobiano refere-se a um conjunto de ações gerenciadas e sistêmicas que buscam garantir o uso estritamente racional e prudente dos antibióticos.
O objetivo principal não é meramente restringir a utilização, mas sim otimizar a seleção do fármaco, a dose, a via de administração e a duração do tratamento para alcançar o máximo efeito terapêutico com o mínimo de efeitos colaterais e menor pressão seletiva sobre a microbiota do hospedeiro.
Para que o stewardship seja efetivo, a conduta clínica deve se basear em pilares robustos: diagnóstico preciso da etiologia bacteriana, compreensão detalhada do sítio de infecção, aplicação de ferramentas laboratoriais e conscientização do responsável pelo animal.

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